Startup mexicana utiliza IA para democratizar a modernização de oficinas no Brasil

Startup mexicana usa IA para democratizar a modernização de oficinas mecânicas no Brasil

O descompasso entre a crescente complexidade dos veículos e o ritmo de digitalização das oficinas mecânicas já é um dos principais desafios do mercado de reparação automotiva. Enquanto carros com conectividade, sistemas ADAS e Inteligência Artificial (IA) se tornam padrão, muitas oficinas ainda dependem de processos manuais, têm dificuldade de acesso à informação técnica e sofrem com a falta de mão de obra qualificada.

De olho nesse cenário, empresas de tecnologia passaram a desenvolver soluções para trazer a IA para o dia a dia das oficinas. É o caso da Pitz, startup fundada no México e já em operação no Brasil, que oferece uma plataforma baseada em Inteligência Artificial para apoiar mecânicos e gestores em diagnóstico técnico, gestão operacional, relacionamento com clientes e acesso a informações especializadas.

A empresa, que recentemente ampliou sua rodada de investimentos e levantou cerca de US$ 5 milhões em menos de um ano para acelerar a expansão internacional, defende que a tecnologia pode democratizar o conhecimento técnico e aumentar a produtividade das oficinas, independentemente do porte.

Para entender melhor esse movimento, conversamos com Natália Salcedo, fundadora e CEO da Pitz. Na entrevista, ela explica por que enxerga a IA como um “copiloto técnico” do mecânico, analisa o estágio de digitalização das oficinas brasileiras, comenta os obstáculos de adoção da tecnologia e projeta como a IA deve transformar produtividade, diagnósticos e gestão nas oficinas nos próximos anos.

Aftermarket Automotivo – A Pitz nasceu com a proposta de aproximar a Inteligência Artificial da rotina das oficinas mecânicas. Como surgiu essa ideia e quais foram as principais dores do mercado de reparação que motivaram a criação da empresa?

Natália Salcedo – A Pitz nasceu da percepção de um contraste muito claro no mercado automotivo. De um lado, os veículos estão ficando cada vez mais tecnológicos, conectados e complexos. Do outro, boa parte das oficinas ainda trabalha com processos manuais, informações fragmentadas e pouco acesso à tecnologia.

Quando começamos a estudar esse mercado em profundidade, percebemos que o problema não era só falta de software. Havia questões estruturais: dificuldade de acesso à informação técnica, escassez de mão de obra qualificada, tempo excessivo gasto em diagnósticos e pesquisas, processos administrativos ineficientes e dificuldade para localizar e comprar as peças corretas.

A Pitz surgiu justamente para encurtar a distância entre a complexidade crescente dos veículos e a capacidade tecnológica disponível para quem está na linha de frente da manutenção e reparação. Nossa visão é usar Inteligência Artificial para democratizar o acesso ao conhecimento técnico e aumentar a capacidade produtiva das oficinas. Queremos que qualquer mecânico, em qualquer tipo de oficina e em qualquer nível de experiência, tenha acesso a uma tecnologia capaz de ajudá-lo a tomar decisões melhores, trabalhar com mais eficiência e atender mais clientes.

Aftermarket Automotivo – Hoje, como vocês definem a Pitz? Uma plataforma de gestão, uma empresa de Inteligência Artificial ou um ecossistema de soluções para a transformação digital das oficinas?

Natália Salcedo – Nos definimos como uma empresa AI-native construindo o sistema operacional inteligente do mercado de reparação automotiva. A gestão da oficina é um componente relevante da plataforma, mas nossa ambição vai além de digitalizar atividades administrativas.

Estamos desenvolvendo uma infraestrutura tecnológica que conecta Inteligência Artificial, diagnóstico e assistência técnica, gestão da operação, relacionamento com clientes, gestão de veículos, estoque e acesso a peças automotivas. A IA funciona como uma camada transversal: não está confinada a um único módulo, mas passa a apoiar, gradualmente, diversas decisões e processos dentro da oficina.

Nossa meta é que a Pitz se torne a principal interface tecnológica entre o mecânico e todo o ecossistema necessário para operar uma oficina moderna.

Aftermarket Automotivo – Quais são hoje os principais desafios das oficinas mecânicas brasileiras? Eles estão mais ligados à gestão do negócio, à falta de mão de obra qualificada, ao relacionamento com clientes ou ao diagnóstico técnico?

Natália Salcedo – Esses desafios se conectam, mas dois deles são claramente estruturais: a escassez de mão de obra qualificada e o aumento da complexidade tecnológica dos veículos.

Está cada vez mais difícil encontrar profissionais experientes, ao mesmo tempo em que os carros incorporam mais eletrônica embarcada, sensores, sistemas conectados e tecnologias que exigem conhecimento especializado.

