O comércio da cidade de São Paulo emprega cerca de 595 mil trabalhadores com carteira assinada. Desse total, 87,5% cumprem a jornada semanal de 44 horas.
Caso a carga horária caia para 40 horas, sem mudança no horário de funcionamento das lojas, o setor teria de contratar aproximadamente 52 mil novos empregados. Com salário médio de R$ 3.700, isso significaria um custo adicional de cerca de R$ 192 milhões por mês, ou R$ 2,3 bilhões por ano.
Os cálculos são do Sindilojas-SP, com base nos dados mais recentes da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) de 2024, do Ministério do Trabalho e Emprego.
“O varejo será um dos setores mais afetados, caso avance a redução da jornada de 6×1 para 5×2”, afirma o economista do Sindilojas-SP, Jaime Vasconcellos.
Dois pontos principais preocupam os lojistas: a disponibilidade dessa mão de obra no mercado e a capacidade financeira das empresas para absorver o aumento dos custos trabalhistas.
No ano passado, o varejo da capital paulista criou 9 mil empregos, saldo entre admissões e demissões. E, segundo Jaime, já foi difícil encontrar esse contingente de profissionais. Mantido o ritmo atual de geração de vagas, ele estima que seriam necessários cerca de seis anos para preencher as 52 mil novas posições projetadas.
A situação se agrava, diz o economista, quando, além da redução da jornada, a legislação elimina a escala 6×1, o que, na prática, reduz em cerca de 20% a disponibilidade de horas de trabalho por funcionário.
“Essa é uma matemática inviável, problemática, com muitos efeitos econômicos para ser implementada de forma tão acelerada”, afirma.
O contexto também não favorece o setor. O volume de vendas do varejo paulista caiu 1,3% em fevereiro deste ano em comparação com o mesmo mês de 2025. Nos 12 meses encerrados em fevereiro, o crescimento foi de apenas 0,1%, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE.
“Estamos falando em aumento de custo em um cenário de estagnação e queda de vendas. Não é o momento de fazer uma mudança tão grande em um país com tantos problemas estruturais”, avalia Vasconcellos.
Para o Sindilojas-SP, a discussão sobre redução de jornada é legítima, mas não deveria ser conduzida com viés eleitoral.
Na ponta, a preocupação é concreta. Com quatro lojas, o sócio-proprietário da Viva a Noiva, Walter Gomes, calcula que, se a jornada passar para 5×2, ele teria de contratar cerca de cinco funcionários adicionais — hoje são 50.
“Isso não deve acontecer. Não há mão de obra disponível no mercado e o movimento nas lojas não justifica mais contratações. Ao contrário, talvez seja motivo para um downsizing”, diz.
Gomes trabalha fortemente com terceirização — costureiras e bordadeiras — já que a customização de vestidos é o foco do negócio. “Meu ramo é delicado. A disputa é voraz”, afirma.
A mudança de jornada também exigiria um grande redesenho de escalas, sobretudo em lojas de shopping, que em geral funcionam das 10h às 22h.
“Os lojistas de shoppings vão ter de trabalhar com três turnos em vez de dois. Estão tentando mexer na jornada da iniciativa privada, tirar dos sindicatos a sua representatividade, o que é inconstitucional”, afirma Aldo Macri, presidente do Sindilojas-SP.
As propostas de redução da jornada e de fim da escala 6×1 avançam em três frentes em Brasília: duas PECs e um projeto de lei do governo federal.
A PEC 1221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), prevê incluir na Constituição um limite de 8 horas diárias e 36 semanais de trabalho. A PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, também estabelece teto de 8 horas por dia e 36 por semana, mas distribuídas em quatro dias de trabalho e três de descanso.
Já o projeto de lei encaminhado pelo governo Lula em abril propõe reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários, com tramitação mais simples que a de uma emenda constitucional.
Para o consultor de varejo Marcos Hirai, a redução da jornada é uma tendência irreversível, que de fato elevará custos, mas também pode trazer ganhos indiretos.
“Hoje existe um apagão de mão de obra e está difícil achar quem queira trabalhar seis dias e folgar um. O problema do turnover pode diminuir”, avalia.
Segundo ele, a adaptação vai exigir investimentos e ajustes operacionais, mas a resistência tende a cair com o tempo. “O trabalhador valoriza mais qualidade de vida, e as empresas que entenderem isso podem reter melhor seus funcionários e reduzir a rotatividade”, afirma.
Por envolver milhões de trabalhadores e milhares de empresas, a mudança deve manter o debate aceso, entre a pressão por melhores condições de trabalho e a preocupação com custos e competitividade.
Para o varejo, o desafio será encontrar um ponto de equilíbrio entre a nova organização das jornadas, a sustentabilidade financeira dos negócios e as expectativas de um mercado de trabalho em transformação.

















