O mercado automotivo brasileiro vive um momento de contrastes. A preferência pelos veículos com motor a combustão interna voltou a ganhar força, enquanto o interesse por elétricos a bateria (BEV) permanece estável. Segundo o Índice de Mobilidade do Consumidor (MCI), elaborado pela EY, 49% dos consumidores brasileiros hoje preferem modelos a combustão, enquanto a fatia dos que optariam por um elétrico puro segue em 9%.
Apesar da estagnação no interesse declarado, as vendas de elétricos vêm subindo em ritmo forte. Até 2025, o segmento de BEVs acumula alta de 33,7%, alcançando 4% de participação de mercado, fortemente impulsionado pelas marcas chinesas. Ao mesmo tempo, o cenário global tem pesado nas decisões de compra: 39% dos consumidores dizem estar adiando ou reavaliando a aquisição de um elétrico em função de gargalos logísticos e tarifas ligadas a tensões geopolíticas. Outros 46% mantiveram seus planos inalterados, enquanto 11% desistiram da ideia. Nesse contexto, os híbridos seguem em leve ascensão e já somam 18% de interesse, um ponto percentual acima do ano anterior.
“Apesar das incertezas, os principais motivadores para a adoção dos elétricos continuam claros. O aumento do custo dos combustíveis convencionais lidera como fator determinante, citado por 38% dos entrevistados, seguido das preocupações ambientais, também com 38%. Outros aspectos relevantes incluem maior autonomia (30%), menor custo total de propriedade (29%), melhor desempenho em relação aos veículos a combustão (28%), facilidade de manutenção (25%), incentivos financeiros (20%) e a ampliação da oferta de modelos (16%)”, explica Marcelo Frateschi, sócio-líder para o setor automotivo da EY no Brasil.
Do outro lado, as barreiras ainda são significativas. A infraestrutura de recarga, tanto pública quanto residencial, segue como principal entrave. Entre os consumidores que não pretendem adquirir um veículo elétrico, 36% mencionam a falta de estrutura em casa ou no trabalho, 33% apontam a ausência de estações públicas e 28% destacam preocupações com a substituição da bateria; outros 28% citam o custo inicial de compra. Além disso, 27% questionam a qualidade e a interoperabilidade dos carregadores públicos, 21% acreditam que os elétricos são mais caros de reparar e 17% mencionam dúvidas sobre autonomia e custo de carregamento.
Intenção de compra
A disposição para comprar um carro recuou na maior parte das regiões em comparação com o ano anterior, refletindo as condições de mercado e uma postura mais cautelosa do consumidor. Nas Américas, 58% dos entrevistados afirmam estar extremamente ou razoavelmente propensos a adquirir um veículo, queda de 3 pontos percentuais frente ao levantamento anterior.
“No Brasil, embora o índice siga acima da média regional, também houve retração. Atualmente, 68% dos consumidores manifestam intenção de compra, 4 pontos percentuais abaixo de 2024. Em relação ao momento planejado para a aquisição, 64% pretendem comprar um carro nos próximos 12 meses, enquanto 38% indicam um horizonte entre 13 e 24 meses”, complementa Marcelo.
Quando se observa a preferência pela origem das marcas, o estudo identifica uma mudança relevante no mercado brasileiro. As marcas europeias ampliaram seu apelo em todas as motorizações — combustão interna (gasolina/diesel), híbridos (completos ou leves) e elétricos a bateria — e hoje 76% dos brasileiros demonstram preferência por fabricantes da Europa, consolidando a liderança nesse quesito. As marcas chinesas também ganharam espaço, alcançando 24% de preferência. As montadoras dos Estados Unidos registram 62%, enquanto as da região Ásia-Pacífico (excluindo China) somam 59%.
Canais de compra
As concessionárias continuam como principal canal de compra, mas perdem terreno. Hoje, 36% dos consumidores preferem concluir a negociação presencialmente em showrooms. Em paralelo, os canais online avançam e já respondem por 28% das preferências. Além disso, cerca de 36% dos entrevistados demonstram interesse em um modelo híbrido de jornada, que combine experiências digitais e físicas.
O recorte por tipo de motorização mostra nuances de comportamento. Quem compra veículos elétricos ainda tende a valorizar mais o ambiente físico: 37% optam por concessionárias e 27% por canais online. Já entre os consumidores de veículos a combustão interna, há ligeira inclinação ao digital: 36% preferem concessionárias, enquanto 32% escolhem plataformas online.
Carros conectados
No campo dos veículos conectados, o consumidor brasileiro privilegia recursos práticos, ligados principalmente a navegação, segurança e proteção. Soluções voltadas a conforto, bem-estar e entretenimento têm peso menor na decisão de compra.
“Os dados mostram que 55% dos entrevistados têm interesse em sistemas de navegação, e 41% estão dispostos a pagar por esse tipo de serviço. A segurança também se destaca: 54% priorizam esses recursos e 55% aceitariam investir em soluções de proteção. Já serviços de manutenção e assistência são mencionados por 29%, enquanto funcionalidades de conforto e bem-estar aparecem para 32% dos consumidores. Recursos de infoentretenimento são considerados relevantes por apenas 17%”, afirma Marcelo.
Mesmo com o interesse em alta, a adoção mais ampla dessas tecnologias ainda enfrenta obstáculos. As principais preocupações incluem distração ao dirigir (33%), custo elevado dos serviços (32%), problemas de software e atualizações (27%), falta de conhecimento sobre os recursos disponíveis (26%) e questões relacionadas à segurança e ao compartilhamento de dados (24%).
Nos sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS), a postura também é de cautela. Entre as principais apreensões estão o risco de acidentes (54%), falhas tecnológicas (52%) e a sensação de perda de controle sobre o veículo (44%).
Sobre o estudo
O Índice de Mobilidade do Consumidor (MCI) da EY chega à sua sexta edição em 2025. A pesquisa foi realizada em 32 países e ouviu 21 mil respondentes, incluindo 1.000 consumidores no Brasil. O estudo acompanha tendências de intenção de compra de veículos, preferências de motorização, adoção de elétricos, desafios da infraestrutura de recarga, jornada de varejo e interesse em recursos conectados e autônomos.















