Mercado de reposição automotivo se prepara para a chegada dos eletrificados

Mercado de Reposição Automotivo se Prepara para a Chegada dos Veículos Elétricos e Híbridos

Há pelo menos cinco anos, o avanço da eletrificação da frota é pauta constante em todo o setor automotivo. No aftermarket independente, porém, o tema ainda parece distante da rotina das operações. A maior parte dos elos da cadeia ainda não sente, no dia a dia, um impacto relevante nas demandas e no volume de serviços.

Os números ajudam a explicar essa diferença de urgência entre a reposição e a indústria ligada às montadoras. Em 2025, as vendas de veículos eletrificados bateram recorde histórico, com mais de 220 mil unidades comercializadas no Brasil. Mesmo assim, híbridos e elétricos de diferentes tipos representam apenas cerca de 0,6% da frota circulante. Soma-se a isso o fato de que a maioria desses veículos ainda está dentro da garantia de fábrica, que varia de 3 a 5 anos, além das garantias estendidas de componentes críticos, como as baterias de alta tensão, que podem chegar a 8 ou 10 anos. Na prática, isso mantém grande parte desses automóveis longe do mercado independente de manutenção e reparo neste primeiro ciclo de vida.

Projeções indicam que essa dinâmica só deve mudar de forma mais intensa nos próximos anos, quando os primeiros volumes de eletrificados começarem a sair das redes autorizadas e buscar serviços fora das concessionárias. Estimativas mais detalhadas apontam que, até 2030, os veículos eletrificados devem representar cerca de 5% da frota nacional e, desse total, por volta de dois quintos já serão atendidos pelo mercado independente.

Essas perspectivas mostram que um impacto mais visível da eletrificação no dia a dia de varejistas, distribuidores e reparadores tende a ganhar corpo ao longo da próxima década. Para quem está focado nos desafios imediatos da operação, a sensação ainda pode ser de que esse movimento está longe. Mas a postura de parte da indústria indica o contrário: nem todo o aftermarket brasileiro está em compasso de espera. Alguns dos principais players do setor já trabalham com a eletrificação como uma urgência concreta.

Falta de mão de obra especializada já é gargalo e mobiliza o mercado

Um dos pontos que mais preocupa o aftermarket independente é a falta de profissionais preparados para lidar com a crescente complexidade dos veículos eletrificados. A eletrificação ainda não lota as agendas das oficinas, mas já expõe um gargalo que pode comprometer o avanço do setor: a escassez de mão de obra qualificada para manutenção de híbridos e elétricos. Estudos recentes indicam que esse descompasso entre evolução tecnológica da frota e formação técnica tende a se aprofundar nos próximos anos.

O tema ganha peso extra quando se observa o potencial econômico. Projeções apontam que o segmento de manutenção de veículos eletrificados pode movimentar cerca de R$ 5 bilhões por ano até o fim da década, impulsionado pelo aumento da frota e pela maior complexidade dos sistemas embarcados.

Coordenador de Assistência Técnica da Nakata, Leandro Leite compartilha dessa visão e projeta ganho de escala consistente nos próximos cinco anos. “Esse cenário reforça que o processo de preparação não deve ser adiado. Oficinas e reparadores que investirem desde já em capacitação técnica, ferramentas adequadas e atualização sobre novas tecnologias estarão mais bem posicionados para atender a essa demanda à medida que ela se consolida no mercado independente”, afirma.

Apesar de consenso sobre a necessidade de preparação prévia, a percepção de boa parte do mercado é que a formação técnica não acompanha a velocidade das mudanças. Mesmo em regiões com oferta de cursos em eletroeletrônica, como institutos federais e unidades do Senai, levantamentos indicam que apenas cerca de 20% dos formandos saem efetivamente aptos a atuar com veículos eletrificados.

Diante desse quadro, especialistas defendem uma atuação coordenada entre empresas e setor público, com foco na requalificação de profissionais, parcerias com instituições de ensino, investimentos em equipamentos de diagnóstico e ampliação de certificações específicas para sistemas de alta tensão.

A mudança no perfil técnico exigido dimensiona bem o desafio. Híbridos e elétricos reduzem parte das intervenções mecânicas tradicionais, mas exigem domínio de sistemas como BMS (Battery Management System), inversores, gerenciamento térmico e diversas unidades de controle eletrônico.

