China deverá responder por 1 em cada 3 carros vendidos no Brasil em 10 anos, prevê ex

China deve responder por 1 em cada 3 carros vendidos no Brasil em 10 anos, prevê especialista

Ex-presidente da Anfavea, a associação das montadoras instaladas no Brasil, e hoje consultor, Rogélio Golfarb projeta que, em dez anos, um em cada três veículos vendidos no país será de alguma marca chinesa.

Segundo suas estimativas, a participação das chinesas, que foi de 10% em 2023, deve dobrar para 20% até 2030 e alcançar 35% do mercado de veículos em 2035. Após se aposentar da Ford, onde foi vice-presidente de Assuntos Governamentais, Golfarb fundou a consultoria Zag Work, de onde acompanha de perto o movimento das montadoras asiáticas.

As projeções consideram a entrada agressiva das marcas chinesas nos segmentos de maior volume, incluindo modelos de entrada, além de novas investidas em picapes, vans e caminhões. Na avaliação de Golfarb, elas continuarão competitivas mesmo quando internalizarem custos de produção no Brasil, em parte porque conseguem importar da China, a preços mais baixos, os principais componentes ligados às novas tecnologias automotivas — como baterias de veículos eletrificados, semicondutores, telas e módulos eletrônicos.

“As marcas chinesas estão ganhando espaço independentemente do crescimento do mercado, por uma vantagem competitiva clara. Elas têm uma competitividade que as demais não conseguem reproduzir”, afirmou durante encontro com jornalistas.

Para ilustrar essa vantagem de custo, Golfarb comparou um sedã elétrico Tesla Model 3 a um modelo similar de uma marca chinesa, ambos produzidos na China. O veículo chinês custa cerca de US$ 4 mil a menos, diferença atribuída principalmente à maior integração produtiva (economia de US$ 2,4 mil) e à escala (US$ 1,8 mil).

Subsídios governamentais e prazos mais longos para pagamento de fornecedores — que podem chegar a 200 dias — também ajudam, mas em menor proporção. “Muita gente acha que o grande diferencial da China são os incentivos. Não é. Integração e escala respondem por 88% dessa competitividade”, destacou Golfarb, reforçando que essa vantagem não é passageira.

Ele lembra ainda que as marcas chinesas que chegam ao Brasil são grandes montadoras globais, com escala e estrutura para permanecer no jogo. “Recebemos o dream team. Vieram ao Brasil empresas de peso”, resume. Ao citar associações recentes entre fabricantes tradicionais e marcas asiáticas — como a Stellantis com a Leapmotor e a General Motors com a Hyundai —, Golfarb ressalta que a indústria automotiva atravessa uma disrupção sem precedentes. “E não vai voltar a ser o que era antes”, conclui.