2026 para as retíficas de motores: entre a maré contrária e as rotas de crescimento

2026 para as retíficas de motores: entre a maré contrária e as rotas de crescimento


  • Daniel Freitas Resende

Para as retíficas de motores, 2026 se anuncia como um ano de ajustes finos, margens pressionadas e decisões estratégicas que não admitem improviso. De um lado, a economia dá sinais de arrefecimento, com o agronegócio — grande demandante de manutenção de motores de máquinas, caminhões e geradores — atravessando um ciclo de retração que tende a reduzir a renovação de frota e alongar a vida útil de ativos. De outro, a implementação da reforma tributária, com regulamentações e leis complementares aprovadas em 2025, inaugura uma fase de convivência entre tributos antigos e novos, mudança na lógica de créditos e maior escrutínio sobre a tributação de altas rendas. O resultado é um cenário em que continuar fazendo o que sempre foi feito pode custar caro, mas quem se move com método descobre espaços de crescimento onde outros verão apenas riscos.

O primeiro grande vetor de mudança é fiscal e operacional ao mesmo tempo. A transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo traz a promessa de neutralidade e simplificação, mas, na prática, começa por uma temporada de dupla checagem de notas, reclassificações e reconciliações de crédito que exigem disciplina de dados. O setor de retífica reúne particularidades que o colocam no meio do caminho entre indústria e serviço: há insumos físicos relevantes (peças, abrasivos, lubrificantes, energia) e uma parcela intensiva de mão de obra qualificada. Nesse cruzamento, a capacidade de documentar insumos, capturar créditos e comprovar a conexão com a atividade-fim fará diferença direta na alíquota efetiva, sobretudo quando comparada ao passado recente do ISS e do PIS/Cofins. Ao mesmo tempo, empresas enquadradas no lucro presumido sentem a pressão: o discurso de aumento da carga para esse regime, somado à menor tolerância a planejamentos agressivos, força uma revisão fria das contas. Em muitas praças, a migração para o lucro real, antes rejeitada pelo aumento do compliance, passa a ser uma hipótese racional quando se consideram créditos não cumulativos, margens brutas por linha de serviço e a possibilidade de aproveitar prejuízos fiscais em um ano mais difícil. O recado é pragmático: simular cenários com DRE segmentado, custo por ordem de serviço e perfil de compras é obrigação de janeiro, não de dezembro.

No nível societário e patrimonial, o foco do Poder Público na tributação de altas rendas segue firme. Depois das mudanças já conhecidas em estruturas de investimento no exterior e fundos exclusivos, 2026 tende a consolidar uma cultura de transparência e substância econômica. Para empresários do setor, isso atinge dois pontos sensíveis: a lógica de distribuição de resultados e a organização do patrimônio. O conforto de dividendos isentos vem sendo substituído por uma combinação de pró-labore adequado, distribuição planejada e reservas de lucros coerentes com as necessidades de capital de giro e investimento. Aqui, a boa governança se paga duas vezes: melhora o relacionamento bancário em um ano de crédito seletivo e reduz passivos tributários latentes. No patrimônio, estruturas internacionais continuam a ter espaço, mas apenas quando possuem finalidade econômica clara, documentação impecável e aderência a regras de preço de transferência e controladas no exterior. O improviso “offshore” sem substância é, além de arriscado, contraproducente; o planejamento patrimonial sério combina proteção, sucessão e eficiência dentro das linhas aceitas pelos reguladores.

A conjuntura macroeconômica completa o quadro de desafios. Com o agronegócio menos exuberante, produtores e transportadores tendem a “rodar” ativos por mais tempo, adiar trocas e negociar cada centavo. Paradoxalmente, isso cria uma janela favorável às retíficas que souberem redesenhar ofertas: contratos de manutenção programada com preço previsível, pacotes que combinem mão de obra, peças recuperadas e garantia estendida, além de serviços de diagnóstico preditivo, tornam-se mais atrativos quando o cliente quer alongar ciclos de substituição. Em um ambiente de demanda mais elástica a preço, transparência de composição de custos e cláusulas de repasse tributário bem redigidas deixam de ser detalhe jurídico e viram ferramenta comercial. Indexar contratos a insumos críticos e à variação tributária aplicável — com métricas objetivas e gatilhos claros — reduz disputas e preserva margens. Também é hora de atacar desperdícios: revisão de consumo energético das máquinas, renegociação logística para coleta e entrega, padronização de processos e treinamento técnico têm retorno rápido quando cada ponto de margem importa.