Nesse cenário, sistemistas, fabricantes de autopeças e fornecedores de tecnologia acompanham de perto a evolução do mercado e, em alguns casos, já se antecipam para mitigar o problema. Para o Gerente de Marketing e Comunicação da ZF América do Sul, Andreas Potenza, a escassez de mão de obra qualificada já faz parte da realidade. “A falta de profissionais capacitados é uma realidade no setor de reparação automotiva e tende a se intensificar com a chegada de novas tecnologias. Pesquisas recentes mostram que essa escassez figura entre as principais dores das oficinas, impactando diretamente a eficiência e a competitividade dos negócios”, ressalta.

Potenza destaca ainda que o desafio extrapola a formação tradicional do mecânico. A eletrificação exige evolução no perfil profissional e na estrutura das próprias oficinas. “Esse movimento ganha ainda mais relevância com a eletrificação da frota, que exige uma preparação mais ampla, envolvendo não apenas mecânicos, mas também profissionais de elétrica, climatização, funilaria e até operadores de remoção. Trata-se de um ecossistema que precisa evoluir de forma integrada, especialmente no que diz respeito à estrutura física das oficinas, às práticas de segurança, uso de EPIs e procedimentos técnicos para atuação em sistemas de alta tensão”, complementa.

Na Bosch, a leitura é de que o setor já começou a se movimentar, ainda que em ritmo gradual. Chefe de Serviços Automotivos da Bosch para a América Latina, Diego Riquero observa que a presença de veículos eletrificados no mercado já começa a se refletir na demanda por serviços fora das concessionárias. Otimista quanto à capacidade do mercado independente de absorver essa demanda, ele destaca as ações concretas em curso para preparar o setor e relativiza a ideia de que o aftermarket está despreparado. “O segmento de reparações automotivas no Brasil sempre esteve disposto a se desenvolver e oferecer soluções. Na medida em que a frota de veículos eletrificados crescer, mais oficinas entrarão ou ampliarão sua oferta de serviços”, afirma.

Para a Schaeffler, o enfrentamento do gargalo de mão de obra passa, necessariamente, pela combinação entre tecnologia e suporte ao reparador. Vice-presidente Sênior de Aftermarket Automotivo da empresa para a América do Sul, Rubens Campos aponta a digitalização como um dos pilares dessa transformação. Segundo ele, os fabricantes de componentes têm papel central nesse processo, e a estratégia da companhia é atuar como facilitadora, reduzindo a complexidade na ponta. A empresa direciona investimentos para suporte técnico remoto, ferramentas de diagnóstico e conteúdos educativos em diferentes formatos, além de desenvolver kits de reparo que simplificam a manutenção de sistemas cada vez mais sofisticados.

Como os fabricantes estão preparando os reparadores para a eletrificação

A Bosch aposta fortemente na capacitação técnica como resposta ao desafio de preparar o aftermarket para os veículos eletrificados. O movimento começou antes da atual onda. Em 2017, a empresa lançou, em seu Centro de Treinamento, o primeiro curso técnico do país dedicado a híbridos e elétricos. Desde então, ampliou a estrutura e hoje oferece uma trilha de formação em três níveis, alinhada ao grau de complexidade das tecnologias.

O nível inicial apresenta os sistemas eletrificados, com foco em características técnicas, normas de segurança e serviços básicos. O intermediário avança para intervenções em componentes específicos. Já o nível avançado é dedicado a procedimentos em baterias de alta tensão.

Em geral, o público desses cursos é formado por profissionais que já atuam no setor e buscam aprofundamento, sinal de que o desafio não está apenas em formar novos técnicos, mas em requalificar a mão de obra já presente nas oficinas. Os treinamentos são oferecidos ao mercado em geral, com condições diferenciadas para oficinas da rede Bosch Service, o que amplia o alcance dentro do ecossistema de reparação.

ZF

A ZF Aftermarket também tem expandido suas iniciativas de capacitação para acompanhar a evolução tecnológica. No campo dos veículos eletrificados, a empresa trabalha com a premissa de que a preparação precisa ir além da mecânica convencional, incorporando conhecimentos sobre baterias de alta tensão, motores elétricos, inversores e infraestrutura de recarga.

