Uma nova pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, mostra uma transformação acelerada no sistema de pagamentos do país. O estudo, que ouviu internautas nas 27 capitais, define o momento atual como a era da “agilidade com medo”: o PIX impulsiona uma digitalização em alta velocidade, mas o consumidor ainda se apoia em meios tradicionais em busca de segurança financeira.
O PIX se consolidou como protagonista absoluto: 80% dos consumidores o utilizam como principal meio de pagamento no dia a dia, com forte expansão em todos os canais de consumo.
Nas lojas físicas, o PIX já é o método preferido de 41% dos consumidores, alta de 8 pontos percentuais em relação a 2025. No e-commerce, o avanço é ainda maior: 55% priorizam o PIX nas compras online, também 8 pontos acima do ano anterior. Nas contas de consumo — água, luz, telefone e internet — o meio instantâneo mostra sua maior força: 66% usam PIX para esse tipo de pagamento, um crescimento de 14 pontos em comparação com 2025.
Velocidade e praticidade são os principais motores dessa adoção (69%). Mas o sistema já avança para funcionalidades mais complexas, como o PIX parcelado, utilizado por 38% dos usuários, e o agendamento de contas (36%), entrando em uma zona que historicamente pertenceu ao cartão de crédito.
Bancarização: contas digitais ganham espaço
O Brasil exibe um nível elevado de bancarização: 97% dos entrevistados possuem conta bancária. O modelo híbrido — conta física e digital — é maioria (55%). Mas as contas exclusivamente digitais (23%) já superam as exclusivamente físicas (20%), movimento puxado sobretudo pelo público jovem.
Apesar desse avanço, a digitalização total ainda encontra barreiras práticas e psicológicas. Na escolha do meio de pagamento, o fator número um é a segurança e o medo de golpes (43%), à frente da busca por rapidez e conveniência (34%).
O resultado é um consumidor pragmático: 92% mantêm recursos de pagamento físicos para garantir autonomia financeira. Em caso de falhas tecnológicas, como falta de bateria ou problemas de conexão, estão preparados para recorrer ao cartão (68%) ou ao dinheiro em espécie (24%).
“Embora o PIX tenha atropelado métodos tradicionais e a digitalização avance a passos largos — com contas digitais já superando as físicas entre os jovens — existe um teto de vidro imposto pela segurança e pela infraestrutura. Mesmo entusiasmado com a inovação, o consumidor mantém um pé no conservadorismo por necessidade de autonomia financeira: ele quer a velocidade do digital, mas não sai de casa sem a garantia do físico caso a bateria do celular acabe ou a conectividade falhe”, afirma o presidente da CNDL, José César da Costa.
Medo de golpes trava o avanço total dos pagamentos digitais
O levantamento mostra um consumidor desconfiado, especialmente em relação a tecnologias como o pagamento por aproximação. Ao todo, 68% dos entrevistados dizem temer golpes, embora a incidência real de fraudes seja de apenas 7%.
Para o futuro, os brasileiros projetam a continuidade da dominância do PIX (36%) e o fortalecimento de meios digitais como biometria e pagamentos via relógio (26%). Quase metade dos entrevistados (46%) aceitaria o uso de reconhecimento facial em estabelecimentos comerciais para ganhar tempo no checkout.
QR Code: alta adesão, mas ainda com desconfiança
O pagamento por QR Code também se consolidou. Hoje, 86% dos consumidores já utilizaram a tecnologia para pagar alguma compra ou conta. A principal razão é a rapidez (54%), seguida da redução de erros — 44% afirmam usar o QR Code para evitar a digitação manual de chaves — e da ampla aceitação no varejo (38%).
O crescimento, porém, esbarra na confiança: 26% dos usuários ainda se sentem pouco seguros ao utilizar QR Code. Há um empate entre quem aponta dificuldade técnica de uso (24%) e quem teme clonagem ou roubo de dados (24%), sinal de que, para uma parte da população, a interface continua pouco intuitiva ou vista como vulnerável.
Entre os que ainda não utilizam a modalidade, a barreira é sobretudo informacional: 47% dizem precisar de mais explicações sobre o funcionamento. Garantias de segurança (37%) e maior aceitação no comércio (26%) aparecem como fatores decisivos para ampliar a adesão.
“O QR Code se estabeleceu como a ‘ponte visual’ do PIX, ganhando o varejo pela eficiência em eliminar o atrito da digitação. Do ponto de vista econômico, reduz erros operacionais. No entanto, os dados revelam um gargalo de aprendizado: enquanto a maioria já usa, os resistentes não o fazem por falta de clareza ou por receio de segurança digital. O fato de quase metade dos não-usuários pedir ‘mais informação’ indica que o mercado ainda falha em comunicar as camadas de proteção do código. É uma ferramenta de alta penetração, mas que ainda carrega o estigma de ser ‘tecnológica demais’ ou menos segura para o consumidor mais conservador”, avalia Costa.
Pagamento por aproximação: conveniência em alta, confiança em disputa
O pagamento por aproximação também ganha tração: 81% dos usuários de cartões ou carteiras digitais já utilizam a tecnologia. O cartão físico ainda lidera (73%), mas o celular já é usado por quase metade dos entrevistados (48%), consolidando o espaço das carteiras digitais. Na frequência, 37% usam pagamento por aproximação “sempre”, enquanto 45% recorrem ao recurso “às vezes”.
As razões para o uso são claras: rapidez e praticidade (64%) e a vantagem de não precisar digitar senha (41%). Segurança, por outro lado, é citada como motivo por apenas 19% dos usuários, o que mostra que a conveniência ainda fala mais alto.
Entre os que resistem à tecnologia, o principal obstáculo é a falta de confiança (47%), seguida pelo medo de clonagem (28%). Há um descompasso evidente entre percepção e realidade: 68% têm medo de golpes, embora 89% nunca tenham sido vítimas de qualquer fraude. A taxa real de vítimas é de apenas 7%. Questões técnicas também aparecem: 27% dos não-usuários afirmam que a função de aproximação não está habilitada em seus cartões.

