No tabuleiro competitivo, 2026 pode acelerar um movimento silencioso de consolidação. Oficinas mecânicas menores, com dificuldade de investir em compliance e sistemas, podem se tornar bons alvos de aquisição ou associação, expandindo presença geográfica e carteira de clientes com sinergias em compras e administração. Para quem não pretende comprar, há espaço para alianças operacionais: o cooperativismo pode ser uma boa fonte inspiradora para o setor. A lógica é simples: escala reduz custo, melhora prazo e cria barreiras de saída para o cliente.

A discussão sobre estruturas internacionais merece maturidade. A figura da trading no exterior pode ser útil para consolidar compras de componentes, negociar em moeda forte, reduzir fricções logísticas e mitigar riscos cambiais, desde que haja propósito operacional, substância (gente, processos, contratos reais) e aderência às regras brasileiras de preço de transferência, reformuladas recentemente para o padrão OCDE. Não se trata de “pular imposto”, mas de organizar a cadeia para ganhar previsibilidade e custo total menor, inclusive com hedge mais inteligente. Além das operações, estruturas de proteção patrimonial no exterior podem desempenhar papel relevante na sucessão e na segregação de riscos, sobretudo para grupos familiares com negócios industriais, imobiliários e rurais. Contudo, depois do endurecimento das regras de transparência e do tratamento de rendimentos no exterior, esses arranjos precisam ser desenhados com governança, contabilidade internacional e documentação que resista ao teste de propósito. A ausência desses elementos transforma oportunidade em passivo.

Há, ainda, um campo fértil em ESG aplicado à realidade da retífica. A recuperação de componentes em vez da substituição integral, a destinação correta de resíduos, a rastreabilidade de peças e o reaproveitamento de materiais nobres alinham-se à agenda de circularidade e reduzem custo. Clientes corporativos — frotistas, concessionárias e agroindústrias — valorizam evidências: certificados de destinação, indicadores de reaproveitamento, controle de emissões do processo produtivo e ergonomia no chão de fábrica. Esses tópicos, quando integrados ao discurso comercial, podem diferenciar propostas em disputas apertadas de preço.

Nada disso dispensa caixa, equipe e método. Em finanças, o ano pede estoques mais enxutos e com giro acompanhado semanalmente, crédito negociado com base em demonstrações limpas e proteção cambial para quem importa — mesmo que seja via cláusulas comerciais com fornecedores, quando derivativos formais não façam sentido. Em pessoas, a escassez de mão de obra verdadeiramente qualificada persiste; investir em formação técnica, trilhas de carreira e programas de retenção custa menos do que refazer serviços e perder reputação. Em tecnologia, não se trata de “virar tech”, mas de escolher ferramentas simples que resolvam dores reais.

Se 2026 parece hostil, é porque pede profissionalismo. A reforma tributária exige que o retificador conheça melhor seus processos do que o fiscal; a tributação de altas rendas exige que o empresário conheça melhor seus números do que o banco; a retração do agro exige que a oferta seja tão boa que adiar o conserto deixe de ser racional. Ao mesmo tempo, as oportunidades estão em todas as bordas: capturar créditos e redesenhar o regime tributário com base em dados, consolidar operações para ganhar escala, oferecer contratos de manutenção que transformem custo incerto em previsível, usar estruturas internacionais quando fizerem sentido operacional e patrimonial, e converter ESG do discurso à prática como argumento de venda. Quem entrar em 2026 com essa agenda na mesa, e disciplina para executá-la trimestre a trimestre, não apenas atravessará a maré contrária, como sairá do outro lado com um negócio mais resiliente, rentável e preparado para o próximo ciclo.

  • Daniel Freitas Resende é sócio da Resende Diesel – retífica de motores credenciada ao CONAREM – desde 2008 e advogado do CONAREM.