Estudo do Meu Crediário traça o panorama da inadimplência

Pesquisa do Meu Crediário aponta que a inadimplência deve manter fortes oscilações ao longo de 2025, permanecendo em patamar elevado, acima de 2024, embora em condição considerada mais “saudável” que a de 2023. Segundo a plataforma de gestão de crédito, criada há dez anos, o ano foi marcado por uma “recuperação parcial, novo avanço e pressão contínua sobre o orçamento das famílias”.

Em dezembro, o Índice de Inadimplência – que considera compras com atraso de pelo menos 90 dias – fechou em 8,58%, ante 7,72% no mesmo mês de 2024 e 10,02% em 2023. “O comportamento de 2025 revela um ciclo clássico de recuperação curta seguida por nova pressão”, afirma o CEO do Meu Crediário, Jeison Schneider.

Ao longo de 2025, a inadimplência variou quase 3 pontos percentuais: de 6,74% em fevereiro a 9,7% em junho. “O crédito voltou a crescer, mas sem um reforço proporcional da renda e da capacidade de pagamento”, avalia Schneider. No último trimestre do ano, a inadimplência média foi de 8,44%, também acima de 2024 (7,32%) e abaixo do mesmo período de 2023 (9,30%).

Entre os setores, Roupas & Calçados registrou o maior índice em dezembro: 9,56%. Em seguida vêm Óticas (8,52%) e Móveis & Eletrodomésticos (7,07%). “O padrão reforça que categorias ligadas a compras recorrentes ou por impulso tendem a concentrar mais atrasos do que bens duráveis”, observa o executivo. Para ele, o cenário exige “políticas de crédito e cobrança mais segmentadas”.

A análise por faixa etária mostra que a inadimplência é significativamente maior entre os mais jovens: 15,77% no grupo de 18 a 25 anos e 11,88% entre 26 e 35 anos. A partir daí, os índices recuam para 8,47% (36 a 50 anos), 5,67% (51 a 65) e 5,55% acima de 66 anos. “O dado reforça a maior vulnerabilidade dos jovens ao crédito parcelado, menor reserva financeira e maior exposição às oscilações econômicas”, aponta o Meu Crediário.

Há também diferença relevante por gênero: em dezembro, a inadimplência entre homens foi de 10,43%, ante 8,01% entre mulheres. “O comportamento se manteve consistente ao longo do ano, indicando perfis distintos de consumo, acesso ao crédito e disciplina financeira”, aponta o levantamento. Para 2026, a empresa defende que o crédito “precisa ser mais dinâmico, preditivo e responsável”.

ENDIVIDAMENTO EM NÍVEL RECORDE

Outro estudo, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), também indica avanço da inadimplência. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o nível de endividamento em dezembro, de 78,9%, foi o maior para o mês desde o início da série histórica, em 2010. Em relação a dezembro de 2024, houve alta de 2,3 pontos percentuais, embora o índice tenha sido o menor desde julho.

“A curva de endividamento acompanhando a alta da taxa Selic é mais um indício de que precisamos reduzir os juros de maneira responsável”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros. Segundo ele, a economia brasileira “mostra sinais de consistência, fechando 2025 com inflação, câmbio e emprego melhores do que o esperado”. Esse resultado, porém, “depende diretamente de um ambiente mais favorável à livre iniciativa, considerando a instabilidade global pela qual passamos”.

Para a CNC, a redução da inadimplência no fim do ano está ligada a maior planejamento dos consumidores e a fatores sazonais, como o pagamento do 13º salário. O mercado de crédito teria ficado mais “seletivo” ao longo de 2025, em razão da Selic elevada e do próprio aumento da inadimplência, o que encurtou os prazos das dívidas. “Em dezembro, o prazo médio de pagamento foi de 7,1 meses, contra 7,4 meses no mesmo período de 2024”, informa a entidade.

A expectativa é de que a tendência de queda prossiga no primeiro trimestre deste ano. “Esperamos que, ainda no primeiro semestre, o BC entenda a necessidade de trabalhar com uma taxa Selic mais razoável”, afirma o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes. “O último trimestre foi de bons resultados, mas há risco iminente no ciclo de endividamento”, especialmente no crédito via cartão, que ele define como “uma bola de neve das dívidas”.