A indústria argentina de autopeças vive a pior sequência em muitos anos. A combinação de abertura comercial acelerada, valorização do peso e cancelamento de modelos produzidos localmente provocou uma ruptura estrutural: aumento das importações, retração da produção, fechamento de fábricas, perda de empregos e uma dependência crescente de componentes vindos da China.
Os números foram levantados pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, com base em dados da Asociación de Fábricas Argentinas de Componentes (AFAC), da Asociación de Fábricas de Automotores (ADEFA) e do Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC).
Mais importações, menos carros
Por décadas, a relação entre importações de autopeças e produção de veículos na Argentina foi relativamente estável. Quando a produção subia, as compras externas acompanhavam; quando caía, recuavam juntas. Segundo a série histórica da AFAC, 86% das variações nas importações eram explicadas pelas oscilações da produção de veículos.
Essa correlação se quebrou em 2025.
Na série usada pela AFAC, a produção de veículos caiu 4,9% em 2025, para 513.933 unidades. Apesar disso, as importações de autopeças avançaram 11,6%, alcançando US$ 10,319 bilhões — praticamente o mesmo nível do pico de 2023.
A AFAC classifica o movimento como “uma exceção à tendência estrutural” e atribui o desvio a dois fatores principais: a entrada maciça de componentes asiáticos para o mercado de reposição e a chegada de novos modelos montados no país com baixíssimo índice de conteúdo local.
O resultado foi um déficit comercial de US$ 9,043 bilhões no setor em 2025, alta de 13,3% em relação a 2024. Segundo a própria AFAC, o rombo equivaleu a 1,3 vez o superávit total da balança comercial argentina no ano. “Se houvesse equilíbrio no setor de autopeças, o superávit comercial agregado seria quase o dobro”, afirma a entidade.
China encosta na vice-liderança entre fornecedores
O avanço chinês é o dado mais expressivo do período. As importações argentinas de autopeças provenientes da China saltaram 80,9% em 2025, alcançando US$ 1,464 bilhão. Em valores absolutos, o país encostou na Tailândia — segundo maior fornecedor, com US$ 1,481 bilhão — e passou a disputar diretamente a vice-liderança no ranking.
Em termos de participação, a China respondia por 10,6% das importações argentinas de autopeças em 2021. Em 2025, chegou a 14,2%, um avanço de quase quatro pontos percentuais em apenas quatro anos. Rodas, pneus e câmaras, transmissões, componentes de motor e sistemas de ar-condicionado foram os itens mais relevantes, somando 57,4% do total importado daquele país.
O Brasil segue como principal fornecedor individual, com US$ 3,231 bilhões em 2025 (+3,1%), o equivalente a 31,3% de tudo o que a Argentina importou em autopeças. Tailândia (US$ 1,481 bilhão, +14,6%), Japão (US$ 644 milhões, +2,7%) e Estados Unidos (US$ 584 milhões, +1,9%) completam o topo da lista.
Brasil como dependência
Do lado das exportações, o quadro é de estagnação. As vendas externas de autopeças argentinas somaram US$ 1,276 bilhão em 2025, avanço de apenas 1,2% em relação a 2024 — um ganho de US$ 15 milhões em um ano. O setor vendeu para 135 países, mas com forte concentração no Brasil: US$ 849,7 milhões, ou 66,6% do total, com queda de 0,8% na comparação anual.
A balança bilateral com o Brasil é amplamente desfavorável à Argentina. Em 2025, o déficit foi de US$ 2,381 bilhões, 4,6% maior que em 2024. As importações argentinas de autopeças brasileiras atingiram US$ 3,231 bilhões, enquanto as exportações ao mercado brasileiro ficaram em US$ 849 milhões.
As principais linhas exportadas pela Argentina foram transmissões (35,5% do total), motores (21,2%) e carrocerias e partes (8,6%).
Produção em colapso no início de 2026
Se 2025 já foi um ano difícil, o começo de 2026 aprofundou a crise industrial. De acordo com o Índice de Produção Industrial Manufatureiro (IPI) do INDEC, a fabricação de autopeças registrou queda de 22,5% no acumulado de janeiro e fevereiro de 2026, frente ao mesmo período de 2025. A produção de veículos automotores recuou ainda mais: 30,1% no mesmo intervalo.