Um dos pilares dessa estratégia é o programa ZF [pro]Amigo, criado em 2017 e hoje consolidado como uma das maiores plataformas de qualificação do setor no país. São mais de 150 treinamentos, mais de 13 milhões de visualizações e cerca de 40 mil profissionais cadastrados, com conteúdos voltados à prática das oficinas.

A plataforma vem incorporando gradualmente materiais sobre eletrificação, organizados em etapas que vão de conceitos básicos e evolução tecnológica ao funcionamento dos diferentes tipos de veículos eletrificados e seus sistemas.

Mais recentemente, o programa passou por uma ampliação importante. Em 2026, a ZF acrescentou 48 novos treinamentos à grade, distribuídos entre mecânica, logística, vendas e gestão, refletindo a necessidade de preparar não apenas o aspecto técnico, mas também a operação das oficinas frente às transformações do setor.

Para a empresa, preparar a reparação exige uma adaptação mais ampla do ecossistema. Não basta formar reparadores: é preciso adequar a estrutura das oficinas, com atenção redobrada à segurança, EPIs e procedimentos específicos para sistemas de alta tensão.

SCHAEFFLER

A Schaeffler tem ampliado sua oferta de treinamentos voltados à manutenção de híbridos e elétricos, integrando esses conteúdos a uma estrutura mais ampla de suporte ao reparador.

Um dos principais canais é o Super Dicas REPXPERT, espaço que concentra treinamentos recorrentes com especialistas e aborda desde sistemas tradicionais até as novas tecnologias eletrificadas. A proposta é acompanhar a evolução do portfólio das marcas do grupo – LuK, INA, FAG e Schaeffler Vitesco – e transformar essa evolução em conhecimento prático para as oficinas.

Nos últimos anos, a estratégia ganhou novo fôlego com a criação da divisão Vehicle Lifetime Solutions (VLS) e a integração da Schaeffler Vitesco, permitindo levar ao aftermarket componentes de maior complexidade, como sensores NOx e unidades de controle de transmissão. Com isso, a capacitação passou a incluir com mais força sistemas eletrônicos e de controle, cada vez mais presentes nos veículos eletrificados.

Além dos treinamentos, a empresa investe em suporte técnico remoto, ferramentas de diagnóstico e conteúdos em diversos formatos – guias, vídeos, atendimento em tempo real – para reduzir erros de aplicação e facilitar reparos em sistemas complexos. Outro eixo é a oferta de soluções que simplifiquem a operação na ponta, como kits de reparo completos e ferramentas específicas com design modular. A avaliação é clara: diante da crescente complexidade dos veículos, capacitação precisa vir acompanhada de recursos que tornem o trabalho mais acessível e seguro para o reparador.

NAKATA

A Nakata também passou a incorporar a eletrificação em sua agenda de capacitação, acompanhando o crescimento da frota e a mudança no perfil técnico exigido no aftermarket. Nos últimos anos, a empresa adicionou conteúdos específicos sobre híbridos e elétricos à sua grade de treinamentos, com foco na preparação gradual dos profissionais.

Entre as iniciativas mais recentes está um treinamento dedicado à eletrificação veicular, que aborda desde conceitos fundamentais e arquitetura dos sistemas até normas técnicas e requisitos de infraestrutura para manutenção desse tipo de veículo. O conteúdo é direcionado principalmente a mecânicos e profissionais do varejo de autopeças que buscam se familiarizar com o tema e entender como atender essa nova demanda com segurança.

A empresa também vem ajustando suas palestras técnicas tradicionais – ligadas a sistemas como suspensão, direção e transmissão – para incluir as particularidades dos veículos eletrificados.

Esse movimento faz parte de uma estratégia mais ampla da Frasle Mobility, grupo do qual a Nakata faz parte, que reúne diferentes marcas sob uma diretriz contínua de investimento em capacitação técnica. Ao longo de 2025, mais de 18 mil profissionais foram treinados em iniciativas que combinam formatos presenciais e digitais.

No conjunto, as ações de Bosch, ZF, Schaeffler, Nakata e outras empresas indicam que, mesmo com a eletrificação ainda representando uma fatia modesta da frota, o aftermarket brasileiro já começou a se reorganizar. Quem se preparar agora tende a ocupar uma posição estratégica quando o fluxo de veículos eletrificados para as oficinas independentes deixar de ser exceção para se tornar rotina.