As montadoras chinesas estão transformando o mercado automotivo brasileiro com uma combinação agressiva de investimentos bilionários, foco total na eletrificação e produção local acelerada. Marcas como BYD e GWM (Great Wall Motor) lideram essa ofensiva, elevando sua participação de menos de 1% em 2019 para cerca de 10% em 2025, segundo análises do setor.
Tudo começou em 2009, quando a Chery chegou como importadora e depois montou fábrica em parceria com a Caoa em Anápolis (GO). Outras tentativas, como Lifan e JAC, não vingaram tanto, mas a Chery abriu caminho. O grande salto veio em 2021 com a BYD, que trouxe tecnologia de ponta em elétricos e híbridos, quebrando preconceitos sobre qualidade chinesa e elevando o padrão do segmento.
Em 2024 e 2025, o Brasil recebeu bilhões em aportes chineses — só em 2024 foram 4,1 bilhões de dólares no país, com fatia expressiva para o setor automotivo. A GWM planeja 10 bilhões de reais em dez anos, com fábrica já em operação em Iracemápolis (SP) desde agosto de 2025 e outra prevista em Aracruz (ES), enxergando o país como porta de entrada para toda a América Latina. A BYD investe 5,5 bilhões de reais em Camaçari (BA), ampliando produção para até 20 mil veículos por mês em quatro modelos, com meta de 600 mil unidades anuais e nacionalização acima de 50% até 2027, apoiada por 350 fornecedores locais.
Os números impressionam: a BYD emplacou mais de 111 mil veículos em 2025, com 5,6% do mercado total, dominando os eletrificados — 72% dos 100% elétricos e 34% dos híbridos. O Dolphin Mini virou o elétrico mais vendido do país. A GWM também cresce forte, com modelos como o Haval H6 híbrido no topo dos rankings de eletrificados.
Outras chinesas seguem o ritmo: a GAC Motor anuncia 5,8 bilhões de reais para produção em Catalão (GO) em parceria com a HPE, trazendo SUVs elétricos e híbridos acessíveis. Investimentos totais das chinesas devem chegar a 30 bilhões de reais até 2032, com Chery, GWM e BYD já produzindo localmente.
As gigantes tradicionais sentem a pressão. A Stellantis (23% do mercado em 2025) formou sociedade com a Leapmotor para motores que recarregam baterias e melhorar autonomia, já que a infraestrutura de recarga ainda limita os elétricos puros no Brasil. A Renault se associou à Geely, que comprou 26,4% da operação local e investe 3,8 bilhões de reais em modelos eletrificados de entrada, como o EX2, para competir diretamente com a BYD.
A China produz 30 milhões de veículos por ano (de um total global de 93 milhões em 2024) e enfrenta sobrecapacidade de cerca de 20 milhões de unidades. Por isso, acelera a internacionalização, usando vantagens como baterias baratas (44-56 dólares por kWh contra média global de 115), domínio em matérias-primas, software e eletrônica. Tarifas de importação no Brasil, que subiram para 35% em veículos prontos, incentivam a produção local.
O resultado é inevitável: parcerias com chineses viram estratégia de sobrevivência para muitas montadoras globais. O Brasil se torna plataforma estratégica na América Latina, decidindo se fica só como base produtiva ou ganha mais engenharia e conteúdo local para se tornar mais competitivo. A disputa pela eletrificação redefine o setor, e as chinesas ditam o ritmo.














