UE e Mercosul avançam rumo ao maior acordo comercial do mundo após aprovação histórica em Bruxelas

UE e Mercosul avançam rumo ao maior acordo comercial do mundo após aprovação histórica em Bruxelas


Após mais de 25 anos de negociações intensas e reviravoltas, a União Europeia (UE) deu, nesta sexta-feira (9), um passo decisivo para concretizar o acordo comercial com o Mercosul. Os embaixadores dos 27 países-membros aprovaram por maioria qualificada (21 votos a favor, com oposição de França, Irlanda, Polônia, Áustria e Hungria, além de abstenção da Bélgica) o aval para assinatura do tratado, abrindo caminho para a criação da maior zona de livre comércio do planeta, abrangendo cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, celebrou a decisão como “histórica” e um “sinal forte” da capacidade de ação da Europa em um cenário global desafiador. “Estamos empenhados em criar crescimento, empregos e em proteger os interesses de consumidores e empresas europeias”, declarou von der Leyen em sua conta na rede social X.

A aprovação provisória permite que a líder europeia viaje ao Paraguai — país que atualmente ocupa a presidência pro tempore do Mercosul — para a assinatura formal do acordo, prevista inicialmente para a próxima segunda-feira (12), mas que pode ocorrer até o dia 17, segundo fontes argentinas e paraguaias.

O que vem depois da assinatura?

Apesar do avanço importante, o acordo ainda não entra em vigor imediatamente. Após a assinatura em Assunção, o texto seguirá para duas grandes etapas de ratificação:

No lado europeu: aprovação pelo Parlamento Europeu (que deve ocorrer por maioria simples, provavelmente entre abril e maio de 2026) e ratificação pelos parlamentos nacionais dos 27 países-membros (para as partes políticas e de associação). No Mercosul: aprovação pelos Congressos Nacionais do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Partes do acordo, especialmente as relacionadas à redução de tarifas, podem ser aplicadas de forma provisória ainda em 2026, caso haja consenso entre as partes — uma prática comum em acordos comerciais da UE.

O pacto prevê a eliminação gradual de tarifas em cerca de 91% das exportações em um período de até 15 anos. Para a UE, isso significa zerar impostos altos cobrados pelo Mercosul em produtos como peças automotivas (até 35%), laticínios (28%) e vinhos (27%). Para o bloco sul-americano, especialmente o Brasil, o acordo amplia o acesso preferencial ao mercado europeu de 451 milhões de consumidores, beneficiando fortemente o agronegócio, mas também setores industriais.

O tratado foi concluído politicamente em dezembro de 2024, mas enfrentou forte resistência de agricultores europeus — principalmente na França, onde produtores protestaram intensamente nos últimos dias com tratores bloqueando vias em Paris. Para tentar acalmar as críticas, foram incluídas salvaguardas reforçadas, cotas de importação para produtos sensíveis (como carne bovina, frango e açúcar) e cláusulas ambientais mais rigorosas.Mesmo assim, França (liderada por Emmanuel Macron), Irlanda e outros países mantiveram posição contrária, alegando risco de concorrência desleal e impacto ambiental. A mudança de posição da Itália nos últimos dias foi decisiva para garantir a maioria necessária.

Para o Brasil, o acordo é estratégico: a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do país (atrás apenas da China). Em 2025, as exportações brasileiras para o bloco europeu somaram cerca de US$ 49,8 bilhões. Especialistas estimam que o tratado pode adicionar até US$ 7–10 bilhões anuais às exportações brasileiras.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou, durante a presidência brasileira do Mercosul em 2025, a importância de avançar em compromissos de sustentabilidade para facilitar a ratificação.

O acordo UE-Mercosul surge em um momento de tensões comerciais globais, especialmente com as políticas protecionistas dos Estados Unidos sob Donald Trump, e representa uma aposta clara dos dois blocos em regras multilaterais e diversificação de mercados.