Para a Anfape, acordo entre Mercosul e União Europeia trará desafios e oportunidades para o mercado de reposição

Desafios e Oportunidades do Acordo Mercosul

A Associação Nacional dos Fabricantes e Comercializadores de Autopeças para o Mercado de Reposição (ANFAPE) celebra a aprovação do acordo Mercosul–União Europeia, visto pela entidade como um passo estratégico para o fortalecimento da indústria nacional. Após 26 anos de negociações, o tratado consolida um compromisso histórico de integração entre dois dos maiores blocos econômicos do mundo, que juntos reúnem cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.

Para o vice-presidente da ANFAPE, Márcio Codogno, o acordo tende a gerar efeitos relevantes sobre os fluxos de investimento entre os dois lados, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e facilitar o comércio. O resultado, avalia, deve ser um ambiente de negócios mais favorável para a indústria brasileira como um todo.

No caso específico do setor de autopeças, Codogno não vê mudanças imediatas, mas destaca que o acordo cria um novo horizonte de mercado, que exigirá decisões antecipadas de investimento e posicionamento estratégico. “O eixo central do acordo é a redução das tarifas de importação, que hoje variam entre 14% e 18% para autopeças. Mas essa redução só deve ocorrer, para o nosso segmento, ao longo de 10 a 15 anos. Nesse período, muitas transformações vão ocorrer, com impactos diretos nas decisões de investimento de cada empresa. A exceção deve ser apenas para peças específicas sem similar nacional, que poderão ter redução imediata de tarifas”, projeta.

Os dados do comércio bilateral ajudam a dimensionar o potencial da parceria. A União Europeia é hoje o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, a corrente de comércio entre Brasil e UE atingiu US$ 100,1 bilhões, recorde histórico e alta de 4,8% em relação ao ano anterior. No mesmo período, cerca de 8,7 mil empresas brasileiras – aproximadamente 30% do total de exportadores do país – venderam para o mercado europeu, empregando mais de 3 milhões de pessoas.

INTEGRAÇÃO NA CADEIA AUTOMOTIVA

Segundo Codogno, a tendência geral para a indústria automobilística é uma maior integração das cadeias produtivas, com queda do custo de importação tanto de veículos quanto de componentes e uma linha de automóveis cada vez mais similar entre os dois mercados. “Vamos ver diversos casos de importação direta de carros europeus. Para o mercado de reposição, isso deve significar maior acesso a peças originais a preços mais competitivos, que podem passar a ser importadas com mais frequência”, afirma.

Ele pondera, porém, que o efeito sobre o aftermarket tem limites. “O impacto será mais visível nas peças originais. A importação de produtos especificamente para o mercado de reposição ainda é relativamente pequena, até porque hoje a Europa produz pouco material voltado a esse segmento”, explica.

Codogno prevê, em paralelo à maior oferta de componentes originais, três movimentos relevantes para o setor. “Primeiro, um endurecimento no combate à pirataria, o que é muito positivo. Segundo, um reforço na proteção da propriedade intelectual – tanto de design, em alguns casos, quanto de funcionalidades –, já que muitas das peças que chegarão ao país contam com proteção intelectual e o acordo prevê mecanismos de controle mais rígidos. Terceiro, um fortalecimento da logística reversa, impulsionado por cláusulas ambientais presentes no tratado.”

PADRÃO EUROPEU E TECNOLOGIA EMBARCADA

Além desses pontos, o vice-presidente da ANFAPE antevê uma tendência de padronização de qualidade. “É bem provável que tenhamos uma normalização das peças de aftermarket com base em regras europeias, para facilitar tanto a exportação quanto o uso desses componentes nos veículos que circularão no Brasil dentro desse padrão. Isso muda completamente a lógica do nosso mercado de reposição, historicamente acostumado a trabalhar com peças em diferentes níveis tecnológicos e em momentos distintos de adoção”, argumenta.

Ele cita como exemplo para-choques com sensores integrados e retrovisores com sistemas fotocrômicos, sensores de aproximação e iluminação em LED. “Não sei se o aftermarket nacional já oferece esses componentes de forma ampla. Os veículos que chegarão ao país vão pressionar as indústrias locais a entrar nesse segmento. Ao mesmo tempo, será possível importar diretamente da Europa peças e materiais mais tecnológicos, com custo menor, mesmo existindo a alternativa da China, que tende a ser mais barata, mas tem particularidades próprias”, observa.

Na avaliação de Codogno, a indústria brasileira terá de atravessar um ciclo de adaptação de cerca de uma década para alcançar um novo patamar tecnológico e atender ao perfil da frota que vai dominar as ruas. “Esse movimento já começou com a chegada dos automóveis chineses, que trazem muita tecnologia embarcada. Com o acordo Mercosul–União Europeia, a tendência é que veículos europeus também cheguem com redução ou até eliminação do custo de importação. Isso significa uma ampliação da oferta de carros com alta tecnologia, principalmente em itens visuais e de acabamento externo, como para-choques, faróis, lanternas, retrovisores e maçanetas. Esse cenário representa um desafio relevante para toda a cadeia de reposição”, analisa.

OPORTUNIDADE E RISCO PARA O AFTERMARKET

Diante desse contexto, Codogno avalia que fabricantes e distribuidores de autopeças que conseguirem se reorganizar e migrar para esse novo universo tecnológico terão um mercado robusto a explorar. “Quem não conseguir fazer essa transição, muito provavelmente enfrentará grandes dificuldades. Em síntese, esse é o conjunto principal de impactos esperados para o nosso mercado a partir da implementação do acordo”, conclui o vice-presidente da ANFAPE.