Rotatividade de funcionários e baixa qualificação dificultam a contratação nas empresas

Rotatividade de Funcionários e Baixa Qualificação: Como Esses Desafios Prejudicam a Contratação nas Empresas

Um mês atrás, a BRN Construtora anunciou a abertura de cerca de 100 vagas em nove cidades do interior paulista, entre os 47 municípios onde mantém operações. Desde então, pelo menos 40% dessas posições “já foram preenchidas ou estão em fase final de contratação”, afirma o diretor jurídico e institucional da empresa, Evandro Nobre Cruz. Ele explica que o ritmo de contratação costuma ser considerado adequado, com prazo médio de 30 a 60 dias, dependendo do nível de complexidade e do perfil da função. Ainda assim, a incorporadora enfrenta dificuldade para atrair o que considera mão de obra adequada, “principalmente pela baixa disponibilidade de profissionais dispostos a atuar em obras”. O desafio é maior em cargos estratégicos. “Observamos um gargalo mais acentuado na contratação de posições de liderança, como engenheiros, gerentes e coordenadores”, relata.

A dificuldade para preencher vagas não é exclusiva da construção civil. Em vários setores, empresas relatam desafios semelhantes – não necessariamente por falta de candidatos. “Mantemos um banco consistente de currículos por meio da plataforma Gupy, o que normalmente garante boa disponibilidade de candidatos”, conta Cruz. “No entanto, a qualificação e a aderência aos requisitos específicos das vagas impactam a efetiva ocupação das posições.”

No caso da construção, a percepção é confirmada por dados. Em fevereiro, 41,6% dos empresários ouvidos pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) apontaram a escassez de mão de obra qualificada como fator que limita a melhoria dos negócios. É o maior percentual para um mês de fevereiro desde 2011 e, desde maio de 2024, esse tem sido o item mais citado na pesquisa.

No setor industrial, o quadro é semelhante, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A falta de trabalhadores qualificados cresceu de forma quase contínua após a pandemia. Entre 2015, início da série da Sondagem Industrial, e 2020, esse fator aparecia em apenas 5% das respostas. Em 2023, atingiu 23,3% no segundo trimestre, recorde histórico. Entre os principais problemas citados pelos empresários, fica em quarto lugar, atrás da carga tributária, dos juros e da demanda interna. Entre as pequenas indústrias, sobe para a segunda posição, com 28,4% das menções.

“Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade”, afirma o diretor de Economia da CNI, Mario Sergio Telles. “Isso compromete tanto a busca por eficiência quanto a redução de desperdícios.” Ele aponta ainda um entrave adicional no esforço de capacitação: “As lacunas na formação educacional dificultam o aprendizado e desestimulam os trabalhadores”.

EDUCAÇÃO – A CNI atribui parte do problema à “baixa qualidade da educação básica”, que gera deficiências de formação, reduz o interesse dos trabalhadores em buscar qualificação e dificulta o processo de aprendizagem. Ao mesmo tempo, as transformações tecnológicas e organizacionais exigem requalificação contínua.

O Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pela confederação, estima que será necessário qualificar 14 milhões de trabalhadores, somando formação inicial (2,3 milhões) e ações de treinamento e desenvolvimento (11,8 milhões). Só em São Paulo, são 4,3 milhões de profissionais. “O principal objetivo das capacitações é alinhar as competências dos profissionais recém-contratados às demandas das empresas”, aponta o estudo.

Na indústria automotiva, a ampliação de capacidade também pressiona o mercado de trabalho. A BYD Auto do Brasil anunciou na última quinta-feira (12) a contratação de mais 3 mil trabalhadores para a fábrica de Camaçari (BA), praticamente dobrando o efetivo próprio – hoje são 3,2 mil funcionários, além de 3,5 mil terceirizados envolvidos nas obras do complexo, inaugurado em outubro de 2025. Para a vice-presidente executiva global da BYD e CEO para Américas e Europa, Stella Li, a medida evidencia o compromisso da companhia com o desenvolvimento econômico local, “com a geração de empregos qualificados e com a aceleração da mobilidade elétrica em toda a região”. A planta ocupa o espaço antes utilizado por uma fábrica da Ford, que encerrou as operações no Brasil em 2021.

ROTATIVIDADE EM ALTA – No comércio varejista, o desafio não é apenas contratar, mas reter. O Sindicato do Comércio Varejista de São Paulo (Sindilojas SP) destaca que, em 2025, a taxa de rotatividade no setor atingiu 60,3% na capital, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, na série iniciada em 2020. Na prática, isso significa que mais da metade dos vínculos formais foi renovada ao longo do ano. O sindicato classifica o índice como “ritmo particularmente intenso de admissões e desligamentos” e ressalta que o nível atual é quase 60% superior ao observado no início da série.

O movimento, porém, não é uniforme. Levantamento do Sindilojas SP mostra que atividades específicas registram taxas muito superiores à média. O varejo de artigos usados e as lojas de conveniência, por exemplo, superam os 90% de rotatividade. No comércio de bebidas, o índice fica em torno de 85%. Lojas de variedades e de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal giram em torno de 80%. A análise considerou 75 subsetores, que, juntos, somam 611 mil postos de trabalho.

