O resultado do PIB do primeiro trimestre, divulgado nesta sexta-feira (29) pelo IBGE, reforça o diagnóstico de desindustrialização do Brasil e acende um alerta para 2026, na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Embora a indústria como um todo tenha crescido 1%, em linha com a alta de 1,1% do PIB, a indústria de transformação praticamente andou de lado: avanço de apenas 0,1% em relação ao quarto trimestre de 2025.
Sob pressão dos juros elevados e da maior entrada de produtos importados, o segmento industrial enfrenta aumento de custos em várias frentes. Pesam o encarecimento de insumos e matérias-primas, influenciado pela guerra no Oriente Médio, e a elevação da carga tributária após medidas como o aumento do IOF e a redução linear de incentivos fiscais.
“Esse quadro é ainda mais preocupante quando a indústria se depara com a possível redução da jornada de trabalho, em discussão no Congresso Nacional, o fim do imposto de importação sobre compras de pequeno valor e o tabelamento do frete, que já estão em vigor. Os custos não param de subir e o ambiente é cheio de incertezas”, afirma Marcio Guerra, superintendente de Economia da CNI.
Extrativa e construção puxam o desempenho
A indústria extrativa segue como principal motor do crescimento industrial. O setor avançou 3,6%, impulsionado pela extração de petróleo, gás natural e minério de ferro, além da alta dos preços dessas commodities em meio ao conflito no Oriente Médio. A CNI destaca que a indústria extrativa é estruturalmente menos sensível aos juros altos do que outros segmentos industriais.
Mesmo em um cenário de política monetária contracionista, a construção civil cresceu 2,9%, apoiada na expansão do mercado de trabalho e no aumento das horas trabalhadas no setor. As perspectivas para a construção melhoraram com medidas como a elevação do valor máximo dos imóveis financiados pelo Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e a criação de linhas de crédito para reforma de moradias de famílias de baixa renda.
Modelo de crescimento permanece desequilibrado
O investimento registrou alta de 3,5% no primeiro trimestre de 2026, o melhor resultado trimestral dos últimos cinco anos. Ainda assim, para a CNI, o movimento não indica uma mudança consistente no modelo de crescimento, que continua ancorado no consumo, o que é motivo de preocupação para o futuro da indústria.
Apesar da alta pontual, a taxa de investimento recuou para 16,5% do PIB, abaixo dos 17,6% observados no mesmo período do ano passado. No lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 1%, maior ritmo desde o terceiro trimestre de 2024, em boa medida sustentado por estímulos fiscais.
“Boa parte da demanda por bens industriais tem se direcionado para as importações. Isso prejudica ainda mais a situação da indústria”, ressalta Marcio Guerra.
















