“Carro a álcool: você ainda vai ter um”. Quem viveu a virada dos anos 1970 para 80 lembra bem desse slogan. Naquele momento, os primeiros carros movidos a combustível derivado da cana-de-açúcar começavam a ocupar as ruas brasileiras, cercados de desconfiança. A tecnologia era nova, o consumo era alto, carburadores engasgavam e dar a partida em dias frios parecia missão impossível.
Para estimular a adoção da solução “verde e amarela”, a Copersucar – então responsável por metade do álcool combustível do país – lançou a campanha que se tornaria profética. Poucos anos depois, mais de 80% dos automóveis produzidos no Brasil saíam das linhas de montagem movidos ao etanol, o novo nome politicamente correto da velha “caninha” automotiva. Hoje, com a chegada dos híbridos flex, o combustível renovável tem presença garantida por muitas décadas.
Onde queremos chegar? A introdução pode ter sido longa, mas é para cravar aqui – se é que alguém já não o fez antes – uma nova profecia, com potencial de ser lembrada daqui a 50 anos: “Carro chinês: você ainda vai ter um”.
Exagero? Os dados indicam que não. Há apenas um ano, as marcas chinesas detinham pouco mais de 7% do mercado brasileiro. Agora, já se aproximam de 15%. A BYD, sozinha, vende mais carros do que várias montadoras tradicionais, e novas marcas desembarcam no país em um ritmo que faz os antigos ciclos de expansão da indústria parecerem lentos.
A resistência ao fenômeno segue o roteiro de outras viradas tecnológicas. Questiona-se o valor de revenda, a disponibilidade de peças, a qualidade dos produtos e a capacidade dessas marcas de se manterem no longo prazo. São dúvidas legítimas – e muito parecidas com as que cercaram o álcool, os motores flex e até os primeiros carros coreanos que chegaram ao Ocidente.
A experiência mostra que o consumidor não espera consenso para decidir. Ele compra aquilo que enxerga como melhor combinação entre tecnologia, design e custo-benefício. Quando milhões de pessoas fazem a mesma escolha, o mercado se reorganiza ao redor dela. Sempre foi assim. E pouco adianta a indignação de quem está no jogo há décadas. O consumidor olha, antes de tudo, para o próprio interesse.
Por isso, talvez a principal pergunta para o aftermarket não seja se os carros chineses vieram para ficar. Esse debate, na prática, parece superado. A questão é outra: o setor está se preparando para conviver com eles?
Queiramos ou não, a frota em circulação é o único ativo que realmente importa para o mercado de reposição. E a história da indústria mostra que revoluções não costumam pedir licença. Elas simplesmente acontecem.
É bem provável que, daqui a algumas décadas, as polêmicas atuais sobre as novas marcas vindas do Oriente sejam lembradas com a mesma curiosidade com que hoje relembramos os carburadores congelados nas manhãs frias dos anos 1980.
Não se trata de aposta nem de torcida. A história da indústria automotiva raramente pergunta se estamos prontos para a mudança. Ela apenas segue em frente. E é por isso que é seguro afirmar: daqui a alguns anos, esta frase soará tão óbvia quanto o antigo slogan do Proálcool – “Carro chinês: você ainda vai ter um”.















