Roubos de carga em SP caem 25%, mas prejuízo médio aumenta 19,6%

Roubos de carga em SP caem 25%, mas prejuízo médio sobe 19,6% e acende alerta no setor de transporte

O Estado de São Paulo vem registrando uma queda consistente nos crimes envolvendo cargas nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, as quadrilhas se tornaram mais estratégicas, selecionando melhor os alvos e focando em mercadorias de maior valor e alta liquidez. É o que revela o novo Boletim Tracker Fecap, que analisou, de forma inédita, as ocorrências de 2024, 2025 e do primeiro trimestre de 2026.

De acordo com o estudo, o total de infrações caiu 25% entre 2024 e 2025, de 5.523 para 4.142 registros. A tendência de redução se acentuou no início de 2026: o volume do primeiro trimestre ficou 30,2% abaixo da média do mesmo período de 2025. “Apesar do recuo, a análise qualitativa dos dados mostra que o crime não está apenas diminuindo; ele está se transformando”, avalia Erivaldo Vieira, pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) responsável pelo estudo.

Alimentos lideram; eletrônicos, fármacos e combustíveis ganham espaço

Os alimentos consolidaram-se como principal alvo dos criminosos. A participação desse tipo de carga passou de 27,3% em 2024 para 38,4% no primeiro trimestre de 2026. “Esse crescimento está ligado à alta liquidez e à facilidade de escoamento no mercado informal, características que reduzem o risco para as organizações criminosas”, explica Vieira.

Produtos eletroeletrônicos e farmacêuticos também avançam, impulsionados pelo alto valor agregado e pela revenda rápida. “Esse movimento pode estar relacionado ao aumento da demanda por medicamentos caros, sobretudo os que tiveram forte expansão recente no consumo, como as canetas emagrecedoras. São itens de alto valor unitário e fáceis de transportar”, acrescenta o gerente do Grupo Tracker, Vitor Corrêa.

Na direção oposta, cargas tradicionalmente visadas – como cigarros, bebidas e bens industriais (madeira, químicos e plásticos) – perderam relevância nas estatísticas.

Evolução do perfil da carga roubada (% do total)

  • Alimentos: 27,25% (2024) → 31,71% (2025) → 38,40% (1º tri 2026)
  • Eletroeletrônicos: 3,44% → 3,68% → 4,94%
  • Farmacêuticos: 2,33% → 2,16% → 3,33%
  • Combustíveis: 1,25% → 1,08% → 1,73%
  • Cigarros/fumo: 5,32% → 6,73% → 1,98%
  • Bebidas: 6,15% → 5,29% → 3,83%
  • Madeira/móveis: 2,66% → 2,12% → 0,74%
  • Químicos: 2,06% → 1,92% → 0,86%
  • Autopeças: 1,99% → 2,40% → 1,85%
  • Carga mista: 13,04% → 9,09% → 10,00%
  • Têxteis: 3,11% → 2,04% → 2,10%
  • Outros tipos: 20,63% → 23,52% → 21,36%

Para Vieira, “o roubo de cargas no período analisado demonstra elevada capacidade de adaptação, acompanhando mudanças no consumo e nas dinâmicas dos mercados legal e ilegal. O crime passa a se concentrar em produtos mais eficientes do ponto de vista econômico, o que reforça a necessidade de estratégias de enfrentamento que considerem não apenas o valor da carga, mas também sua liquidez, inserção no mercado informal e padrão de consumo”.

Corrêa ressalta que a redução das ocorrências representa um avanço importante, mas o novo perfil desenha um cenário mais complexo. “O crime se adapta rapidamente, diversifica estratégias e explora novas vulnerabilidades da cadeia logística. A combinação de tecnologia, inteligência e gestão de risco passa a ser determinante para reduzir perdas, aumentar a eficiência operacional e proteger motoristas, cargas e operações”, afirma.

Roubo de carga cai 25%, mas prejuízo médio aumenta 19,6%

O boletim também aponta uma mudança na lógica econômica do crime. Embora o número de registros tenha caído cerca de 25% de 2024 para 2025, o valor total estimado das cargas roubadas recuou apenas 9,1%, passando de R$ 405,1 milhões para R$ 368,1 milhões. Nesse intervalo, o prejuízo médio por ocorrência subiu 19,6%, de R$ 89,9 mil para R$ 107,5 mil.

“Esse movimento indica uma migração para cargas de maior valor e operações mais seletivas, combinando menor frequência com maior retorno financeiro. A participação de ocorrências acima de R$ 1 milhão mais que dobrou no período”, observa Vieira.

