Vendas de pneus chegam ao menor nível da história e indústrias nacionais alertam para risco de colapso

Colapso à Vista? Vendas de Pneus Despencam ao Menor Nível da História e Indústrias Nacionais Soam Alarme

Representantes da indústria nacional de pneus se reúnem nesta quarta-feira, 20, às 16h30, com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, para cobrar ações contra o que classificam como concorrência desleal dos pneus importados. A ofensiva ocorre após o setor registrar, em abril, o menor nível histórico de participação no mercado brasileiro e forte queda nas vendas.

Segundo a ANIP (Associação Nacional dos Fabricantes de Pneumáticos), o cenário é “dramático”, com risco de fechamento de fábricas, demissões em cadeia e desestruturação de toda a produção de pneus no país. A reunião no MDIC terá a presença de executivos das principais fabricantes instaladas no Brasil.

Queda histórica nas vendas

No primeiro quadrimestre, a fatia da indústria nacional nas vendas totais de pneus caiu para 31%, o menor patamar da série histórica. Em 2019, a relação era exatamente o inverso: 69% de participação para os fabricantes locais e 31% para os importados.

“Essa equação se inverteu, e os importados ao final de abril representam 69% do mercado, posição construída com práticas desleais como dumping e descumprimento de regras ambientais”, afirma Rodrigo Navarro, presidente da ANIP. “Tem pneu importado entrando no país com preço abaixo do custo da matéria-prima no mercado internacional”, completa.

Os dados da entidade mostram que a deterioração do mercado se acelerou neste ano. De janeiro a abril, as vendas de pneus fabricados no Brasil caíram 5,8%. Foram comercializadas 11,9 milhões de unidades, cerca de 700 mil pneus a menos que no mesmo período de 2023. A queda atingiu pneus de passeio (-5,3%), carga (-8,4%) e moto (-4,8%), com impacto mais forte no segmento de reposição, foco dos importadores, que recuou 7,9%.

O que o setor está pedindo ao governo

“O Brasil precisa decidir se quer ter uma indústria de pneus ou se pretende ficar dependente do mercado externo”, diz Navarro. Ele lembra que o segmento é estratégico e que a retração das vendas afeta toda a cadeia, desde a produção de borracha natural — que destina 80% do que produz às fábricas de pneus — até fornecedores de aço, têxteis e químicos.

Entre as principais demandas, a ANIP defende elevar a tarifa de importação de pneus de passeio de 25% para 35%. “Queremos que o Brasil adote medidas de proteção semelhantes às dos EUA, do México e de países da União Europeia”, afirma Navarro. Estudo da consultoria LCA, encomendado pela associação, estima que o impacto de um aumento tarifário nessa magnitude seria de apenas 0,005 ponto percentual no IPCA, ao mesmo tempo em que ajudaria a reequilibrar o mercado.

A entidade também considera essencial reforçar a fiscalização sobre o cumprimento da legislação ambiental pelos importadores. Levantamento do Ibama mostra que, há 15 anos, o conjunto dos importadores não cumpre integralmente as metas de recolhimento de pneus inservíveis, acumulando um passivo de 500 mil toneladas de pneus não recolhidos. A indústria nacional, por sua vez, afirma ser superavitária na destinação ambiental e diz já ter investido R$ 1,8 bilhão na destinação adequada desses resíduos.

Além dessas medidas, a ANIP levará ao MDIC um Manifesto do Setor, apoiado por mais de 40 entidades, com outras propostas para conter a perda de competitividade da indústria local e “corrigir distorções” no mercado brasileiro de pneus. Entre os principais pontos, estão:

  1. Controle de entrada
    Implantação de Licenciamentos Não Automáticos (LNAs) com base em valores internacionalmente praticados, análise documental detalhada (antifraude) e comprovação do cumprimento das metas ambientais, além da adoção de medidas de salvaguarda quando cabíveis.

  2. Proteção imediata
    Agilidade na análise e aplicação de direitos provisórios nas investigações antidumping em curso.

  3. Compras públicas sustentáveis
    Estímulo às compras governamentais e a linhas de financiamento para pneus com conteúdo local relevante e que atendam integralmente às normas ambientais e técnicas vigentes.

  4. Isonomia tarifária
    Adoção de medidas tarifárias alinhadas às praticadas por países com base industrial forte, de forma a reduzir assimetrias competitivas.

  5. Fomento à matéria-prima local
    Implementação da Política de Estímulo à Produção da Borracha no Brasil, atualmente em fase final de elaboração pelo governo federal.

“Só com a adoção dessas medidas será possível estabelecer condições mais justas de competição e evitar a destruição do ecossistema produtivo de pneus no Brasil”, resume Navarro.

Hoje, a indústria brasileira de pneus reúne 11 empresas — Bridgestone, Continental, Dunlop, Goodyear, Maggion, Michelin, Pirelli, Prometeon, Rinaldi, Titan e Tortuga — com 19 fábricas em operação em sete estados. O setor emprega diretamente cerca de 35 mil pessoas e mais de 500 mil de forma indireta.