Marcado historicamente por compras técnicas, funcionais e movidas pela necessidade, o varejo de autopeças sempre estruturou suas lojas com base em uma lógica essencialmente pragmática: estoque, balcão, rapidez e disponibilidade imediata de itens.
Ao contrário de segmentos como moda, cosméticos, esportes ou até o varejo pet, o aftermarket permaneceu, por muito tempo, distante de discussões sobre ambientação, permanência do cliente e experiência de compra. Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. Redes passaram a redesenhar suas operações físicas para transformar as lojas em espaços de conveniência e, sobretudo, de convivência.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse movimento no Brasil é o da MercadoCar. Há anos, a empresa vem consolidando um modelo que se aproxima muito mais de uma megastore automotiva do que de uma loja tradicional de autopeças, marcada por corredores de estoque fechado e atendimento exclusivamente de balcão.
Ao entrar em uma unidade da rede, o consumidor encontra uma operação com conceito de hipermercado especializado, bem diferente do padrão que se consolidou no setor. A combinação entre amplitude de sortimento, organização visual, exposição massiva de categorias e integração com serviços transformou a MercadoCar em uma espécie de “shopping automotivo” – rótulo frequentemente associado à marca dentro do setor.
Com isso, o cliente deixa de entrar na loja apenas para resolver uma necessidade pontual e passa a circular por acessórios, ferramentas, itens de conveniência, estética automotiva e categorias complementares que aumentam o tempo de permanência e o potencial de consumo no ponto físico.
No fim do ano passado, a Careca Autopeças também aderiu à “Era da Experiência”. Ao inaugurar sua nova unidade premium no bairro da Penha, em São Paulo, a empresa levou a discussão sobre experiência a um nível ainda pouco comum no aftermarket brasileiro.
A principal novidade foi a incorporação de elementos praticamente inéditos no segmento, como espaço kids, simulador de corrida e área pet friendly.
Já a carioca Nova Peças representa um terceiro caminho nesse processo de transformação do aftermarket nacional. Conhecida pelo conceito de “supermercado de autopeças”, a rede passou a investir em uma jornada mais aberta, visual e orientada ao autosserviço.
Esse modelo aproxima a experiência do cliente da lógica dos grandes varejistas de materiais de construção, home centers e atacarejos especializados, nos quais a visualização dos produtos e a autonomia do consumidor são partes centrais da jornada.
“O cliente não quer só peça, quer confiança e conforto”
Gerente da loja premium da Careca Autopeças, Robson Xavier detalha a estratégia e as características do novo modelo.
Novo Varejo – O que motivou a Careca Autopeças a investir em um modelo de loja premium e mais focado na experiência do consumidor?
Robson Xavier – A Careca Autopeças sempre acompanhou a evolução do comportamento do consumidor. Hoje, o cliente não busca apenas um produto: ele quer agilidade, conforto, confiança e uma experiência diferenciada. O modelo premium nasceu justamente dessa leitura. Queríamos criar um ambiente moderno, acolhedor e funcional, capaz de transformar a ida à loja em algo mais completo e agradável.
Novo Varejo – A unidade da Penha reúne elementos pouco comuns no varejo de autopeças, como espaço kids, simulador, área pet friendly e categorias de conveniência. Qual é a lógica estratégica por trás dessa proposta?
Robson Xavier – A ideia é enxergar o cliente de forma mais ampla. Muitas vezes ele vem à loja com a família, passa mais tempo no ambiente ou quer resolver várias necessidades em um único lugar. Esses espaços tornam a experiência mais confortável, humana e memorável. Ao mesmo tempo, reforçam nosso posicionamento de inovação e proximidade com o consumidor.
Novo Varejo – Na visão de vocês, o consumidor de autopeças mudou sua expectativa em relação às lojas físicas nos últimos anos?
Robson Xavier – Sem dúvida. O consumidor está mais exigente, mais informado e acostumado a experiências diferenciadas em outros segmentos do varejo. Hoje ele valoriza atendimento consultivo, ambiente organizado, tecnologia, praticidade e rapidez. A loja física deixou de ser apenas um ponto de compra para se tornar um espaço de experiência e relacionamento.
Novo Varejo – Com o avanço dos marketplaces, a experiência física ganha mais peso como diferencial competitivo para o varejo de autopeças?
Robson Xavier – Sim. O digital trouxe muita praticidade, mas a loja física ainda oferece algo extremamente valioso: contato humano, atendimento técnico, confiança imediata e experiência sensorial. Acreditamos que o diferencial competitivo está justamente na integração entre conveniência digital e excelência no atendimento presencial, com senso de urgência e personalização.