Isso gera um problema de produtividade. O conhecimento tende a se concentrar nos profissionais mais experientes, que se tornam gargalos da operação. Paralelamente, muitas oficinas ainda sofrem com questões básicas de gestão: organização das ordens de serviço, acompanhamento dos clientes, controle financeiro, gestão de estoque e compra de peças.

A Inteligência Artificial entra justamente para ampliar a capacidade produtiva da equipe existente. Quando um mecânico menos experiente consegue acessar rapidamente informações técnicas, procedimentos de diagnóstico e recomendações adequadas ao contexto do veículo, ele ganha autonomia. Com isso, os profissionais seniores podem se dedicar aos casos mais complexos, enquanto a tecnologia ajuda a elevar o nível técnico do time como um todo.

Aftermarket Automotivo – IA costuma ser associada a empresas já bastante digitalizadas. Na prática, que perfil de oficina está apto a usar as soluções da Pitz? Existe um nível mínimo de maturidade digital ou a tecnologia foi pensada justamente para acelerar essa transformação?

Natália Salcedo – A tecnologia foi desenhada justamente para reduzir essa barreira. Se tivéssemos criado uma solução que exigisse alta maturidade digital, atenderíamos apenas uma pequena fatia do mercado.

A maior parte das oficinas é formada por pequenas e médias empresas, com equipes enxutas e níveis muito diferentes de familiaridade com tecnologia. Por isso, nossa prioridade é tornar a interação com a IA o mais natural possível.

Um dos caminhos é o uso de interfaces conversacionais e voz. O mecânico não precisa dominar sistemas complexos nem entender como funciona um modelo de IA. Ele pode simplesmente descrever o problema, relatar sintomas ou fazer uma pergunta técnica. A tecnologia é que precisa se adaptar à rotina da oficina – não o contrário.

Aftermarket Automotivo – Um receio comum dos proprietários de oficinas é que a adoção de novas tecnologias exija treinamentos longos ou grandes mudanças na rotina. Como isso funciona na prática? As soluções da Pitz são intuitivas ou vocês também oferecem capacitação na implementação?

Natália Salcedo – Acreditamos que tecnologia só gera impacto quando é, de fato, utilizada. Por isso, investimos muito na simplificação da experiência do usuário e em reduzir o tempo até a oficina começar a enxergar valor.

A interação com a IA pode acontecer por linguagem natural e voz, algo muito parecido com a forma como os mecânicos já trocam informações entre si. Ao mesmo tempo, entendemos que a adoção não depende apenas do produto em si.

Acompanhamos as oficinas durante a implementação e o onboarding, ajudando gestores e equipes a incorporar a plataforma à rotina. Nosso objetivo é combinar um produto intuitivo com um suporte próximo, principalmente nos primeiros passos da jornada.

Aftermarket Automotivo – O perfil do mecânico brasileiro é bastante heterogêneo, de profissionais muito conectados a outros ainda mais tradicionais. Como esses públicos têm reagido à IA? A resistência ainda é grande ou esse quadro está mudando?

Natália Salcedo – Existe curiosidade e, naturalmente, alguma desconfiança inicial. Mas percebemos que a resistência diminui rápido quando o profissional entende que a IA não veio para substituir seu conhecimento, e sim para ampliar sua capacidade de trabalho.

O mecânico traz algo extremamente valioso: a experiência prática. Ele reconhece ruídos, sintomas, comportamentos dos veículos e situações que muitas vezes não estão documentados de forma estruturada. A IA pode complementar essa bagagem, ajudando a organizar informações, levantar hipóteses, acessar conteúdo técnico e acelerar a investigação de falhas.

Há também uma mudança geracional em curso. Profissionais mais jovens já estão habituados a recorrer à tecnologia para buscar informações e resolver problemas. E os mais experientes percebem o valor da ferramenta quando ela economiza tempo e reduz tarefas repetitivas. No fim, a adoção acontece quando a tecnologia resolve um problema real.

Aftermarket Automotivo – Ao se falar em IA aplicada à reparação automotiva, muitos imaginam sistemas que identificam automaticamente o defeito do veículo. Hoje, qual é o limite dessa tecnologia e qual é o papel dela no processo de diagnóstico?

Natália Salcedo – É importante afastar a ideia de que a IA é um “mecânico automático” capaz de determinar sozinha o defeito do veículo. O diagnóstico automotivo é um processo complexo, que envolve conhecimento técnico, contexto, inspeção física, testes e, principalmente, experiência profissional.

