Ibevar

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A economia brasileira entrou em 2026 com um cenário de consumo claramente assimétrico, aponta estudo do IBEVAR (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo) em parceria com a FIA Business School. Enquanto o varejo de bens registrou leve retração de 0,48% no primeiro trimestre, o setor de serviços avançou em ritmo mais forte e consistente, impulsionado por modelos digitais, conveniência, recorrência e pela busca por proteção financeira. Os dados mostram uma mudança nítida no padrão de consumo de famílias e empresas, com maior seletividade e cuidado na gestão do orçamento.

No varejo de bens, o desempenho foi bastante desigual. Segmentos essenciais e ligados ao consumo recorrente ainda sustentam crescimento, enquanto bens duráveis e itens considerados supérfluos seguem pressionados pelos juros altos, crédito mais difícil e pela decisão de postergar compras de maior valor. Entre os destaques positivos estão artigos farmacêuticos, médicos e de perfumaria, com alta de 6,86%, impulsionados pelo envelhecimento populacional e pela maior atenção à saúde. Também cresceram vestuário e calçados (+2,69%), equipamentos para escritório e comunicação (+3,97%) e hipermercados e supermercados (+1,02%), evidenciando a resiliência do consumo básico.

Na outra ponta, segmentos como automóveis, motos, peças e componentes (-2,25%), materiais de construção (-1,75%), móveis e eletrodomésticos (-1,99%) e livros e papelaria (-3,56%) seguem em queda. Esse movimento revela menor disposição para compras de tíquete elevado e mudanças estruturais nos hábitos de consumo, com impacto direto em toda a cadeia, da indústria ao pós-venda. O resultado consolidado é um varejo de bens em postura defensiva, concentrado em itens essenciais e com pouca força, no curto prazo, para uma recuperação mais ampla.

SERVIÇOS

Em contraste, o setor de serviços mostrou desempenho bem mais dinâmico no primeiro trimestre de 2026. Os maiores avanços vieram de aplicativos de delivery (+21,2%), seguro residencial (+20,6%) e aplicativos de transporte (+15,9%). O movimento confirma a consolidação do modelo on-demand, o avanço da digitalização do consumo e a procura crescente por previsibilidade e proteção financeira, tanto entre consumidores quanto entre empresas.

Serviços ligados à experiência também registraram crescimento relevante: restaurantes, turismo, shows, spas e academias voltaram a ganhar tração, indicando uma retomada consistente do consumo experiencial, puxada principalmente pelas faixas de renda média e alta. Para muitos consumidores, gastar com uso, conveniência e bem-estar parece hoje mais aceitável do que assumir novas dívidas com bens duráveis.

O bom desempenho dos serviços, porém, não foi homogêneo. Segmentos mais tradicionais e presenciais, como streaming, cinema, teatro, consultoria e cursos, tiveram retração. Entre as causas estão saturação de mercado, mudanças tecnológicas, maior filtro por parte do consumidor e a opção de muitas empresas por soluções internas ou automatizadas. Mesmo assim, o setor como um todo demonstrou maior resiliência, amparado por modelos escaláveis, digitais e com forte componente de receita recorrente.

Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, “a divergência entre bens e serviços reflete um ajuste estrutural no padrão de consumo. As famílias priorizam conveniência, experiência, proteção e recorrência, enquanto reduzem ou adiam a aquisição de bens físicos, especialmente os duráveis. Do lado das empresas, observa-se maior foco em eficiência operacional, digitalização e serviços essenciais, com postergação de investimentos discricionários”.

O quadro indica que a retomada do crescimento ao longo de 2026 deve continuar desigual e dependente da evolução do crédito, da renda real e da confiança do consumidor. No curto prazo, a economia avança mais pelo uso, pela experiência e pelos serviços do que pela compra de bens, consolidando um ciclo ainda cauteloso, mas em clara transformação.