Roubos e furtos de veículos caem no estado de São Paulo, mas ocorrências com utilitários continuam em alta

Roubos e Furtos de Veículos Caem em São Paulo, mas Crimes com Utilitários Continuam em Alta

O Estado de São Paulo fechou 2025 com queda de 11,43% nos registros de roubo (art. 157) e furto (art. 155) de veículos em relação ao ano anterior. Foram 88.544 boletins de ocorrência envolvendo todos os tipos de veículos, ante 99.968 em 2024, segundo o Boletim Tracker Fecap.

A retração foi mais forte nos roubos, que caíram 20,94% (de 20.860 para 16.489 casos). Já os furtos recuaram 8,92% (de 79.108 para 72.055). “De cada 10 veículos que desaparecem, oito são furtados e dois são roubados. O furto tem pena mais branda e exige menos preparo, o que torna esse tipo de crime mais frequente”, analisa o pesquisador da FECAP responsável pelo estudo, Erivaldo Vieira.

Automóveis e motocicletas seguem como principais alvos: juntos, responderam por 88,7% de todas as ocorrências em 2025.

Roubo e furto por tipo de veículo

Em 2024, automóveis lideraram as estatísticas: 51.653 ocorrências, somando 45.372 furtos e 6.281 roubos. Em seguida vieram os motociclos (motocicletas), com 36.881 casos (26.503 furtos e 10.378 roubos). Caminhonetes, camionetas, motonetas, caminhões, caminhões-trator, utilitários, semirreboques e outros tipos de veículos completam a lista, totalizando 99.971 ocorrências no ano.

Em 2025, a mesma hierarquia se manteve, mas com volume menor. Entre automóveis, foram 45.857 casos (41.422 furtos e 4.435 roubos). Os motociclos registraram 32.633 ocorrências (24.008 furtos e 8.625 roubos). Caminhonetes, camionetas, motonetas, caminhões, caminhões-trator, utilitários, semirreboques e outros tipos somaram 88.540 registros.

Considerando a variação entre 2025 e 2024, todos os segmentos apresentaram queda no total de ocorrências, com exceção dos utilitários, que tiveram recuo bem mais modesto:

  • Automóvel: -11,2% no total (–8,71% em furtos; –29,4% em roubos)
  • Motociclo: -11,5% no total (–9,41% em furtos; –16,9% em roubos)
  • Caminhonete: -11,1% no total (–7,14% em furtos; –19,7% em roubos)
  • Camioneta: -12,1% no total (–8,40% em furtos; –26,8% em roubos)
  • Motoneta: -17,6% no total (–21,4% em furtos; –9,3% em roubos)
  • Caminhão: -15,6% no total (–14,2% em furtos; –16,6% em roubos)
  • Caminhão-trator: -19,6% no total (–20,7% em furtos; –19,5% em roubos)
  • Semirreboque: -21,5% no total (–6,25% em furtos; –24,3% em roubos)
  • Outros: -1,7% no total (+1,06% em furtos; –11,1% em roubos)
  • Utilitário: -2,9% no total (+0,22% em furtos; –12,2% em roubos)

No agregado, os furtos caíram 8,92%, os roubos recuaram 20,95% e o total geral de ocorrências diminuiu 11,43%.

Utilitários preocupam e indicam especialização criminosa

O estudo chama atenção para o comportamento dos utilitários, que destoaram da tendência geral. Enquanto quase todos os segmentos registraram quedas de dois dígitos, o total de ocorrências com utilitários recuou apenas 2,9%. Mais: os furtos desse tipo de veículo tiveram leve alta de 0,22%, ao passo que os roubos caíram 12,2% — redução bem menos intensa do que a observada em automóveis (-29,4%) ou camionetas (-26,8%).

Para Vitor Corrêa, gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker, esse movimento revela uma mudança qualitativa no perfil do crime. “Enquanto os crimes de oportunidade e os roubos mais violentos diminuem, cresce uma modalidade mais técnica e direcionada. É um fenômeno ligado à transformação econômica e logística das cidades. O avanço do e-commerce e das entregas rápidas aumentou de forma expressiva a frota de utilitários — furgões, vans, VUCs — em circulação, expondo mais esses veículos à ação de grupos especializados”, afirma.

