Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a demanda de eletricidade associada à eletromobilidade deve crescer exponencialmente até 2035, alcançando 7,8 TWh
A expansão da frota de veículos elétricos — leves e pesados — e a instalação de carregadores domésticos, rápidos e ultrarrápidos (acima de 50 kW) impõem novos desafios à rede elétrica. Além da potência individual dos equipamentos — carregadores residenciais exigindo 7,4 kW ou mais — há o chamado “agrupamento de cargas” em condomínios, garagens coletivas e eletropostos (hubs de recarga), que pode sobrecarregar pontos específicos da rede.
Em relação ao cenário anterior à eletromobilidade, a instalação de carregadores residenciais costuma demandar aumento da potência contratada a fim de garantir segurança e evitar sobrecargas. No caso dos eletropostos, mesmo com a instalação apropriada, há fatores além da instalação interna, como o limite de potência do transformador, que, via de regra, pertence à concessionária de energia, explica Carlos Gabriel Bianchin, pesquisador do Lactec — um dos principais centros de pesquisa, tecnologia e inovação do país.
Ele cita os casos nos quais o projeto foi elaborado para um eletroposto com determinado dimensionamento e, com o avanço, os carros passam a demandar mais potência de recarga. “Nesse cenário, os proprietários de eletropostos podem ter a intenção de trocar o eletroposto por uma unidade mais potente para atender melhor as recargas dos usuários. Todavia, isso deve ser precedido de revisão da instalação, pois quando negligenciado, o resultado pode ser a sobrecarga com destruição do eletroposto e eventual dano ao veículo que estiver conectado em processo de recarga”, analisa o pesquisador.
Demanda de eletricidade
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo de eletricidade relacionado aos veículos elétricos deve saltar de 627 GWh, em 2025, para 7,8 TWh, em 2035 — crescimento médio anual próximo de 29% ao longo da década.
Para Bianchin, o cenário reforça a necessidade de incorporar essa nova carga ao planejamento do setor elétrico e ao desenho tarifário. “A disponibilidade de energia não é o principal problema. A questão está associada ao custo, especialmente para eletropostos”, afirma. De acordo com ele, o investimento inicial em equipamentos de recarga já é elevado e pode se tornar ainda mais oneroso diante dos custos mensais de energia. “À medida que a potência instalada aumenta, o consumidor pode migrar para outras modalidades tarifárias ou até para o mercado livre, buscando reduzir despesas”, explica.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que o Brasil conta com cerca de 17 mil eletropostos públicos e semipúblicos: aproximadamente 13 mil de recarga lenta (AC, com tempo de 5 a 12 horas) e cerca de 4 mil de recarga rápida (DC, com tempo entre 20 minutos e 1 hora). Esse número deve escalar rapidamente devido ao déficit significativo de pontos de recarga rápida no Brasil.
Impactos na infraestrutura
O fenômeno não se restringe ao Brasil. A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que a demanda por eletricidade crescerá 2,5 vezes mais rápido que a demanda total por energia até 2030, tendo os veículos elétricos como um dos principais vetores.
Estudo da Universidade de Houston (EUA), que analisou redes residenciais com alta penetração de veículos elétricos, aponta que o carregamento concentrado — especialmente no período noturno — pode aumentar significativamente os picos de consumo, provocando quedas de tensão, maiores perdas técnicas e sobrecarga de linhas e transformadores.
“A recarga simultânea de vários veículos pode superar a capacidade da rede local e exigir obras de infraestrutura complexas e caras”, alerta Bianchin. Apesar disso, o pesquisador avalia que as distribuidoras brasileiras estão, de modo geral, preparadas para a expansão da eletromobilidade. “Pode haver ajustes pontuais, mas nada crítico. O maior desafio é o acúmulo de potência em determinados horários — por exemplo, em prédios onde vários moradores carregam seus veículos ao mesmo tempo. Isso pode ser solucionado com sistemas de recarga inteligente”, afirma.
Em áreas com infraestrutura antiga ou com alta concentração de carregadores, o risco de instabilidade existe caso a instalação não suporte a potência demandada. “Se houver reprojeto da instalação e adoção de sistemas de gestão inteligente de carga, o problema pode ser corrigido. É fundamental atenção técnica nesses casos”, orienta.
Apoio técnico e regulação
O Lactec oferece serviços para auxiliar investidores no dimensionamento adequado de estações de recarga. A instituição realiza consultorias técnicas, avaliação das instalações elétricas, medições de aterramento e verificação da compatibilidade entre a capacidade da rede e os dados do eletroposto.
“A principal orientação é buscar um profissional habilitado e que atue conforme as normas técnicas vigentes, especialmente as NBR-IEC relacionadas ao processo de recarga de veículos elétricos”, reforça Bianchin.
No campo regulatório, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) abriu a Consulta Pública CP 42/2025, com contribuições até 10 de março de 2026, para revisar as regras de conexão de carregadores às redes de distribuição. A proposta busca simplificar procedimentos, reduzir prazos e aprimorar o dimensionamento da rede, com medidas como contratos mais flexíveis e mapas obrigatórios de disponibilidade para novos pontos de conexão.
A revisão ocorre em momento estratégico: a eletromobilidade ainda representa parcela pequena da carga nacional, mas a curva de crescimento é acentuada. O desafio do setor elétrico brasileiro é antecipar gargalos antes que eles se tornem estruturais.

















