Da Redação
O Brasil vive um paradoxo incômodo — e cada vez mais difícil de ignorar. Empresas procuram, anunciam, chamam, oferecem. E não encontram. A falta de mão de obra deixou de ser pontual, setorial ou conjuntural. Tornou-se generalizada. Da indústria ao comércio, da logística aos serviços, o mesmo diagnóstico se repete: há vagas abertas, mas faltam pessoas dispostas a ocupá-las.
Não é crise econômica clássica, tampouco falta de oportunidade. É outra coisa. Uma mudança silenciosa no pacto entre trabalho, renda e expectativa de vida. Muitos contratos de emprego estão sendo recusados ou abandonados em favor de programas de transferência de renda, com o Bolsa Família no centro desse debate — ainda que ele não seja a única variável da equação.
O problema não é a existência do programa. Ele cumpre um papel social relevante, especialmente em contextos de vulnerabilidade extrema. O problema começa quando o benefício deixa de ser ponte e passa a ser destino. Em diversos setores, empresários relatam dificuldade real de contratação porque o salário inicial, somado aos custos de transporte, alimentação e jornada, não compete com a previsibilidade mínima garantida pelo benefício.
Há algo estrutural acontecendo. Parte da força de trabalho saiu do mercado formal e não voltou. Outra parte passou a rejeitar vínculos tradicionais, horários rígidos e funções de entrada. Não se trata apenas de “falta de vontade de trabalhar”, como o discurso raso costuma apontar. Trata-se de um desalinhamento profundo entre o que o mercado oferece e o que as pessoas enxergam como esforço minimamente compensador.
O resultado é perverso para todos. Empresas perdem contratos por incapacidade operacional. Serviços atrasam. A produtividade cai. Quem quer crescer, trava. Quem já opera no limite, encolhe. E o país, que precisa desesperadamente aumentar eficiência e competitividade, patina por falta do básico: gente.
O Bolsa Família entra nessa história como catalisador de um dilema mal resolvido. Quando a diferença entre estar empregado ou fora do mercado formal é pequena demais — ou até negativa — algo está errado no desenho do sistema. Não é razoável que o trabalho formal perca atratividade. Não é sustentável que o emprego deixe de ser caminho de ascensão.
O apagão de mão de obra é um sintoma, não a doença. Ele revela falhas na qualificação profissional, na valorização do trabalho técnico, na estrutura salarial de entrada e na articulação entre políticas sociais e políticas de emprego. Enquanto esses temas forem tratados de forma ideológica — seja demonizando programas sociais, seja ignorando os efeitos colaterais — o problema só vai se aprofundar.
O Brasil precisa decidir que mensagem quer passar: trabalhar vale a pena ou não? Porque, hoje, o mercado responde com vagas abertas, e a realidade responde com cadeiras vazias.
E você, como vê essa crise de mão de obra? O problema está no modelo de emprego, nos programas sociais ou na desconexão entre os dois? O Movenews abre o debate.