Novo Varejo – A inspiração para esse conceito veio de exemplos do próprio aftermarket ou de outros segmentos do varejo?
Robson Xavier – Buscamos referências tanto dentro quanto fora do aftermarket. Observamos movimentos do varejo de autopeças, grandes redes de conveniência, megastores e empresas focadas em experiência do consumidor. A ideia foi adaptar essas tendências à realidade do setor automotivo no segmento de autopeças.
Novo Varejo – Além da experiência, que outros fatores vocês consideram essenciais para o futuro das lojas físicas de autopeças?
Robson Xavier – Além da experiência, fatores como tecnologia, gestão eficiente de estoque, velocidade na entrega, atendimento técnico qualificado e integração entre canais serão decisivos. O consumidor quer praticidade e confiança. A capacidade de combinar operação eficiente com bom atendimento tende a definir quem vai se destacar.
Novo Varejo – Quais têm sido os principais retornos dos clientes desde a inauguração da loja premium?
Robson Xavier – O retorno tem sido extremamente positivo. Os clientes destacam o conforto da loja, a organização, o atendimento, o ambiente moderno e os diferenciais da experiência. Muitos relatam surpresa por encontrar um conceito tão inovador dentro do segmento de autopeças. Alguns até perguntam se realmente vendemos peças, justamente por não haver balcão e o estoque ser invisível ao público.
Novo Varejo – A Careca Autopeças pretende expandir esse conceito premium para outras unidades?
Robson Xavier – É um modelo em que acreditamos muito. Nosso objetivo é continuar evoluindo e levar essa experiência para outras unidades de forma estratégica e sustentável, sempre respeitando as características de cada região e o perfil dos nossos clientes.
Tendência global: loja física como hub de serviços e relacionamento
A transformação das lojas físicas no Brasil acompanha uma evolução visível em diferentes mercados, com grandes redes de autopeças redesenhando suas operações para aproximar a experiência do consumidor da lógica presente em varejos especializados mais modernos.
Embora cada empresa siga sua própria rota, os cases internacionais indicam uma convergência clara: a loja física deixou de competir apenas na venda da peça para concentrar serviços, conveniência e relacionamento.
Nos Estados Unidos, um dos casos mais emblemáticos é o da Pep Boys. Tradicionalmente conhecida pela venda de autopeças, pneus e acessórios, a empresa iniciou um amplo processo de transformação das lojas físicas com foco em conveniência e simplificação da jornada do consumidor. A mudança foi tão profunda que a própria companhia passou a se posicionar menos como rede de autopeças e mais como uma plataforma de “car care”, conceito centrado na resolução completa das necessidades dos donos de veículos.
O movimento incluiu redesign das unidades, reorganização dos espaços internos e aumento significativo da presença de serviços automotivos rápidos e de manutenção dentro das lojas, aproximando o modelo da lógica de centros de serviços integrados.
No Reino Unido, a Halfords seguiu um caminho diferente, mas igualmente focado na reinvenção da experiência física. Forte nos segmentos automotivo e de ciclismo, a empresa vem promovendo uma profunda reformulação de lojas e oficinas.
Uma das principais apostas foi integrar varejo, manutenção automotiva, instalação de acessórios e revisão rápida dentro de uma mesma operação. Essa abordagem ganhou ainda mais força com o modelo “Fusion”, que envolveu investimento pesado em ambientação, modernização visual e fluidez da jornada dentro das unidades.
Na Austrália, a Supercheap Auto talvez seja o caso mais próximo da ideia de “varejização” e lifestyle automotivo que começa a ganhar terreno em alguns mercados. A empresa vem apostando em lojas altamente experienciais, conectadas à cultura automotiva, à personalização e ao universo dos entusiastas por meio de “clubes automotivos”.
Talvez o exemplo mais marcante desse movimento seja a criação de uma flagship store em Sydney, projetada para reproduzir a atmosfera de um clube automotivo contemporâneo. O projeto integrou merchandising imersivo, comunicação visual temática, ambientação emocional e experiências pensadas para engajar o consumidor dentro da loja física.
Assim como nos casos de Estados Unidos e Reino Unido, os novos projetos da Supercheap Auto também passaram a incorporar áreas específicas para instalação de acessórios, retirada de produtos e serviços rápidos – consolidando a loja física como um hub completo de relacionamento, conveniência e serviços automotivos.

















