O aftermarket automotivo brasileiro deve seguir em rota de crescimento e o clima entre os principais players é de otimismo. É o que indicam os dados da nova pesquisa da consultoria McKinsey & Company com executivos da indústria de autopeças, apresentados na Conexão Abipeças, evento online promovido por Abipeças e Sindipeças em 20 de maio.
As projeções ajudam a entender esse cenário. Segundo a McKinsey, o faturamento das indústrias de autopeças voltadas à reposição pode praticamente dobrar até 2040: de cerca de R$ 43 bilhões, em 2024, para algo em torno de R$ 80 bilhões. Um avanço superior a R$ 37 bilhões em pouco mais de uma década, o que representa crescimento médio anual próximo de 3,5%.
Nada disso, porém, virá automaticamente. Para capturar esse potencial, as empresas precisarão se adaptar a um ambiente de negócios bem diferente daquele que sustentou o setor nas últimas décadas.
O peso estratégico do aftermarket fica evidente quando se observa sua contribuição para a rentabilidade da cadeia automotiva. Embora represente aproximadamente 10% de um mercado global estimado em US$ 10 trilhões, a reposição responde por uma fatia muito maior dos lucros. Nas montadoras, o negócio de peças chega a cerca de 10% da receita, mas responde por aproximadamente 40% dos resultados. Entre fornecedores, a reposição representa em torno de 15% do faturamento, mas responde por 30% da rentabilidade. Nas concessionárias, quase metade do lucro está associada às atividades ligadas a peças e serviços de pós-venda. Em resumo: o aftermarket não é um acessório da indústria automotiva, é um de seus pilares financeiros.
Importações sobem de patamar
A pesquisa mostra que 68% dos executivos ouvidos enxergam um horizonte positivo para o mercado de reposição nos próximos anos. Esse otimismo vem acompanhado, porém, da percepção de que a competição será cada vez mais acirrada. Quase metade dos entrevistados aponta a pressão crescente das importações como um dos principais riscos. E, quando se fala em importação, um país domina as atenções: a China.
A preocupação não se limita ao volume de produtos que chegam ao Brasil. O que está mudando é a natureza da concorrência. Antes concentradas em itens de menor complexidade tecnológica, as importações avançam sobre componentes mais sofisticados, incluindo produtos ligados à motorização e à eletrônica embarcada. Hoje, cerca de 60% das peças importadas têm maior conteúdo tecnológico.
Isso altera a dinâmica competitiva. A disputa deixa de ser apenas por preço e passa a envolver escala, domínio tecnológico, capacidade de inovação e produtividade industrial.
E-commerce muda o jogo
Entre todas as transformações estruturais destacadas pelos participantes da pesquisa, uma se sobressai: a expansão do comércio eletrônico. Nada menos que 82% dos executivos consideram o avanço do e-commerce uma das mudanças mais relevantes para o aftermarket.
Esse dado explica por que tantas empresas aceleram investimentos em plataformas digitais, marketplaces, canais diretos e ferramentas de relacionamento online. A digitalização deixou de ser apenas um novo canal de vendas para impactar toda a cadeia de valor: compras, atendimento, logística, financiamento e serviços de manutenção. Os marketplaces, além disso, ganham relevância como porta de acesso ao crédito para compras.
Nesse contexto, quem insiste em tratar o ambiente digital como operação paralela corre o risco de descobrir que o próprio mercado passou a enxergá-lo como centro da estratégia.
Quando perguntadas sobre prioridades de investimento para os próximos anos, as empresas destacaram dois focos principais: expansão comercial e aumento da eficiência operacional. À primeira vista são temas distintos; na prática, caminham juntos. Durante a apresentação, Alessandro Rosa, Senior Partner e líder da Prática de Indústrias Avançadas na América Latina da McKinsey & Company, chamou atenção para um ponto-chave: eficiência operacional e inovação tornaram-se praticamente inseparáveis.