Participação por faixa de valor da carga roubada

  • Até R$ 5 mil: 13,24% (2024) → 9,47% (2025) → 11,36% (2026)
  • R$ 5 mil – R$ 10 mil: 11,16% → 11,18% → 11,98%
  • R$ 10 mil – R$ 20 mil: 15,19% → 15,72% → 15,80%
  • R$ 20 mil – R$ 30 mil: 8,68% → 8,85% → 9,26%
  • R$ 30 mil – R$ 40 mil: 5,24% → 5,48% → 4,81%
  • R$ 40 mil – R$ 50 mil: 4,21% → 4,09% → 4,81%
  • R$ 50 mil – R$ 60 mil: 2,66% → 3,32% → 2,84%
  • R$ 60 mil – R$ 70 mil: 2,10% → 1,76% → 1,85%
  • R$ 70 mil – R$ 80 mil: 1,37% → 1,97% → 2,47%
  • R$ 80 mil – R$ 90 mil: 0,94% → 1,85% → 0,49%
  • R$ 90 mil – R$ 100 mil: 1,32% → 1,73% → 1,23%
  • R$ 100 mil – R$ 150 mil: 4,34% → 4,59% → 4,44%
  • R$ 150 mil – R$ 200 mil: 2,46% → 2,09% → 1,85%
  • R$ 200 mil – R$ 400 mil: 4,83% → 5,55% → 5,43%
  • R$ 400 mil – R$ 800 mil: 2,37% → 2,84% → 2,59%
  • R$ 800 mil – R$ 1 milhão: 0,49% → 0,72% → 0,37%
  • Acima de R$ 1 milhão: 1,01% → 1,47% → 2,35%
  • Sem informação: 18,39% → 17,31% → 16,05%

Menos roubo violento, mais crimes “de inteligência”

A redução geral de ocorrências foi puxada principalmente pela queda de 26,4% nos roubos, modalidade que envolve violência ou grave ameaça. Receptação (-31,6%) e furto (-14,3%) também recuaram.

Por outro lado, o estelionato cresceu 23,8% no período, revelando mudança no perfil de atuação das quadrilhas. Segundo o boletim, há migração para práticas mais sofisticadas, baseadas em fraudes documentais (como falsas ordens de coleta e clonagem de empresas), desvio de cargas e manipulação de informações, o que amplia os desafios para transportadoras, embarcadores e seguradoras.

Natureza das infrações com cargas – 2024 x 2025 (número de casos)

  • Roubo: 4.713 → 3.468 (-26,42%)
  • Furto: 550 → 471 (-14,36%)
  • Receptação: 158 → 108 (-31,65%)
  • Apropriação indébita: 66 → 54 (-18,18%)
  • Estelionato: 42 → 52 (+23,81%)
  • Adulteração: 1 → 6 (+500,00%)

No primeiro trimestre de 2026, essa tendência se consolida. O roubo perde participação relativa no total de infrações, enquanto o furto ganha espaço, em linha com um perfil de crime menos exposto e de menor risco direto.

Participação relativa por tipo de infração – 2025 (anual) x 1º tri 2026

  • Roubo: 83,4% → 81,0% (-2,4 p.p.)
  • Furto: 11,3% → 14,1% (+2,8 p.p.)
  • Receptação: 2,6% → 2,3% (-0,3 p.p.)
  • Apropriação indébita: 1,3% → 1,7% (+0,4 p.p.)
  • Estelionato: 1,3% → 0,9% (-0,4 p.p.)

Crime mais planejado, menos oportunista

A mudança de comportamento também aparece no tipo de abordagem. A participação de interceptações em movimento subiu de 27,3% em 2024 para 30,5% em 2026, enquanto ataques durante a entrega perderam espaço, embora sigam em nível elevado.

“Esse dado indica uma atuação mais estratégica, com foco na etapa de transporte – em que há maior previsibilidade de rotas e volumes – e menor dependência de situações oportunistas, como paradas para descanso ou refeições”, observa Vitor Corrêa, gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker.

A concentração das ocorrências entre terça e sexta-feira, sobretudo nos períodos da manhã e da tarde, reforça essa lógica, alinhada à rotina da operação logística.

Participação por tipo de abordagem (%)

  • Abordado durante entrega: 41,27% (2024) → 38,28% (2025) → 36,42% (1º tri 2026)
  • Interceptado em movimento: 27,29% → 28,59% → 30,49%
  • Estacionado para descanso/refeição: 6,37% → 6,08% → 4,57%
  • Parado em semáforo: 2,87% → 2,67% → 2,72%
  • Outros (manutenção, saque, posto etc.): 7,08% → 7,55% → 6,17%
  • Sem informação: 15,12% → 16,83% → 19,63%

Retenção de motoristas permanece em patamar crítico

Um dos dados mais preocupantes do Boletim Tracker Fecap é a alta frequência de retenção de motoristas. Em quase 80% dos roubos, o condutor é mantido sob o poder dos criminosos – aproximadamente 3 em cada 4 casos.

Evolução da retenção do motorista (%)

  • Sim: 74,79% (2024) → 78,41% (2025) → 76,67% (2026)
  • Não: 21,10% → 15,70% → 18,02%
  • Sem informação: 4,10% → 5,89% → 5,31%

“Essa prática permite maior controle da operação criminosa, reduzindo a chance de reação imediata, dificultando o rastreamento e aumentando a probabilidade de sucesso na subtração da carga”, explica Corrêa. “Por isso é fundamental que as transportadoras invistam em imobilizadores que permitam a atuação direta do motorista diante de qualquer sinal de perigo, com bloqueio progressivo do veículo e acionamento por diferentes gatilhos de risco na cabine.”

O panorama traçado pelo boletim aponta para um cenário em que o roubo de cargas se torna menos frequente, porém mais caro e sofisticado, exigindo dos operadores logísticos, montadoras, distribuidoras e toda a cadeia automotiva uma abordagem integrada de tecnologia, treinamento, inteligência e processos para mitigar riscos e preservar vidas e ativos.