Eletrificação impulsiona a migração de empregos

Como a Eletrificação Está Transformando e Migrando Empregos na Economia Brasileira

Um estudo conduzido pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT), em parceria com pesquisadores da Unicamp e da USP e com apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), aponta uma guinada importante no mercado de trabalho automotivo brasileiro: a eletrificação não só altera o produto final, como redesenha a lógica do emprego em toda a cadeia.

As projeções indicam que a produção de veículos elétricos no Brasil pode mais do que dobrar o número de postos de trabalho até 2050. O dado confronta a narrativa de que a eletrificação destruiria vagas pela menor complexidade mecânica dos veículos. Em vez disso, o estudo mostra uma realocação profunda: o emprego não some, ele muda de endereço.

A estimativa é de que cerca de 80% das novas vagas se concentrem no setor de serviços, em áreas como engenharia, manutenção especializada, logística e, principalmente, infraestrutura de recarga. O eixo do emprego automotivo se desloca da linha de montagem para o ecossistema que sustenta o veículo ao longo de todo o seu ciclo de vida. A indústria deixa de ser apenas fabricante de produtos para se consolidar como fornecedora de serviços e soluções integradas.

Há também um impacto qualitativo relevante. Segundo o levantamento, os salários na cadeia dos veículos elétricos tendem a ser, em média, 85% superiores aos da indústria tradicional de combustão. Isso indica que a eletrificação não só aumenta o volume de empregos, como eleva o patamar de qualificação exigido — e, consequentemente, o valor das posições no mercado.

O cenário desenha uma mudança de paradigma: menos dependência de mão de obra intensiva e mais demanda por competências técnicas, digitais e analíticas. Profissionais capazes de interpretar dados, gerenciar sistemas e operar tecnologias complexas tendem a ganhar espaço. Em contrapartida, funções clássicas ligadas à mecânica convencional podem perder peso gradualmente.

O carro elétrico, 1 bilhão de milhas depois

Nos últimos cinco anos, a plataforma de dados e inteligência sobre veículos elétricos Recurrent analisou mais de 1 bilhão de milhas de dados reais de uso e recarga, coletados de mais de 50 mil veículos. A empresa também consolidou informações obtidas em parcerias com concessionárias, marketplaces, leilões e montadoras, construindo um retrato detalhado do comportamento dos elétricos no uso cotidiano.

Os dados mostram que, em muitos modelos, a autonomia real supera a estimativa da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) quando o carro é novo — e essa vantagem se mantém por anos. A metodologia da EPA, porém, não captura diferenças de desempenho no inverno entre marcas nem a perda de autonomia com o envelhecimento, o que deixa concessionárias e compradores com um grau considerável de incerteza.

A degradação da bateria, segundo a Recurrent, está longe de ser o “vilão” que costuma aparecer no imaginário do consumidor. A maioria dos veículos mantém boa parte da autonomia ao longo do tempo, e mesmo carros com mais de 150 mil milhas rodadas apresentam resultados considerados muito bons. Nos modelos mais modernos, a taxa de substituição de baterias é de apenas 0,3%.

No fim, a história contada pelos dados difere bastante da narrativa predominante no debate público. As vendas trimestrais de veículos elétricos novos nos Estados Unidos mostram crescimento em degraus, com praticamente nenhuma queda ano contra ano desde o início das operações da Recurrent. E cada veículo novo vendido hoje alimenta o estoque de usados de amanhã, o que indica expansão contínua desse mercado.

Para os gestores da plataforma, essa divergência entre percepção e realidade é estratégica. Ela cria uma espécie de “câmara de eco” em que decisões de investimento são postergadas com base em informações desatualizadas ou incompletas — o que, na prática, atrasa a adoção de soluções elétricas.

CTA Bosch amplia formações em eletrificação em 2026

De olho nesse movimento, o Centro de Treinamento Automotivo Bosch (CTA) divulgou o calendário de treinamentos para 2026, com programas voltados a diferentes perfis de profissionais do setor, incluindo oficinas credenciadas e independentes. A proposta é apoiar o mercado nas transformações em curso e fortalecer o nível técnico das oficinas no país.

Entre os destaques está o curso “Veículos Elétricos e Híbridos – Fase II (Sistemas Elétricos e Híbridos)”, focado em sistemas de alta tensão. A formação ganha peso diante da expansão da frota eletrificada no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o país já ultrapassou a marca de 600 mil veículos eletrificados em circulação, e a infraestrutura de recarga cresce em ritmo acelerado.

Nesse contexto, aumenta a necessidade de profissionais aptos a trabalhar com segurança em tecnologias como baterias de alta tensão, inversores, conversores e máquinas elétricas.

Com carga horária de 16 horas e realização presencial em Campinas (SP), o curso combina conteúdo teórico — abordando fundamentos técnicos e princípios de funcionamento — com atividades práticas supervisionadas, incluindo a aplicação de procedimentos de segurança e o uso adequado de equipamentos de proteção individual.

O programa cobre temas como desabilitação e habilitação do sistema elétrico de alta tensão, isolamento do sistema HV, análise eletrônica de blocos e células de bateria, diagnóstico de inversores, testes de isolamento em motores elétricos e avaliação de sistemas de gerenciamento térmico, entre outros tópicos relacionados a diagnóstico e segurança em alta tensão.

Durante as aulas, os participantes utilizam equipamentos como megômetro, scanner de diagnóstico e osciloscópio automotivo, com foco em aplicações diretamente relacionadas à rotina de oficina.

“Com o avanço da eletrificação veicular, as oficinas precisam se preparar para lidar com novas tecnologias e protocolos de segurança. Nosso objetivo é oferecer capacitação técnica que permita aos profissionais acompanhar essa evolução do mercado e realizar diagnósticos com segurança e precisão”, afirma Diego Riquero, chefe do Centro de Treinamento Automotivo da Bosch.

O curso será realizado nos dias 20 e 21 de maio de 2026, na sede do CTA, em Campinas (SP), das 8h às 17h. É desejável que o participante já tenha concluído treinamentos de elétrica básica e a Fase I de Veículos Elétricos e Híbridos.