Hiperconcentração nas grandes cidades

Mesmo com a queda nos índices gerais, as 10 cidades com mais ocorrências passaram a concentrar 69,01% de todos os casos do estado em 2025, um leve aumento na comparação com 2024. “O crime está recuando, mas continua fortemente ancorado nos grandes polos logísticos e demográficos. É o que chamamos de hiperconcentração urbana”, explica Erivaldo Vieira.

Em 2024, o ranking era liderado por São Paulo (44.327 ocorrências), seguida por Santo André (4.234), Campinas (4.070), Guarulhos (4.050), São Bernardo do Campo (2.737), Osasco (2.703), Mauá (1.756), Sorocaba (1.597), Ribeirão Preto (1.410) e Diadema (1.267). Juntas, essas cidades somavam 68.151 furtos e roubos de veículos.

Em 2025, a capital manteve a liderança, com 38.965 casos (32.729 furtos e 6.236 roubos). Na sequência aparecem Campinas (4.156), Guarulhos (3.587), Santo André (3.542), São Bernardo do Campo (2.596), Osasco (2.561), Sorocaba (1.684), Mauá (1.393), Ribeirão Preto (1.321) e Diadema (1.299). O grupo somou 61.104 ocorrências.

Na variação 2025 x 2024, sobressaem três cidades que foram na contramão da tendência estadual:

  • Campinas: +2,11% no total (+6,11% em furtos; –11,72% em roubos)
  • Sorocaba: +5,45% no total (+9,79% em furtos; –20,61% em roubos)
  • Diadema: +2,53% no total (+14,55% em furtos; –18,36% em roubos)

Em todos esses casos, o aumento no número de furtos foi o principal responsável pela alta nas estatísticas gerais. São Bernardo do Campo também registrou crescimento nos furtos (+1,34%), embora com redução do total de ocorrências (-5,15%) devido à queda expressiva dos roubos (-23,33%).

Do lado positivo, na Região Metropolitana, Mauá foi o município com a maior queda proporcional (–20,67%), seguida por Santo André (–16,34%) e Guarulhos (–11,43%).

Na capital, crime pulverizado entre bairros

Na cidade de São Paulo, o estudo mostra um cenário mais pulverizado. Os 20 bairros com maiores índices de roubo e furto não chegam a responder por um terço das ocorrências da capital. Essa dispersão exige, segundo o boletim, uma presença policial mais distribuída e constante.

Zona Leste: concentração de furtos e infraestrutura criminosa

A Zona Leste se consolida como o principal polo de furtos de veículos da capital. Bairros como Vila Matilde (+0,28% em furtos) e São Mateus (+1,90%) foram na contramão da média da cidade e registraram alta nesse tipo de crime. Embora outros bairros da região, como Tatuapé e Ipiranga, tenham apresentado quedas significativas, a persistência do furto em pontos específicos indica a existência de uma infraestrutura criminal consolidada, possivelmente ligada a desmanches e receptadores.

O caso de Santo Amaro, na Zona Sul, é emblemático. O bairro registrou aumento de 14,72% nos furtos em 2025, tornando-se líder em número de ocorrências, ao mesmo tempo em que apresentou queda acentuada nos roubos (-34,95%). O comportamento sugere uma migração ou especialização da atividade criminosa para o furto — delito de menor risco e maior volume, mais adequado ao abastecimento do mercado ilegal de peças.

Periferia da Zona Sul: persistência do roubo violento

Em contraste, bairros periféricos da Zona Sul, como Grajaú (171 roubos) e Campo Limpo (133 roubos), e da Zona Leste, como São Mateus (132 roubos), aparecem com os maiores números absolutos de roubo de veículos. Nesses locais, a participação do roubo no total de crimes é muito mais alta: 35% no Grajaú e 27% no Campo Limpo, bem acima de áreas mais centrais ou bairros da própria Zona Leste onde predomina o furto, como Tatuapé (4% de roubos) e Vila Mariana (2%).

Esse contraste indica que, nessas regiões periféricas, o risco de confronto violento na subtração do veículo é substancialmente maior, com impacto direto sobre motoristas, empresas de transporte, frotistas e prestadores de serviço que circulam nessas áreas.

