Novo tarifaço de Trump entra em vigor e ameaça até US$ 11 bi em exportações brasileiras

Novo tarifaço de Trump ameaça até US$ 11 bi em exportações brasileiras: entenda os impactos para o Brasil

Uma nova tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros começou a valer a partir de 1h01 (horário de Brasília) desta quarta-feira (22/07) nos Estados Unidos. A medida, anunciada uma semana antes, atinge cerca de 3 mil itens e é resultado de uma investigação da Seção 301 conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), que avalia práticas consideradas desleais por parte de parceiros comerciais.

Segundo a conclusão do USTR, o Brasil adota políticas que restringem os negócios de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores norte-americanos. Entre os pontos citados estão comércio digital, serviços de pagamento, estruturas tarifárias, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Além do etanol, a nova rodada de tarifas deve afetar exportações brasileiras de máquinas agrícolas, papel e vestuário.

Com isso, o Brasil passa a figurar entre os países mais taxados pelos Estados Unidos, assumindo a segunda posição, atrás apenas da China. Antes da medida, ocupava o 13º lugar nesse ranking.

O governo Lula (PT) calcula que o aumento das tarifas afete cerca de 18% das exportações brasileiras para o mercado americano. Ainda assim, mais de 2,1 mil produtos permanecerão isentos, entre eles carne, café, petróleo, laranja, suco de laranja e componentes para fabricação de aeronaves, itens de maior peso na pauta exportadora nacional.

Entre as justificativas apresentadas por Washington está a criação do Pix. Para a Casa Branca, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos teria prejudicado empresas norte-americanas de cartões de crédito. Outro ponto sensível é o desmatamento: os EUA argumentam que a expansão agrícola sobre áreas desmatadas reduziria custos de produção no Brasil, gerando competição considerada desleal. Nesse contexto, a celulose de alta pureza foi retirada da lista de isenções tarifárias.

O governo brasileiro rebate as acusações com dados que indicam queda nos índices de desmatamento e crescimento da participação de bandeiras norte-americanas de cartões no mercado doméstico, inclusive durante a implementação do Pix. Além disso, o Brasil sustenta que mantém superávit em sua balança comercial com os EUA.

O novo tarifaço acende um alerta no setor produtivo nacional, que já vinha registrando perda de fôlego nas vendas aos Estados Unidos. No primeiro trimestre deste ano, 20 dos 27 estados brasileiros, além do Distrito Federal, registraram queda nas exportações para o mercado norte-americano.

A Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) estima que mais de US$ 11 bilhões (cerca de R$ 55,9 bilhões) em exportações brasileiras podem ser diretamente impactados pelas novas tarifas, em linha com cálculos da CNI (Confederação Nacional da Indústria). O governo, por sua vez, trabalha com um número mais baixo: US$ 5,8 bilhões (R$ 30 bilhões).

Segundo a Amcham e a CNI, embora não tenha havido acordo para evitar as sobretaxas, as negociações se intensificaram nos últimos meses e continuam sendo vistas como o caminho mais eficaz para reverter as medidas. Exportadores manifestam preocupação com a possibilidade de aprofundamento da retração do comércio bilateral, que já caiu 12,8% no primeiro semestre, de acordo com o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). No período, o intercâmbio entre os dois países somou US$ 36,4 bilhões (R$ 184,8 bilhões), com saldo favorável aos EUA em US$ 1,5 bilhão (R$ 7,6 bilhões).

A indústria brasileira teme que a nova rodada de tarifas agrave a perda de competitividade em relação a fornecedores de outros países, em um cenário já pressionado por sobretaxas em vigor desde o ano passado. A CNI destaca que, desde 2025, houve retração de 8,7% nas vendas externas de bens industriais, com destaque para semimanufaturados de ferro e aço, ferro, pasta de madeira e óleos de petróleo.

A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), crítica à condução do governo Lula no tema, classificou as novas sobretaxas como motivo de “profunda preocupação”.

Entre os setores diretamente afetados, a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) lembra que cerca de 20% de suas exportações têm os EUA como destino. Em 12 meses, as vendas para o mercado norte-americano somaram US$ 3,2 bilhões (R$ 16,3 bilhões), ante importações de máquinas e equipamentos dos EUA da ordem de US$ 4,8 bilhões (R$ 24,4 bilhões).

Para a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), também entre as mais impactadas pelas medidas, a decisão norte-americana representa um retrocesso nas relações comerciais bilaterais.

Já a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) criticou a tarifa extra sobre o etanol brasileiro, argumentando que a política adotada pelo país está em conformidade com as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio). A entidade afirma não existir acordo bilateral que obrigue o Brasil a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol dos EUA e atribui a queda das exportações norte-americanas para o mercado brasileiro principalmente ao avanço da produção doméstica, em especial de etanol de milho.