Com a promessa de reduzir preços para o consumidor brasileiro e ao mesmo tempo fortalecer a indústria automotiva nacional, o governo federal anunciou a renovação, por mais seis meses, das cotas de importação com alíquota zero para veículos eletrificados desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD).
A decisão foi duramente criticada pela Anfavea, que divulgou uma carta pública condenando a medida.
A entidade afirma ver com grande preocupação a decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) de restabelecer incentivos à importação desses veículos em CKD e SKD. Segundo a associação, a medida contraria os interesses dos trabalhadores, das montadoras instaladas no país e da cadeia nacional de autopeças – posição reforçada por dezenas de manifestações recentes de sindicatos, centrais sindicais, federações empresariais e entidades da indústria.
A Anfavea também critica o fato de a decisão ter sido tomada sem consulta ao setor produtivo, mudando de forma abrupta uma política definida pelo próprio governo federal. Essa política, ressalta a entidade, foi construída para equilibrar a expansão da eletromobilidade no Brasil com a atração de investimentos produtivos de longo prazo.
Pelo modelo anterior, as cotas para importação de kits de veículos elétricos deveriam se encerrar em fevereiro de 2026, conforme acordo firmado no ano passado após longo debate com a indústria. A alteração agora, avalia a associação, vai na contramão do interesse de empresas e de milhares de trabalhadores em nove estados brasileiros.
Ao estender um benefício que havia sido desenhado como temporário, o governo coloca em dúvida a previsibilidade regulatória, argumenta a Anfavea. Na prática, empresas que ajustaram seus planos de investimento com base nas regras vigentes passam a lidar com um cenário diferente do que foi originalmente pactuado.
O contexto é de forte avanço da eletrificação no país. Nos últimos anos, novas marcas entraram no mercado, a oferta de modelos aumentou e os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025.
Do lado da produção local, a indústria também reagiu aos estímulos de política pública. As montadoras anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, voltados a novas tecnologias de propulsão – incluindo eletrificação –, pesquisa, engenharia, modernização de fábricas e fortalecimento da cadeia de fornecedores.
Os números de produção confirmam essa tendência. Em 2025, veículos eletrificados fabricados no país responderam por 25,9% das vendas do segmento. No acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos produzidos no Brasil cresceu 57% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Diante desse cenário, a Anfavea sustenta que o debate já não é mais sobre como acelerar a entrada dos eletrificados no mercado brasileiro, mas sim sobre como garantir que essa transição resulte em mais produção local, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento de fornecedores, engenharia nacional e maior agregação de valor no país.
A entidade reconhece que benefícios fiscais à importação podem ter papel importante em fases iniciais de implantação industrial. No entanto, avalia que a ampliação desses incentivos em um momento em que os investimentos já estão anunciados e a produção local cresce reduz o estímulo para o avanço produtivo esperado na nova fase da indústria automotiva.
Na visão da Anfavea, a decisão também destoa das sinalizações que embasaram projetos recentemente anunciados sob as regras vigentes, aumentando a insegurança para empresas que estruturaram seus negócios considerando o cronograma traçado pelo próprio governo.
A associação reforça que seguirá defendendo a descarbonização – que inclui a eletrificação da frota –, a concorrência e a ampliação da oferta de veículos ao consumidor brasileiro. O ponto em disputa, argumenta a entidade, não é a transição energética em si, que já está em curso e não tende a recuar. A discussão central é qual modelo de desenvolvimento o país pretende adotar para a nova mobilidade e qual espaço será efetivamente reservado à produção nacional nesse processo.
















