Agregar valor ou desenvolver tecnologia: o dilema que pode definir o futuro da indústria automotiva brasileira

O Dilema da Indústria Automotiva Brasileira: Agregar Valor ou Desenvolver Tecnologia para Competir no Futuro

A indústria automotiva vive um momento de virada que tende a redefinir as bases de sua própria sobrevivência nos próximos anos – e o Brasil está diretamente no centro dessa reconfiguração. No evento online Conexão Abipeças, promovido por Abipeças e Sindipeças em 20 de maio, a consultora Letícia Costa chamou atenção para um ponto de inflexão capaz de reposicionar o País dentro da cadeia automotiva global. Nesse cenário, insistir em fórmulas que funcionaram no passado pode significar perder relevância justamente quando uma nova arquitetura da indústria mundial começa a se consolidar.

“Ponto de inflexão é diferente de mudança estrutural. Em que sentido? No sentido de que as regras do passado não vão funcionar no futuro”, afirmou Letícia. Sua preocupação não está restrita à eletrificação, aos veículos conectados ou ao avanço das montadoras chinesas. O risco maior, segundo ela, é o Brasil ficar fora das etapas mais nobres da cadeia e se limitar a funções industriais de menor valor agregado. “Se o Brasil e as empresas que estão aqui nessa indústria não correrem atrás dessas oportunidades, o risco é ter um esvaziamento muito grande dessa indústria ao longo do tempo, em termos do valor que ela agrega”, alertou.

O alerta vem em um momento em que a própria indústria global passa por transformações profundas. Os grandes mercados consumidores já não crescem como antes. Estados Unidos, Europa e China atingiram níveis de maturidade que dificultam repetir os ciclos de expansão das últimas décadas. Ao mesmo tempo, os veículos ficaram mais caros, receberam um volume crescente de tecnologia embarcada e passaram a ter vida útil mais longa. O resultado é um ambiente em que as empresas precisam investir mais em inovação enquanto disputam espaço em mercados que crescem menos. “As empresas vão brigar muito mais por share do que por mercado”, resumiu a consultora.

É nesse contexto que a ofensiva chinesa ganha peso. Em poucos anos, as montadoras do país asiático deixaram de ser vistas apenas como players de baixo custo e passaram a ser referência em eletrificação, baterias, conectividade e software embarcado. Os efeitos já são visíveis no Brasil. Segundo Letícia, os veículos chineses não estão apenas aumentando participação; estão mudando a régua de comparação do consumidor. “Os chineses estão trazendo carros muito bons, com bastante conteúdo, e isso passa a ser a régua de comparação do consumidor”, disse.

Qual será o papel do Brasil?

Essa nova realidade pressiona as montadoras tradicionais e, ao mesmo tempo, força toda a cadeia produtiva brasileira a rever sua estratégia. Se a tecnologia dos veículos está sendo desenvolvida em outros países, qual será o papel do Brasil daqui para frente?

Para Letícia, a resposta começa pela engenharia. Desde a segunda metade do século 20, o País construiu uma sólida capacidade em desenvolvimento automotivo, com foco em engenharia mecânica. O problema é que o automóvel deixou de ser apenas um produto mecânico. “O carro está ficando cada vez mais um computador em cima de rodas”, observou.

Essa transformação desloca o centro de valor para software, inteligência artificial, conectividade e eletrônica. Na visão da consultora, o Brasil tem condições para participar desse novo ciclo. O País já desenvolveu competências relevantes em software e inovação digital, mas ainda há uma distância grande entre esses ecossistemas e a indústria automotiva tradicional. “Eu preciso aproximar essas capacitações da indústria para ter uma engenharia que esteja, de fato, preparada para enfrentar e agregar valor nesse novo cenário e não simplesmente adaptar carros vindos de outros lugares”, defendeu.

A mesma lógica vale para as baterias, outro eixo considerado decisivo. Para Letícia Costa, a instalação de capacidade produtiva local tende a ser inevitável à medida que a eletrificação avança. Mas a questão central não é apenas onde as baterias serão montadas, e sim onde estará o conhecimento que as torna competitivas. “Eu só vou montar a bateria ou vou ter algum tipo de tecnologia da bateria?”, questionou.

Essa preocupação sintetiza o dilema atual da indústria brasileira. O País reúne reservas minerais, capacidade industrial, mercado consumidor relevante e condições para atrair investimentos. Nada disso garante, porém, presença nas atividades que concentram maior geração de valor. “Eu preciso ver se eu vou agregar algum valor ou simplesmente vou ser um montador no Brasil”, disse.

Segundo ela, o caminho não é tentar reinventar, isoladamente, tecnologias já dominadas por líderes globais, mas sim criar mecanismos eficazes de transferência tecnológica – estratégia que a própria China utilizou de forma intensa ao longo de seu processo de industrialização.

Da mecânica à eletrônica: o impacto sobre autopeças

A definição da rota tecnológica mais adequada para o Brasil é hoje um dos debates centrais da indústria da mobilidade e, nos próximos anos, deve provocar desdobramentos em todo o ecossistema automotivo. Embora a eletrificação seja vista como tendência irreversível, Letícia Costa concorda com a avaliação, bastante difundida no setor, de que o País tem uma vantagem competitiva específica que não pode ser desperdiçada.

Na visão da consultora, a combinação entre eletrificação e biocombustíveis faz do híbrido flex uma solução mais racional para o Brasil do que simplesmente replicar o modelo dos países desenvolvidos. A escolha não se limita ao tema das emissões de carbono; envolve também o volume de investimentos necessário para expandir a infraestrutura de recarga em um território de dimensões continentais.

Mas talvez nenhum elo da cadeia tenha tanto em jogo nessa transição quanto o setor de autopeças. À medida que os veículos incorporam mais eletrônica, software e sistemas inteligentes, os componentes mecânicos tradicionais tendem a perder participação relativa no valor do automóvel. Para os fabricantes de autopeças, especialmente nos níveis Tier 2 e Tier 3, essa mudança torna a adaptação tecnológica uma questão de sobrevivência, não apenas de crescimento. “É preciso entender que vai ter uma mudança na matriz tecnológica, de mecânica para eletrônica”, reforçou Letícia.

Diante disso, parte do setor terá de rever portfólios, buscar parcerias, investir em novas competências e até reposicionar seus modelos de negócio. “O setor de autopeças vai ter que se transformar ou ele corre o risco, entre aspas, de morrer”, alertou.

No fundo, todos esses movimentos convergem para a mesma discussão. O Brasil reúne ativos raros: matriz energética relativamente limpa, liderança em biocombustíveis, parque industrial instalado, recursos minerais estratégicos e um mercado consumidor expressivo. A pergunta em aberto é como transformar essas vantagens em geração de conhecimento, tecnologia e inovação.

O risco apontado por Letícia Costa não é apenas perder fábricas, e sim perder relevância. “É importante a gente reconhecer que se não fizermos nada, corremos o risco de ter uma indústria que só monta aqui.” Nesse cenário, baterias, software, eletrônica, inteligência artificial e desenvolvimento tecnológico viriam de fora. A produção continuaria existindo, mas uma fatia cada vez menor do valor agregado ficaria no País.

Por isso, a discussão sobre eletrificação, software, baterias e competição chinesa é, na prática, um debate mais amplo. Não se trata apenas de decidir quais carros serão produzidos no Brasil nas próximas décadas, mas de definir se o País continuará participando da criação de valor da indústria automotiva global ou se aceitará o papel de apenas montar, localmente, a inovação desenvolvida em outros lugares.