Cadeias de suprimentos estão sendo reconfiguradas no Brasil e no mundo

Reconfiguração das Cadeias de Suprimentos no Brasil e no Mundo: Tendências, Desafios e Oportunidades

O início da implementação da reforma tributária a partir deste ano vai exigir uma revisão profunda das cadeias de suprimentos das empresas. Com o fim gradual dos incentivos fiscais, a lógica de localização de fábricas e centros de distribuição tende a ser completamente revista.

“O mapa industrial do País deve ser redesenhado. A prioridade passará a ser reduzir distâncias e aproximar as empresas de seus mercados de consumo, em um cenário oposto ao que vemos hoje”, afirmou Carlo Itani, diretor-executivo de Supply Chain & Operations da EY Brasil, durante o evento “Reforma Tributária e Estratégia Empresarial: Um Diálogo com Conselheiros”, que reuniu executivos de diversos setores.

Segundo Itani, as companhias terão de buscar novas oportunidades para encurtar deslocamentos, reduzir tempos e custos de entrega, cortar emissões de carbono no transporte e diminuir o capital empatado em estoques de produtos e insumos. “Hoje, circula-se demais com mercadoria apenas para capturar benefícios fiscais, sacrificando a eficiência logística. Esse modelo tende a perder espaço”, acrescentou.

No contexto global, o executivo lembra que o modelo de supply chain que marcou as últimas décadas — baseado em estabilidade e custo mínimo — está em xeque. A crescente volatilidade geopolítica, tarifária e climática tem exposto suas fragilidades. “A dependência de rotas únicas e de poucas fontes de suprimento aumentou muito a exposição das empresas a riscos externos”, disse.

Cadeias longas e lineares não só ampliam as chances de ruptura física, como também elevam significativamente as emissões de carbono. “Isso contrasta com as novas exigências dos consumidores, que, como mostram nossos estudos, querem cada vez mais produtos ‘made local’ e ‘made better’: feitos localmente e com melhor padrão socioambiental”, explicou.

Itani ressaltou ainda que o modelo tradicional, excessivamente linear e rígido, privilegia eficiência de curto prazo em detrimento de resiliência e flexibilidade — atributos essenciais em momentos de alta volatilidade. “O avanço da IA e da análise de dados perde força quando aplicado a cadeias inflexíveis. Tecnologia sozinha não resolve problemas estruturais; é necessária uma mudança de mentalidade em todas as empresas que compõem a cadeia de suprimentos”, avaliou.

Um novo desenho de cadeia de suprimentos

Para responder a esse novo ambiente, a EY redesenhou o modelo de cadeia de suprimentos com quatro pilares principais: resiliência, capacidade de resposta rápida, ecossistema em rede e relacionamentos múltiplos.

No novo modelo, o foco deixa de ser exclusivamente o menor custo e passa a ser a resiliência, com diversificação de locais de produção, centros de distribuição e modais de transporte. “Muitas vezes temos vários modais alternativos, diversas opções de operadores logísticos, múltiplas rotas possíveis — mas escolhemos apenas pelo menor preço. Essa lógica precisa ser revista”, provocou Itani.

Em um cenário imprevisível como o atual, o monitoramento constante de sinais externos torna-se essencial para antecipar riscos e reagir com rapidez. “Não basta olhar apenas para dentro de casa. É preciso acompanhar o ambiente ao redor da empresa para encontrar as melhores respostas”, completou.

Outro ponto central é atuar em um ecossistema em rede, substituindo a dependência de um único provedor por múltiplos fornecedores e, em algumas situações, até mesmo colaborando com concorrentes, dependendo do risco ou da oportunidade envolvidos. “Por fim, a gestão precisa considerar todos os atores da cadeia, todos os stakeholders, entendendo que o retorno ao acionista é consequência direta da qualidade desses relacionamentos múltiplos”, concluiu.