Setores com maior intensidade de mão de obra também aparecem com índices elevados. Minimercados, mercearias e armazéns têm rotatividade de 77,8%. O segmento de vestuário e acessórios registra 71,8%. Somados, esses dois ramos concentram quase 100 mil vagas formais, o que amplia os impactos operacionais e econômicos associados ao alto turnover.

MOBILIDADE – Segundo o Sindilojas SP, períodos de maior oferta de vagas estimulam a mobilidade dos trabalhadores. Com mais oportunidades disponíveis, cresce a disposição para trocar de emprego em busca de melhores salários, benefícios e condições de jornada, o que eleva o número de desligamentos voluntários. Esse comportamento é especialmente visível em setores intensivos em mão de obra, como o varejo.

A entidade também chama atenção para características estruturais do comércio, como a elevada proporção de funções operacionais, a forte presença de trabalhadores em início de carreira, a sazonalidade das vendas e a maior incidência de jornadas flexíveis. Mesmo levando isso em conta, o patamar de 2025 é considerado elevado.

“O varejo é um dos maiores empregadores urbanos e naturalmente apresenta maior dinamismo na movimentação de mão de obra”, afirma o presidente do Sindilojas SP, Aldo Nuñez Macri. “Entretanto, quando a rotatividade atinge patamares excessivos, os efeitos deixam de ser apenas estatísticos e passam a gerar impactos concretos sobre custos, produtividade e qualidade do serviço prestado ao consumidor.” Para o sindicato, algum nível de rotatividade é “compatível com mercados de trabalho dinâmicos”, mas índices persistentemente altos tendem a gerar ineficiências, aumentar a incerteza e reduzir a competitividade do setor.

TRANSPORTE RODOVIÁRIO – A falta de profissionais também afeta diretamente a logística. Pesquisa da NTC&Logística mostra que 88% das transportadoras consultadas relataram dificuldades para contratar motoristas em 2025. A consequência média foi de oito caminhões parados por empresa, por falta de condutores. O problema aparece como o segundo maior gargalo do setor, com 28,1% das citações, atrás apenas da piora do mercado interno (40,7%).

Em 24 meses, o custo com mão de obra no transporte rodoviário de cargas aumentou 13,42%. Nos 12 meses até janeiro deste ano, a alta foi de 7%. Segundo a NTC&Logística, o gasto com motoristas representa 19,5% do custo operacional do segmento.

NOVAS VAGAS – Apesar dos gargalos, a oferta de oportunidades segue em expansão em diversos segmentos. No início de fevereiro, a rede Supermercados Guanabara abriu 270 vagas no Rio de Janeiro, distribuídas entre a capital, a Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo. Parte das posições não exigia experiência prévia. Na maioria dos casos, o requisito era ensino fundamental completo, e em alguns, ensino médio. As vagas incluíam funções como operador de caixa, operador de câmara fria, repositor, fiscal de salão, estoquista, pedreiro, eletricista, bombeiro hidráulico e mecânico de refrigeração, com inclusão de pessoas com deficiência. A empresa não divulgou balanço sobre a procura e o preenchimento das vagas.

A Burger King também abriu recentemente um pacote de contratações: 300 vagas de atendente no município de São Paulo, para candidatos a partir de 18 anos, com ensino médio completo ou em andamento, sem exigência de experiência. A rede organizou um mutirão de recrutamento no Shopping Metrô Tatuapé, na zona leste, e ofereceu uma cesta básica no primeiro dia de trabalho a todos os aprovados. A empresa diz que pretende manter essa estratégia. Na última quinta-feira (12), promoveu outro mutirão, desta vez com 100 vagas de atendente de restaurante, novamente na zona leste, em unidade na avenida Marechal Tito. O processo é apresentado como “admissão expressa”, com exame admissional e entrega de documentos realizados no próprio local.

Na cadeia de biocombustíveis, a Atvos prorrogou até o próximo domingo (15) o prazo de inscrição para mais de 700 vagas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, voltadas à safra 2026/2027. São postos em oito unidades agroindustriais de São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, para funções como motorista, auxiliar agrícola, operador de máquina agrícola e mecânico. As oportunidades contemplam diferentes perfis e níveis de experiência, com prioridade para candidatos das próprias regiões. Os requisitos básicos são ter 18 anos ou mais e ensino fundamental completo. A companhia, que atua em 23 municípios, emprega atualmente cerca de 11 mil pessoas.

No município de São Paulo, a prefeitura, por meio do Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (Cate), anunciou a abertura de mais de 2,2 mil vagas. As oportunidades abrangem setores como comércio, serviços, construção civil e saúde, com salários que vão de R$ 700 (para estágio em auxiliar administrativo) a R$ 4,6 mil. Os interessados podem se cadastrar no portal até quarta-feira (11) ou comparecer a uma unidade do Cate, munidos de RG, CPF e carteira de trabalho, física ou digital. Ao todo, são 140 vagas na área de gastronomia, 20 para motoristas e 114 na construção civil, distribuídas por todas as regiões da cidade, em funções como ajudante de obra, pedreiro, armador de ferro e eletricista.