Os números da ADEFA para o primeiro quadrimestre (janeiro a abril de 2026) confirmam a deterioração. Foram produzidas 129.867 unidades, retração de 18,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. As exportações de veículos recuaram 1,6%, e as vendas de modelos nacionais às concessionárias desabaram 40,6%.
Na análise setorial de fevereiro de 2026, o INDEC atribui a queda na produção de autopeças “principalmente à redução no nível de comercialização no mercado interno” e ao impacto da menor atividade das montadoras sobre as vendas de componentes para equipamento original. O órgão também registra diminuição nas exportações de autopeças.
Empregos perdidos e empresas fechadas
A crise se reflete diretamente no emprego. Segundo a AFAC, o número de postos de trabalho diretos na indústria de autopeças caiu de 53.700 em 2024 para 49.600 em 2025 — perda de 4.100 vagas em um ano, queda de 7,7%. Cerca de 80,5% das demissões ocorreram em empresas voltadas principalmente ao fornecimento para montadoras locais. No mercado de reposição, que concentra 34,1% dos empregos do setor, o choque da concorrência asiática também foi pesado.
O perfil das empresas amplia a vulnerabilidade. Metade dos trabalhadores está em plantas com menos de 300 funcionários, e 21% em fábricas com menos de 100 empregados — justamente os elos mais frágeis diante de mudanças abruptas nas regras comerciais e no ambiente competitivo.
Nos últimos anos, o setor assistiu a uma série de retrações produtivas. A sueca SKF e a americana Dana reduziram significativamente a presença industrial no país. A Nissan encerrou a produção em Córdoba e passou a importar veículos do México. Modelos como Nissan Frontier, Renault Alaskan e Volkswagen Taos saíram da linha de montagem local em 2025. Segundo a AFAC, 56 empresas fornecedoras fecharam as portas nos últimos 15 anos, cinco delas apenas no último ano e meio.
O que o setor pede
Diante do quadro, as entidades do setor vêm apresentando uma agenda de reivindicações para tentar reverter a trajetória.
A AFAC aponta a carga tributária sobre exportações — incluindo impostos sobre débitos e créditos bancários, Ingressos Brutos e taxas municipais — como um dos principais entraves à competitividade, e critica o fato de o ajuste econômico do governo Javier Milei não ter atacado esses pontos. A entidade defende “um choque de investimentos com visão integral que permita reverter a situação de toda a cadeia de valor automotiva”, com foco em aumento de conteúdo local, previsibilidade regulatória e estímulos específicos à exportação.
Ao divulgar os dados de dezembro de 2025, o presidente da ADEFA, Rodrigo Pérez Graziano, descreveu o ano como “misto”: o varejo de veículos ao consumidor cresceu quase 50% com a normalização do crédito e a desaceleração da inflação, mas o desempenho industrial ficou aquém do esperado. “O dinamismo que se deu no plano comercial não se sustentou no industrial como havíamos previsto no início do ano”, afirmou. Para 2026, ele aponta que “o grande desafio é a melhora da competitividade exportadora” e que “a previsibilidade é a chave”.
A AFAC projeta nova queda de 7,5% na produção de veículos em 2026 e consolidação do avanço das importações asiáticas, cenário que, segundo a entidade, “não permite ser otimista” em relação ao emprego no setor neste ano.
O argumento do governo
O governo Milei evita comentar diretamente os indicadores da cadeia automotiva, mas sustenta que a abertura comercial e a apreciação do peso eram condições necessárias para estabilizar a economia após décadas de inflação crônica e falta de dólares. A forte queda da inflação em 2025 e a recuperação do consumo são apresentadas como evidências de que o ajuste estaria produzindo resultados.
A disputa agora gira em torno de quem arca com o custo dessa transição — e por quanto tempo. Para a indústria de autopeças argentina, a resposta, por enquanto, aparece em forma de importações recordes, capacidade ociosa e empregos em risco.















