Com o fim das bets, varejo espera recuperar parte do orçamento das famílias

Fim das Apostas Esportivas: Como o Varejo Pode Recuperar o Orçamento das Famílias

Estimativa da CNC mostra que R$ 143 bilhões deixaram de chegar ao varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 em função da inadimplência ligada às bets

O fim das apostas esportivas online no Brasil tem potencial para mexer de forma relevante com o padrão de consumo das famílias. Depois de alguns anos em que as bets passaram a ocupar espaço crescente no orçamento dos brasileiros, o varejo surge como um dos principais candidatos a herdar parte desses recursos.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Cálculo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que R$ 143 bilhões deixaram de chegar ao varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 por causa da inadimplência associada às apostas online.

Esse montante equivale a cerca de 2,5% do faturamento do varejo no período e corresponde, em valores, ao somatório das vendas de Natal de 2024 e 2025.

Com a proibição das bets regulamentadas, parte do dinheiro que vinha sendo destinado às apostas pode voltar a circular em supermercados, lojas de vestuário, farmácias, lojas de autopeças, oficinas e demais segmentos do comércio.

Bets passaram a disputar renda com o varejo

Dados do Ministério da Fazenda mostram que apenas em 2025 foram depositados R$ 220,6 bilhões em casas de apostas autorizadas em nível federal. Deste total, R$ 183,7 bilhões retornaram aos jogadores na forma de prêmios e bônus sacáveis. Os R$ 36,9 bilhões restantes corresponderam à receita bruta das plataformas.

A expansão desse mercado coincidiu com uma mudança na forma como parte dos consumidores passou a distribuir o próprio orçamento.

Levantamento da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) aponta que 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas para apostar. Outros 19% reduziram gastos em supermercados.

Viagens, refeições fora de casa, produtos de higiene, medicamentos e até contas básicas também aparecem entre os itens que tiveram redução de consumo entre quem passou a apostar com frequência.

Quanto os brasileiros gastam com bets?

Ao longo de 2025, R$ 220,6 bilhões foram depositados em plataformas de apostas regulamentadas pelo governo federal. Embora a maior parte desse valor tenha retornado aos jogadores, a diferença entre depósitos e prêmios somou R$ 36,9 bilhões.

Cerca de 25,2 milhões de brasileiros adultos fizeram apostas ao longo do ano, com gasto médio estimado em R$ 122 por mês. Esse valor passou a competir diretamente com outras despesas das famílias — inclusive aquelas com impacto direto sobre o varejo de bens e serviços.

Fim das bets pode devolver dinheiro ao consumo

Não há garantia de que todos os recursos antes destinados às apostas migrem automaticamente para o varejo. Parte desse dinheiro tende a ser usada para pagamento de dívidas, formação de poupança ou outras despesas. Também existe o risco de migração para plataformas ilegais, fora do alcance da regulação e da tributação.

Mesmo assim, os próprios dados sobre o comportamento dos apostadores indicam quais segmentos podem recuperar parcela desse orçamento.

Se 23% reduziram compras de roupas e 19% cortaram gastos em supermercados para apostar, a retirada das bets regulamentadas dessa disputa pela renda abre espaço para uma possível recomposição desses consumos, especialmente em itens do dia a dia.

Bets e endividamento das famílias

A estimativa da CNC de que R$ 143 bilhões deixaram de circular pelo varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026 considera especificamente a inadimplência relacionada às apostas online.

Isso não significa que as bets sejam a única origem do endividamento das famílias brasileiras. Juros elevados, inflação, evolução da renda e o próprio cenário econômico seguem como fatores centrais para a capacidade de consumo e pagamento.

Por outro lado, os números mostram como as apostas conseguiram ocupar, em pouco tempo, uma fatia relevante do orçamento das famílias — e como o fim das bets regulamentadas no Brasil pode reabrir espaço para o consumo em diversos segmentos do varejo, com impacto direto em toda a cadeia automotiva e de serviços associados.