“Uma possível explicação para essa reorganização é a eficácia — e também a limitação geográfica — de programas de monitoramento, como o Smart Sampa. Com maior vigilância eletrônica em áreas centrais e corredores de grande circulação, a criminalidade tende a se deslocar para zonas com menos ‘olhos’”, avalia o coordenador do Boletim Tracker Fecap.

Bairros mais afetados em São Paulo

Em 2024, os principais bairros da capital em número de ocorrências foram Tatuapé, Ipiranga, Itaquera, Vila Prudente, Vila Matilde, Santo Amaro, Santana, Vila Mariana, São Mateus, Sapopemba, Penha, São Lucas, Lapa, Vila Formosa, Água Rasa, Sacomã e Carrão. Juntos, eles somaram 12.675 casos, sendo 11.411 furtos e 1.264 roubos.

Em 2025, a liderança passou para Santo Amaro, seguido por Tatuapé, Vila Matilde, São Mateus, Ipiranga, Vila Prudente, Vila Mariana, São Lucas, Sapopemba, Penha, Vila Formosa, Itaquera, Lapa, Santana, Água Rasa, Sacomã e Carrão. Esse conjunto registrou 10.984 ocorrências (10.201 furtos e 783 roubos).

Alguns movimentos chamam atenção na variação 2025 x 2024:

  • Santo Amaro: +8,29% no total (+14,72% em furtos; –34,95% em roubos)
  • Vila Matilde: leve alta em furtos (+0,28%), com queda do total (–5,74%) devido à redução nos roubos
  • São Mateus: +1,90% em furtos; total praticamente estável (–2,17%)
  • Tatuapé: forte queda (–26,08% no total)
  • Ipiranga: retração ainda mais acentuada (–31,53%)
  • Itaquera: redução de 30,44% no total
  • Sapopemba: queda de 14,15% no total

Na análise por logradouros, o estudo aponta aumento expressivo dos eventos em vias de Santo Amaro (+21,6%), Vila Prudente (+12,6%) e São Mateus (+12,2%). Já no Ipiranga, as ocorrências caíram 39,9%; no Tatuapé, 31,1%; e em Sapopemba, 21,4%. Em 2025, bairros como Santana e Itaquera deixaram o ranking dos principais logradouros, dando lugar a Penha e São Lucas.

Pontos críticos por logradouro em 2025

Entre os bairros com maiores concentrações de eventos por rua ou avenida, destacam-se:

  • Santo Amaro: 107 ocorrências em logradouros-chave, com destaque para vias como Rua Isabel Schmidt, Rua Amador Bueno e Rua Antonio de Oliveira.
  • Vila Prudente: 107 registros, concentrados principalmente na Rua Guamiranga e Rua Cavour.
  • São Mateus: 101 casos, com foco na Rua Angelo de Candia e na Avenida Mateo Bei.
  • Tatuapé: 93 ocorrências, com a Rua Francisco Marengo à frente.
  • Sapopemba: 92 registros, sobretudo na Avenida Sapopemba e em vias locais como Rua Manuel França dos Santos e Rua Antonio Lazaro.
  • Vila Matilde: 87 ocorrências, com destaque para a Rua Renato e trechos de divulgação restrita.
  • Ipiranga: 86 casos, concentrados na Rua do Manifesto, Rua Costa Aguiar e Rua Cipriano Barata.
  • Penha: 71 ocorrências, espalhadas por vias como Rua Atuai e outras com dados parcialmente sigilosos.
  • São Lucas: 60 registros, principalmente na Avenida do Oratório, Avenida Vila Ema e Rua Ribeirópolis.
  • Vila Mariana: 49 ocorrências, com foco em ruas residenciais como Gregorio Serrão e Manoel de Morais.

Somados, esses logradouros mais críticos responderam por 853 ocorrências em 2025, sendo 811 furtos e 42 roubos.

Para o setor automotivo — de fabricantes a redes de concessionárias, seguradoras, frotistas, oficinas e empresas de logística — o conjunto dos dados aponta duas frentes claras: redução consistente do risco em vários segmentos e áreas, mas também concentração do crime em nichos específicos (como utilitários de entrega) e em determinados corredores urbanos, o que exige atenção redobrada em gestão de risco, tecnologia embarcada, roteirização e políticas de segurança.