A inadimplência do setor empresarial, que ultrapassa a marca de 7%, tornou os bancos extremamente seletivos para conceder crédito no segmento de caminhões. Para conter o risco, as instituições financeiras passaram a exigir entradas maiores, encurtar os prazos de pagamento e aplicar critérios de pontuação de score muito mais rígidos. O cenário traz reflexos diretos no perfil dos compradores: a viabilização das operações tem se concentrado nas grandes transportadoras, enquanto os caminhoneiros autônomos encontram barreiras severas para financiar veículos.
A dificuldade enfrentada pelos profissionais autônomos decorre principalmente da instabilidade de receita, da volatilidade no volume de fretes e da dependência direta do veículo como única fonte de renda — fator em que eventuais quebras ou acidentes paralisam os pagamentos. Soma-se a isso a falta de documentação formal para comprovar ganhos contínuos ou vínculos contratuais com embarcadores. Em contrapartida, os grandes frotistas possuem lastro financeiro, balanços sólidos, contratos previsíveis e fluxo de caixa comprovável, o que garante acesso prioritário aos recursos bancários.
Nesse contexto, o programa federal Move Brasil Caminhões atuou como um forte indutor de vendas ao antecipar a renovação das frotas de grande porte. Os incentivos e verbas direcionados às empresas maiores foram totalmente esgotados na primeira e na segunda fase do programa. A parcela de recursos que permaneceu sem uso pertencia justamente à cota destinada aos caminhoneiros autônomos, que não conseguiram preencher os requisitos de aprovação exigidos pelas instituições concessionárias.
Apesar das restrições de crédito bancário tradicional, o mercado de veículos pesados novos registrou alta de 15,9% na comparação entre julho e junho. O avanço superou o ritmo de crescimento observado no mês anterior, quando as concessões haviam subido entre 5,8% e 5,9%. O bom desempenho de julho se somou ao resultado positivo de outros segmentos: no comparativo mensal, a comercialização de veículos novos em geral subiu 3,3%, enquanto o mercado de seminovos e usados cresceu 10,7%. Entre os pesados usados, a expansão atingiu 12,4%, impulsionada sobretudo pela Região Nordeste, que registrou salto de 24,5%. No acumulado de janeiro a julho, a venda de modelos 0 km acumula alta de 10,2%, frente a um avanço de 7,7% entre os usados.
De acordo com o presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), Enilson Sales, a restrição ao financiamento reflete uma atitude de cautela e gestão de risco por parte dos bancos em vez de uma recusa deliberada em emprestar. Para as operações sem o subsídio do programa federal, as taxas mensais de juros praticadas no mercado oscilaram entre 1,5% e 1,9%, alcançando picos de 1,96% ou 1,97% conforme o perfil do cliente, a idade do veículo e o prazo estipulado.
Segundo o executivo da Anef, em declaração à Agência Transporte Moderno, o fator determinante para o travamento do crédito corporativo não é unicamente o patamar da taxa Selic, mas sim a deterioração das carteiras de clientes, alimentada pelo endividamento crescente e pela alta nos pedidos de recuperação judicial. Os dados consolidados referentes ao mês de julho — abrangendo o volume total de concessões, inadimplência e taxas médias — serão oficializados no início de setembro pela B3 e pelo Banco Central, oportunidade em que será possível dimensionar com precisão a parcela das vendas impulsionada pelo Move Brasil em relação ao crédito convencional.
















