Nexperia China avança na produção independente de chips

Nexperia China avança na produção independente de chips


A Nexperia China, subsidiária chinesa da fabricante de semicondutores Nexperia, anunciou recentemente o início da produção independente de seus próprios chips, marcando um avanço significativo rumo à autonomia em relação à controladora holandesa. O anúncio, feito em 9 de março de 2026 por meio de uma postagem em rede social chinesa, destaca o uso de wafers de 12 polegadas (cerca de 300 mm) para fabricar componentes como dispositivos bipolares discretos, retificadores Schottky e dispositivos de proteção contra descarga eletrostática (ESD) — todos produtos também fabricados pela Nexperia na Europa, mas com limitações técnicas no Velho Continente.

Essa capacidade representa um marco porque a Nexperia europeia não possui instalações para processar wafers de 12 polegadas em escala, dependendo historicamente de processos em wafers menores (como 8 polegadas) em suas fábricas nos Países Baixos. A subsidiária chinesa descreveu o avanço como um passo para fortalecer suas “capacidades independentes de P&D e produção em massa”, em meio a uma disputa corporativa e geopolítica que já dura meses.

Contexto da disputa e intervenção holandesa

A crise teve início em 2025, quando o governo holandês interveio de forma excepcional na Nexperia, empresa sediada em Nijmegen (Holanda) e controlada desde 2019 pela chinesa Wingtech Technology. Em setembro/outubro de 2025, as autoridades holandesas invocaram a Lei de Disponibilidade de Bens (uma norma rara, de origem da era da Guerra Fria) para assumir controle temporário da companhia, alegando “falhas graves de governança” e riscos à disponibilidade de semicondutores essenciais para a Europa.

O temor principal era a possível transferência de ativos, pessoal, propriedade intelectual e operações para a China, sob influência do fundador da Wingtech e ex-CEO da Nexperia, Zhang Xuezheng. Medidas incluíram suspensão de Zhang do cargo, transferência de direitos de voto para um administrador nomeado pelo Estado e proibição de decisões estratégicas sem aprovação ministerial. Isso visava proteger o know-how europeu em semicondutores “legados” (mature nodes), vitais para a indústria automotiva.

Em resposta, Pequim impôs controles de exportação sobre componentes finalizados da Nexperia produzidos na China (onde fica cerca de 80% da capacidade de embalagem e testes da empresa). A interrupção de remessas causou escassez global de chips, afetando montadoras como Honda (que paralisou temporariamente linhas no Japão e na China) e gerando alertas de outras fabricantes automotivas.

Embora haja alívio parcial em novembro de 2025 (com suspensão de algumas medidas holandesas e reabertura chinesa de exportações), o conflito persiste: a Nexperia holandesa interrompeu envios de wafers para a China alegando inadimplência, enquanto a subsidiária chinesa alega bloqueios de sistemas corporativos (como SAP e Microsoft 365) por parte da matriz europeia. Tribunais holandeses mantiveram suspensões e ordenaram investigações sobre má gestão, aprofundando a cisão de fato entre as operações.

Impactos e perspectivas

A produção autônoma na China reduz a dependência de wafers europeus e pode estabilizar o fornecimento para clientes locais e globais atendidos pela unidade asiática. No entanto, agrava a divisão da empresa, que opera como duas entidades paralelas: uma europeia focada em manter expertise e cadeia não chinesa, e outra chinesa construindo suprimentos locais (possivelmente com wafers de fábricas como a WingSkySemi, ligada ao fundador da Wingtech).

O episódio ilustra as tensões crescentes no setor de semicondutores entre Ocidente e China, envolvendo segurança nacional, cadeias de suprimento críticas e rivalidade tecnológica. A indústria automotiva, que depende desses componentes discretos para sistemas eletrônicos de veículos, segue monitorando o caso de perto, pois novas escaladas podem gerar outra crise de abastecimento global.

Até o momento, a Nexperia europeia não comentou oficialmente o anúncio da subsidiária chinesa, e negociações para uma solução de curto prazo parecem estagnadas. O desenrolar pode redefinir como empresas globais gerenciam operações em meio a restrições geopolíticas.