Por Waine Peron, sócio-líder de impostos da EY Brasil
Mais do que uma ruptura em regras e fundamentos, a reforma tributária exige uma profunda revisão de processos e de mentalidade dentro das empresas. Seu objetivo declarado é simplificar o sistema, reduzir distorções, aumentar a transparência e dar mais segurança jurídica a companhias e investidores. Na prática, porém, essa “simplificação” traz uma nova camada de complexidade que pressiona rotinas, sistemas, cadeias de suprimentos e estratégias de negócio.
Na linha de frente com as empresas, o que se observa é um cenário bastante heterogêneo: organizações em estágios muito diferentes de maturidade e muitas que ainda não deram início a ações estruturadas de adaptação. Para dimensionar esse quadro, a EY realizou uma pesquisa com 170 participantes do Indirect Tax Academy (ITA) – profissionais que lidam diretamente com temas tributários em suas companhias.
Os dados, organizados em três dimensões de análise (Negócios, Projeções Financeiras e Sistêmica), oferecem uma leitura ampla e representativa do mercado. O diagnóstico é claro: embora haja consciência sobre a relevância e o impacto da reforma, a maturidade empresarial ainda é baixa em vários pontos críticos de implementação, sobretudo em projeções financeiras e revisão de contratos.
Mais do que um levantamento estatístico, o estudo funciona como um alerta estratégico. A reforma tributária não será apenas uma mudança de legislação; tende a marcar um ponto de virada na forma como as empresas operam, se relacionam com seus stakeholders e tomam decisões. Quem não se preparar com antecedência e profundidade corre o risco de perder competitividade em um ambiente que deve ficar mais transparente – e, portanto, mais implacável com ineficiências.
A pesquisa mostra uma média geral de maturidade de 1,6 nas três dimensões analisadas, em uma escala de 1 (não iniciado) a 5 (concluído). Ou seja, o tema já está na agenda, mas a execução ainda engatinha.
Na dimensão de Negócios, as médias vão de 1,47 a 1,83, revelando o ponto mais frágil da preparação. O dado mais crítico é o redesenho dos footprints logísticos (1,47), sinal de que o olhar tributário ainda não está devidamente incorporado às decisões estratégicas de cadeia de suprimentos – o que é especialmente sensível num cenário de fim gradual dos incentivos fiscais regionais.
Outro fator de risco é a revisão de contratos com clientes e fornecedores (1,57), ainda pouco explorada apesar de ser essencial para ajustar margens, preços e responsabilidades fiscais no novo modelo. Em contraponto, a preparação da função fiscal (1,77) aparece relativamente mais avançada, refletindo o esforço das áreas de tax em se antecipar às demandas operacionais da transição.
Nas Projeções Financeiras, as médias variam entre 1,37 e 1,63, indicando um uso ainda tímido de dados para modelagem, simulações e planejamento. A definição de preços no pós-reforma (1,37) é o item menos maduro de todo o estudo, o que acende um sinal amarelo para decisões de precificação, margens e posicionamento competitivo. A modelagem tributária (entre 1,50 e 1,63) e a revisão de créditos fiscais (1,50) também estão em fase inicial, abrindo um flanco direto de risco para o fluxo de caixa e para a monetização de ativos fiscais – a exemplo de créditos acumulados de ICMS e PIS/COFINS.
Na dimensão Sistêmica surgem os melhores índices. O mapeamento das operações sujeitas aos novos tributos (1,87) e a adequação aos requisitos da NF-e (1,83) mostram que as empresas tendem a priorizar a conformidade técnica, muitas vezes puxadas por fornecedores de ERP e por novas obrigações acessórias.
Ainda assim, há pontos sensíveis. O saneamento de cadastros (1,33) continua atrasado, embora seja um requisito básico para garantir integridade de dados e consistência das apurações fiscais. Já o plano de transição sistêmica (1,70) ainda carece de maior detalhamento e governança. Sem dados limpos, estruturas bem desenhadas e cronogramas realistas, a virada de chave pode resultar em falhas de compliance, retrabalho e custos operacionais desnecessários justamente no momento em que o novo modelo começar a valer.