O exemplo chinês ajuda a ilustrar. A competitividade que a indústria da China alcançou não nasceu apenas de mão de obra barata ou de incentivos fiscais. É fruto de décadas de investimentos em tecnologia, automação, inovação de processos e desenvolvimento industrial.
Macrotendências em movimento
Talvez nenhuma transformação seja tão profunda quanto a convergência entre eletrificação, conectividade e inteligência artificial. Fabricantes globais já utilizam IA para desenvolver componentes mais leves, eficientes e personalizados. Ao mesmo tempo, veículos conectados passam a receber atualizações de software over the air, aumentando ainda mais o peso dos sistemas eletrônicos na arquitetura automotiva.
Esse movimento muda, gradualmente, o perfil da demanda por peças. Componentes tradicionalmente ligados aos motores a combustão tendem a perder participação ao longo do tempo. Em contrapartida, ganham espaço sistemas eletrônicos, sensores, módulos de controle e componentes associados à eletrificação.
Os executivos ouvidos reconhecem essa transição, mas podem estar subestimando uma segunda frente de mudança, que avança de forma mais silenciosa: os veículos autônomos. Ainda distantes da realidade brasileira, eles começam a escalar em mercados como Estados Unidos e China. Segundo a McKinsey, uma parcela relevante das corridas por aplicativo em regiões da Califórnia já é feita com veículos autônomos, enquanto fabricantes chineses têm modelos praticamente prontos para operação comercial, aguardando apenas definições regulatórias.
Pode parecer um fenômeno longínquo. A eletrificação também parecia, poucos anos atrás.
“O mundo está mudando, a tecnologia está tendo um impacto muito grande, a gente vê a eletrificação como incontestável, veículos autônomos vão crescer, a reciclagem vai crescer, então é muito importante estar atento a todos esses movimentos”, alertou Alessandro Rosa.
Frota envelhecida sustenta o presente
Se, de um lado, a tecnologia impõe desafios, de outro a demografia da frota brasileira segue sustentando o aftermarket. A idade média dos veículos em circulação continua alta e sobe em diversos segmentos. Para cerca de 60% dos participantes da pesquisa, esse envelhecimento é um dos principais motores de expansão do mercado de reposição nos próximos anos.
É justamente essa combinação que ajuda a entender por que o setor pode crescer mesmo com o avanço dos veículos eletrificados. A eletrificação reduz a necessidade de alguns componentes tradicionais, mas uma frota maior, mais velha e equipada com sistemas mais complexos aumenta o valor agregado das intervenções de manutenção e reposição.
O estudo aponta, assim, para uma conclusão central: o aftermarket brasileiro não enfrenta um problema de demanda. As projeções se mantêm positivas, os investimentos seguem em alta e o mercado demonstra confiança.
O grande desafio é outro. O setor terá de aprender a crescer em um ambiente radicalmente diferente daquele que o formou. Digitalização, inteligência artificial, conectividade, consolidação empresarial, eletrificação, pressão chinesa e novos modelos de mobilidade não são tendências isoladas: compõem um mesmo movimento de transformação estrutural.
O aftermarket deve continuar sendo uma das atividades mais rentáveis da cadeia automotiva. Mas é pouco provável que essa rentabilidade futura fique nas mãos das mesmas empresas, com os mesmos modelos de negócio e as mesmas competências que garantiram sucesso até aqui.
O mercado vai crescer. A questão passa a ser: quem conseguirá crescer junto com ele.
Pesquisa expõe as tensões do mercado
– Otimismo versus pressão competitiva: 68% veem um futuro promissor, mas 45% apontam o avanço das importações como ameaça. – Crescimento versus transformação tecnológica: o mercado tende a dobrar de tamanho, mas parte do portfólio atual perde relevância. – Eficiência versus inovação: ganhos de produtividade passam, necessariamente, por digitalização e tecnologia. – Envelhecimento da frota versus eletrificação: o presente sustenta o aftermarket enquanto o futuro começa a redesenhá-lo. – China como ameaça e referência: o país aparece ao mesmo tempo como principal competidor e como modelo de eficiência e inovação industrial.

















