Custos, eletrificação e regionalização redesenham o aftermarket automotivo

Como custos, eletrificação e regionalização estão transformando o aftermarket automotivo

A indústria automotiva global entrou em uma nova fase: mais complexa, pressionada por custos e acelerada pela tecnologia. É o que mostra o AMS / ABB Automotive Manufacturing Outlook Survey 2025. Embora o estudo tenha foco na manufatura, os sinais para o Aftermarket Automotivo são claros: a transformação já começou a chegar à reposição. O levantamento ouviu 450 executivos e especialistas da indústria automotiva em todo o mundo.

Pressão de custos, falta de mão de obra qualificada, avanço da automação, regionalização produtiva e eletrificação formam um novo cenário que tende a alterar de forma estrutural o mercado de reposição nos próximos anos. No Brasil, a leitura dominante é que a transição energética da frota será puxada pela tecnologia híbrida, mas o crescimento das vendas de veículos 100% elétricos já chama atenção dos analistas.

Mais do que tendências futuras, esses vetores já começam a afetar margens, portfólios e estratégias comerciais em toda a cadeia, de fabricantes a oficinas.

O estudo aponta como principais desafios atuais da indústria automotiva as pressões de custos (34%), o aumento dos custos trabalhistas combinado à escassez de qualificação (30%) e as tarifas e restrições comerciais (29%). Ao detalhar o quadro, surgem como principais focos de preocupação as tarifas (45%), matérias-primas (42%), mão de obra (39%) e energia (38%).

Para o aftermarket, a mensagem é direta: o ambiente de custos elevados não é conjuntural, mas tende a se consolidar como parte estrutural do setor. Isso significa repasses graduais de preços, maior compressão de margens e necessidade de operações muito mais eficientes. Gestão de estoque, inteligência de compras e controle financeiro deixam de ser rotinas operacionais e passam a ocupar papel estratégico.

Mão de obra

A pesquisa também destaca a crescente dificuldade em encontrar profissionais qualificados. Quase metade dos entrevistados aponta a necessidade de novas competências e a falta de habilidades específicas; 44% mencionam falhas na formação educacional. As maiores lacunas estão em automação, baterias e veículos eletrificados, além de software e programação.

Esse quadro é facilmente transportado para o aftermarket brasileiro, onde oficinas, varejos e distribuidores já sentem o impacto da chegada de veículos mais tecnológicos. A tendência é que a capacitação técnica se torne um dos principais diferenciais competitivos do setor. Empresas que investirem de forma consistente em treinamento, certificação e formação contínua devem abrir vantagem em um mercado mais complexo e especializado.

Pressionada, a indústria reage com investimentos crescentes em automação, digitalização e integração de dados. Entre as principais estratégias estão o controle rigoroso de custos, a adoção de robótica, a flexibilização dos processos produtivos e a digitalização em larga escala das operações.

Além disso, a maioria dos executivos coloca temas como cibersegurança, automação e eficiência operacional no topo das prioridades para os próximos anos. Esse movimento tende a gerar efeitos em cadeia: à medida que montadoras e sistemistas avançam em digitalização e integração, distribuidores, varejistas e empresas do aftermarket passam a ser pressionados a operar no mesmo nível.

Uso intensivo de dados para previsão de demanda, digitalização de processos e aplicação de inteligência artificial em áreas como precificação, gestão de estoques e planejamento tendem a deixar de ser diferenciais para se tornarem requisitos mínimos de competitividade.

Regionalização produtiva

Outro movimento relevante apontado pelo estudo é a regionalização da produção. A combinação de tensões geopolíticas, tarifas e busca por maior resiliência logística tem impulsionado estratégias do tipo “local for local”, com produção mais próxima dos mercados consumidores.

O encurtamento das cadeias logísticas pode favorecer fabricantes locais, estimular a substituição de importações e fortalecer mercados regionais. Ao mesmo tempo, impõe um novo patamar de competitividade em custo, qualidade e capacidade produtiva. Em países como o Brasil, esse redesenho pode abrir uma janela estratégica para o fortalecimento da indústria nacional — desde que apoiado em ganhos concretos de eficiência.

Um aftermarket mais complexo

O conjunto dessas transformações indica que o Aftermarket Automotivo entra em uma fase mais desafiadora. Custos elevados, digitalização, falta de mão de obra, regionalização e eletrificação não são movimentos isolados, mas forças que, combinadas, redesenham o funcionamento do mercado.

O crescimento do setor tende a continuar, porém cada vez mais condicionado à capacidade de adaptação das empresas. Profissionalização da gestão, investimento consistente em tecnologia, capacitação técnica e revisão estratégica de portfólio passam a ser fatores determinantes.

Mais do que acompanhar a evolução da indústria, o aftermarket precisará se reposicionar dentro dela. Na prática, isso significa operar com gestão financeira mais sofisticada, engenharia de portfólio baseada em dados, treinamento técnico contínuo, digitalização profunda e capacidade real de adaptação rápida. A próxima década não será apenas sobre vender peças, mas sobre operar com inteligência, eficiência e visão de longo prazo.

O que dizem os executivos automotivos

– 34% apontam pressão de custos (energia e matérias-primas) como principal desafio – 30% destacam aumento de custos trabalhistas e falta de qualificação – 29% citam tarifas e restrições comerciais

Principais fontes de pressão de custos:

– 45% tarifas – 42% matérias-primas – 39% mão de obra – 38% energia

Escassez de talentos:

– 47% indicam necessidade de novas competências – 47% relatam falta de habilidades específicas – 44% apontam deficiência na formação

Principais lacunas técnicas:

– 28% em automação e robótica – 18% em baterias e veículos elétricos – 15% em software e programação

Estratégias da indústria:

– 33% focam no controle de custos – 31% investem em automação – 29% buscam processos mais flexíveis – 26% avançam em digitalização e integração de dados – 95% consideram automação, cibersegurança e eficiência prioridades críticas

Mudança na cadeia global:

– 30% avançam em regionalização – 29% adotam reshoring/nearshoring

Eletrificação da frota:

– 27% veem metas 100% elétricas como grande desafio – 26% consideram essas metas inviáveis nos prazos atuais – 47% apontam o custo das baterias como principal barreira – 38% citam falta de demanda – 32% mencionam matérias-primas – 30% destacam o alto volume de investimento necessário – 51% afirmam que veículos elétricos estão mais fáceis de produzir – 41% reportam redução de custos na produção de EVs

Perspectiva de mercado:

– 60% projetam aumento da produção global – 19% esperam queda

Eletrificação avança, mas transição será mais longa

O debate sobre a velocidade da eletrificação ganhou força, mas o estudo mostra que há expectativa consistente de crescimento para veículos elétricos, híbridos e outras tecnologias de propulsão alternativa.

Ao mesmo tempo, uma parcela relevante dos executivos considera desafiador — ou mesmo inviável — cumprir metas agressivas de eletrificação total nos prazos estabelecidos hoje.

Entre os principais obstáculos estão o custo das baterias, a demanda ainda limitada, a disponibilidade de matérias-primas e o volume elevado de investimentos exigidos.

Para o aftermarket global, a leitura é clara: a transição não será abrupta. O mercado conviverá por um longo período com diferentes tecnologias, com destaque para a expansão dos híbridos antes de uma adoção mais ampla dos elétricos puros. Isso exigirá um portfólio mais complexo, capaz de atender simultaneamente veículos a combustão, híbridos e elétricos, com impactos diretos em engenharia de produto, logística, formação técnica e estratégia comercial.