Pressão sobre empresas do varejo vai além da reforma tributária

Pressão sobre o varejo brasileiro cresce e vai além da reforma tributária: entenda os novos desafios das empresas

A reforma tributária tem levado as empresas de varejo a revisitar todo o modelo de negócios em uma movimentação que vai muito além da área fiscal. Os times de tributos estão hoje lado a lado com a alta liderança e C-Levels, influenciando decisões sobre formação de preços, margens e desenho de estratégias comerciais.

“Com o avanço da reforma tributária, que entrou em vigor neste ano, torna-se crucial mapear os impactos em preços; na malha operacional – como localização de fábricas, centros de distribuição e armazéns –; no capital de giro; entre outros aspectos do negócio”, afirma Waine Peron, sócio-líder de Impostos da EY Brasil, que participou de um evento da firma em São Paulo voltado a executivos tributários do varejo. Ele ressalta que o cenário é ainda mais complexo porque a reforma se soma a outras pressões relevantes sobre o setor, como a instabilidade geopolítica, o alto endividamento das famílias e a dificuldade de transformar tecnologia – em especial a inteligência artificial – em resultados concretos de produtividade.

“O varejo é extremamente sensível ao nível de endividamento das famílias, que hoje está muito elevado. O Brasil tem trabalhado mais para dar segurança ao credor na concessão de crédito do que para enfrentar de fato o problema do endividamento do consumidor. As classes C e D, especialmente, estão pagando juros mensais altíssimos em modalidades como o rotativo do cartão de crédito”, aponta Cristiane Amaral, sócia da EY e líder de consumo, produtos e varejo para a América Latina, palestrante no evento. Segundo ela, o endividamento em nível crítico limita a capacidade do varejo de repassar qualquer aumento de custo para os preços finais, já que o consumidor opera com orçamento estrangulado. “Isso precisa entrar como um ponto de atenção central no planejamento de precificação em resposta à reforma tributária”, complementa.

No front geopolítico, o fechamento do Estreito de Ormuz elevou de forma relevante o custo e o tempo de chegada de insumos e matérias-primas em todo o mundo. “Para a indústria de beleza, esse prazo de entrega é crítico para a operação”, observa Cristiane. Ela estima que seriam necessários ao menos 18 meses para que o fluxo e os preços voltassem à normalidade após uma eventual reabertura do Estreito. “O cenário atual, no entanto, não indica que isso vá ocorrer no curto prazo, o que exige que as empresas, inclusive do varejo, estejam preparadas para operar nesse novo ambiente econômico”, diz.

Cristiane também chama atenção para o desafio de transformar o forte investimento em inteligência artificial em vendas reais. “Toda aquela promessa de hiperpersonalização, com algoritmos sugerindo compras online para os consumidores, ainda não está entregando o ROI esperado pelas empresas”, avalia. Ao mesmo tempo, ela lembra que, com a perda gradual de benefícios fiscais trazida pela reforma – que pode chegar a 5% ao ano –, a tendência é que a compensação precise vir de ganhos efetivos de produtividade. “Só que esse ganho de eficiência não acontece da noite para o dia. Ele depende da digitalização da operação e do uso de tecnologias voltadas a fábricas inteligentes, cujo impacto em escala costuma levar de seis meses a dois anos para se materializar”, afirma.

Para Fernanda Santos de Oliveira, head de Tax no Brasil da Sonepar, também presente ao evento, a reforma tributária atravessa toda a estrutura de negócios e se conecta diretamente a essas outras fontes de pressão sobre o varejo. “Temos feito um trabalho contínuo de acompanhamento e conscientização com todas as frentes do grupo, com apoio da liderança. Esse alinhamento de comunicação garante que a reforma seja efetivamente tratada como uma pauta de todas as áreas”, destaca.

Na visão de Fernanda, o profissional tributário assume o papel de orquestrador da reforma dentro das empresas. Cabe a ele considerar não apenas as mudanças previstas ao longo dos anos de implementação, mas também os efeitos das transformações econômicas e tecnológicas sobre o processo de conformidade. “Por isso, o profissional de Tax precisa ser cada vez mais multidisciplinar e conhecer a fundo diferentes mercados”, conclui.