As tensões geopolíticas no Oriente Médio voltaram a pressionar o preço do diesel e já começam a gerar efeitos concretos sobre a logística brasileira.
Mesmo com a desoneração de tributos federais, o combustível seguiu em forte alta em março. Nas três primeiras semanas do mês, o diesel S10 – o mais consumido no país – subiu 24,98% no atacado, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). No mesmo período, a gasolina avançou 9,01% e o etanol, 1,39%.
Na prática, o impacto já aparece nas operações mais dependentes de diesel.
De acordo com Ricardo Canteras, diretor comercial e de operações da Temp Log, o aumento acende um sinal de alerta principalmente em fretes de médio e grande porte. Empresas com frota majoritariamente a diesel sentem o efeito de forma mais rápida e intensa, enquanto operações com frota mista ainda conseguem diluir parte da pressão.
“Ainda estamos monitorando, mas os reflexos já começam a surgir. Tivemos, por exemplo, um fornecedor pedindo reajuste de 8% em toda a tabela comercial, sob a justificativa de uma taxa emergencial ligada ao diesel. Neste momento, estamos negociando para segurar esse repasse, porque ainda não conseguimos, e nem entendemos que seja a hora, de transferir esse aumento para os nossos clientes”, afirma.
Para Canteras, a pressão sobre o preço do diesel tende a ganhar força nas próximas semanas, já que o impacto costuma levar algum tempo até se espalhar por toda a cadeia logística.
“Se esse cenário se prolongar ou piorar, uma das saídas pode ser a adoção de reajustes temporários nos fretes, mas é uma decisão que precisa ser tomada com muita cautela. Existe uma preocupação não só operacional, mas também comercial, de preservar o equilíbrio nas relações com os clientes.”
Alta pode chegar ao consumidor e pressionar inflação
A preocupação não se restringe às transportadoras. A Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol) alerta que a alta do diesel tem potencial para contaminar toda a economia.
A entidade destaca que o avanço do preço internacional do petróleo já pressiona diretamente o custo do diesel e de outros combustíveis essenciais ao transporte em todas as regiões do país.
“Caso o cenário persista, os efeitos tendem a se intensificar, com reflexos diretos sobre os fretes e, consequentemente, sobre a inflação e o custo Brasil”, afirma Marcella Cunha, diretora-presidente da Abol.
Ela lembra que os operadores logísticos estão presentes em toda a cadeia produtiva, “sendo responsáveis por atividades como transporte, armazenagem e gestão de estoques, atendendo a diversos setores da economia”.
Além disso, trata-se de um segmento altamente sensível ao preço dos combustíveis. Segundo Marcella, o diesel pode responder por até 40% dos custos operacionais dessas empresas.
Para associação, alta no preço do diesel já chega a 50%
Um levantamento interno da Abol, realizado na semana passada, mostra que todos os associados que responderam à pesquisa já identificam aumento no preço do diesel nas cinco regiões do país. Em alguns locais, já há relatos de dificuldade de abastecimento, como em Santa Catarina.
Em média, o aumento percebido é de 20%, mas há registros bem acima disso: Rio de Janeiro (até 50%), Bahia (30%), Santa Catarina (até 35%) e São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul (até 25%).
Outros combustíveis usados em transporte também sobem, como o bunker (marítimo) e o QAV (aéreo).
Governo propõe subsídio emergencial ao diesel
Para tentar conter os impactos, o governo federal colocou sobre a mesa uma proposta emergencial. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a equipe econômica sugeriu uma subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel importado, dividida de forma igual entre União e estados.
A ideia é oferecer uma resposta rápida à crise internacional, sem precisar zerar o ICMS. A medida teria validade até 31 de maio, com impacto fiscal estimado em R$ 3 bilhões, ou R$ 1,5 bilhão por mês.
Medidas ainda não chegam totalmente ao mercado
Apesar de considerar a iniciativa do governo federal essencial, a Abol relata que os operadores logísticos já apontam defasagens e assimetrias no repasse desses benefícios até as bombas, “o que indica que a redução esperada não tem se concretizado”.
“Observa-se uma elevação contínua dos custos operacionais dos operadores logísticos, com impactos diretos não apenas sobre os fretes, mas também sobre a própria eficiência das operações. Soma-se a isso a preocupação com possíveis paralisações de caminhoneiros e aumento do piso mínimo do frete, recentemente atualizado em função do aumento do diesel”, ressalta Marcella.
Mercado Livre, Shopee e Amazon ainda não sentem impacto
Nem todos os segmentos, porém, sentem a pressão da mesma forma.
O Mercado Livre informou, por meio de sua assessoria, que o setor de transportes da companhia ainda não registrou impacto relevante da alta do diesel. A Shopee disse que, por enquanto, não tem nada a comunicar sobre o tema. A Amazon preferiu não se manifestar.

