O papel da IA é atuar como um copiloto técnico. Ela ajuda a interpretar sintomas, organizar informações, sugerir hipóteses de diagnóstico, apontar possíveis causas, recomendar procedimentos de verificação e facilitar o acesso a dados técnicos. Isso reduz de forma significativa o tempo gasto em pesquisa e investigação.

Mas a decisão final continua nas mãos do profissional. Acreditamos que o futuro da reparação não é feito de IA substituindo mecânicos, mas de mecânicos que usam IA e, por isso, se tornam muito mais produtivos do que aqueles que não utilizam essas ferramentas.

Aftermarket Automotivo – Vocês podem compartilhar exemplos concretos de atividades que consumiam muito tempo nas oficinas e que ficaram mais rápidas ou eficientes com apoio da IA?

Natália Salcedo – Um exemplo claro é a busca por informações técnicas. É comum mecânicos consultarem diversas fontes – fóruns, vídeos, manuais, grupos de mensagens – para entender determinados problemas. Isso pode levar dezenas de minutos ou até horas.

Com uma interface de IA, o profissional descreve o veículo, os sintomas e o contexto, e recebe rapidamente uma síntese das possíveis causas e dos procedimentos de diagnóstico a considerar.

Outro ponto é a documentação da operação. Informações sobre diagnósticos, serviços realizados, recomendações e histórico dos veículos podem ser registradas e organizadas com apoio da IA. No futuro, vemos uma parcela importante das tarefas administrativas sendo automatizada. O mecânico poderá conversar naturalmente com a plataforma enquanto trabalha, e a tecnologia fará o registro das informações, a atualização das ordens de serviço, a pesquisa de peças, a comunicação com o cliente e a organização dos processos.

Aftermarket Automotivo – Com o avanço dos veículos conectados, ADAS, telemetria e eletrificação, a complexidade dos diagnósticos tende a aumentar. Como a IA pode ajudar as oficinas a enfrentar essa nova realidade?

Natália Salcedo – O volume de informação necessário para reparar um veículo cresce muito rápido. Um profissional lida com múltiplas montadoras, modelos, sistemas eletrônicos, sensores, códigos de falha, procedimentos técnicos e novas tecnologias. É irreal imaginar que alguém consiga memorizar tudo isso.

A Inteligência Artificial pode atuar como uma camada de inteligência capaz de organizar e contextualizar grandes volumes de dados. No futuro, ela poderá combinar histórico do veículo, dados de sensores, informações técnicas, sintomas relatados pelo cliente e experiências de reparo anteriores para apoiar o profissional na tomada de decisão.

Isso será especialmente relevante com o avanço dos veículos elétricos, conectados e equipados com sistemas ADAS. Quanto mais complexos forem os veículos, maior será a necessidade de ferramentas que ampliem a capacidade técnica dos reparadores.

Aftermarket Automotivo – Pensando nos próximos cinco anos, como você imagina a rotina de uma oficina que utiliza Inteligência Artificial de forma intensiva? Que mudanças mais profundas essa tecnologia deve trazer para mecânicos e gestores?

Natália Salcedo – Acreditamos que a oficina do futuro será muito mais automatizada e orientada por dados. Uma parte relevante das tarefas administrativas será executada ou assistida por agentes de IA.

O cliente poderá contatar a oficina, descrever o problema e agendar o atendimento por meio de um agente inteligente. Quando o veículo chegar, o sistema já terá organizado informações importantes sobre o histórico do carro e apoiará o mecânico durante o diagnóstico.

Enquanto trabalha, o profissional poderá interagir por voz com a IA para consultar informações técnicas, registrar serviços, atualizar ordens de serviço e pesquisar peças. A comunicação com o cliente também poderá ser automatizada, desde atualizações de status até recomendações de manutenção preventiva.

Para os gestores, a IA ajudará a identificar gargalos, prever demanda, otimizar o estoque, acompanhar indicadores financeiros e recomendar ações para aumentar a rentabilidade da oficina.

Talvez, porém, a mudança mais profunda seja a democratização do conhecimento técnico. Hoje, há um abismo de produtividade entre profissionais iniciantes e mecânicos com décadas de experiência. A IA pode reduzir essa distância. Um profissional menos experiente, com as ferramentas certas, poderá acessar conhecimento, investigar problemas e decidir com muito mais segurança.

Isso não diminui a importância da experiência – pelo contrário. Permite que o conhecimento dos mais experientes seja usado de forma mais estratégica, enquanto a tecnologia eleva o nível produtivo da equipe inteira.

Nos próximos cinco anos, acreditamos que a grande diferença não será entre oficinas grandes e pequenas. Será entre oficinas que aprenderam a usar IA para aumentar sua produtividade, capacidade técnica e rentabilidade, e aquelas que continuam operando exatamente como sempre fizeram.