O Estado de São Paulo registrou uma queda consistente nos crimes envolvendo cargas nos últimos dois anos. Ao mesmo tempo, as quadrilhas se tornaram mais estratégicas, planejam melhor as ações e miram mercadorias de maior valor. As conclusões são do novo Boletim Tracker Fecap, que analisou, de forma inédita, as ocorrências de 2024, 2025 e do primeiro trimestre de 2026.
De acordo com o estudo, o total de infrações caiu 25% entre 2024 e 2025, passando de 5.523 para 4.142 registros. A tendência de retração se acentuou no início de 2026: o volume do primeiro trimestre ficou 30,2% abaixo da média do mesmo período de 2025. “Apesar do recuo, a análise qualitativa dos dados revela que o crime não está apenas diminuindo. Ele está se transformando”, avalia Erivaldo Vieira, pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) responsável pelo estudo.
Roubo recua, enquanto crescem fraudes e delitos menos violentos
O principal motor da queda geral foi a redução de 26,4% nos roubos, modalidade que envolve violência ou grave ameaça. Outras infrações também encolheram, como receptação (-31,6%) e furto (-14,3%).
Na contramão, o estelionato cresceu 23,8% no período, indicando uma mudança no perfil da atuação criminosa. O levantamento aponta uma migração para práticas mais sofisticadas, baseadas em fraude documental (como falsas ordens de coleta e clonagem de empresas), desvio de cargas e manipulação de informações. Esse movimento amplia o desafio para transportadoras, embarcadores, seguradoras e operadores logísticos.
No primeiro trimestre de 2026, a tendência se consolida. A participação relativa do roubo caiu de 83,4% para 81,0%, enquanto o furto avançou de 11,3% para 14,1%, reforçando o deslocamento para modalidades de menor risco e menor exposição.
Natureza das infrações com cargas – 2024 vs. 2025
Roubo
• 2024: 4.713 casos
• 2025: 3.468 casos
• Variação: -26,42%
Furto
• 2024: 550 casos
• 2025: 471 casos
• Variação: -14,36%
Receptação
• 2024: 158 casos
• 2025: 108 casos
• Variação: -31,65%
Apropriação indébita
• 2024: 66 casos
• 2025: 54 casos
• Variação: -18,18%
Estelionato
• 2024: 42 casos
• 2025: 52 casos
• Variação: +23,81%
Adulteração
• 2024: 1 caso
• 2025: 6 casos
• Variação: +500,00%
Participação relativa – 1º trimestre de 2026
Roubo
• 2025 (anual): 83,4%
• 1º tri 2026: 81,0%
• Variação: -2,4 p.p.
Furto
• 2025: 11,3%
• 1º tri 2026: 14,1%
• Variação: +2,8 p.p.
Receptação
• 2025: 2,6%
• 1º tri 2026: 2,3%
• Variação: -0,3 p.p.
Apropriação indébita
• 2025: 1,3%
• 1º tri 2026: 1,7%
• Variação: +0,4 p.p.
Estelionato
• 2025: 1,3%
• 1º tri 2026: 0,9%
• Variação: -0,4 p.p.
Crime mais planejado, menos oportunista
A mudança de comportamento também aparece na forma de abordagem. A participação de interceptações em movimento cresceu de 27,3% em 2024 para 30,5% em 2026, enquanto as ações durante a entrega perderam espaço, embora ainda mantenham índices altos.
“Esse dado indica uma atuação mais estratégica, com foco no transporte — etapa em que há maior previsibilidade de rotas e volumes — e menor dependência de situações oportunistas, como paradas ou momentos de descanso”, avalia Vitor Corrêa, gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker.
A concentração das ocorrências entre terça e sexta-feira, sobretudo nos períodos da manhã e da tarde, reforça o caráter estruturado do crime, alinhado ao fluxo da atividade logística.
Participação relativa por tipo de abordagem (%)
Abordado durante entrega
• 2024: 41,27%
• 2025: 38,28%
• 1º tri 2026: 36,42%
Interceptado em movimento
• 2024: 27,29%
• 2025: 28,59%
• 1º tri 2026: 30,49%
Sem informação
• 2024: 15,12%
• 2025: 16,83%
• 1º tri 2026: 19,63%
Estacionado para descanso/refeição
• 2024: 6,37%
• 2025: 6,08%
• 1º tri 2026: 4,57%
Parada no semáforo
• 2024: 2,87%
• 2025: 2,67%
• 1º tri 2026: 2,72%
Outros (manutenção, saque, posto etc.)
• 2024: 7,08%
• 2025: 7,55%
• 1º tri 2026: 6,17%
Retenção de motoristas segue em patamar crítico
O Boletim Tracker Fecap traz um dado especialmente sensível para o setor: em quase 80% dos roubos o motorista é mantido sob poder dos criminosos, cenário que se repete de forma consistente na série histórica.
Evolução da retenção do motorista (%)
Sim
• 2024: 74,79%
• 2025: 78,41%
• 2026: 76,67%
Não
• 2024: 21,10%
• 2025: 15,70%
• 2026: 18,02%
Sem informação
• 2024: 4,10%
• 2025: 5,89%
• 2026: 5,31%
“Essa prática permite maior controle da operação, reduzindo riscos de reação imediata, dificultando o rastreamento e aumentando a probabilidade de sucesso na subtração da carga. Por isso é importante que as transportadoras invistam em imobilizadores, que permitem a atuação direta do motorista durante o evento ou diante de qualquer sinal de perigo, com bloqueio progressivo e acionamento por diferentes gatilhos de risco dentro da cabine”, defende Corrêa.
Menos ocorrências, maior prejuízo médio
O estudo também revela uma mudança na lógica econômica do crime. Embora o número de ocorrências tenha caído cerca de 25%, o valor total estimado das cargas roubadas recuou apenas 9,1%, de R$ 405,1 milhões em 2024 para R$ 368,1 milhões em 2025.
Como consequência, o prejuízo médio por ocorrência subiu 19,6%, passando de R$ 89,9 mil para R$ 107,5 mil. “Esse movimento indica uma migração para cargas de maior valor e operações mais seletivas, combinando menor frequência com maior retorno financeiro. A participação de ocorrências acima de R$ 1 milhão mais que dobrou no período”, destaca Erivaldo Vieira.
Participação por faixa de valor da carga roubada (%)
Sem informação
• 2024: 18,39%
• 2025: 17,31%
• 2026: 16,05%
Até R$ 5 mil
• 2024: 13,24%
• 2025: 9,47%
• 2026: 11,36%
R$ 5 mil – R$ 10 mil
• 2024: 11,16%
• 2025: 11,18%
• 2026: 11,98%
R$ 10 mil – R$ 20 mil
• 2024: 15,19%
• 2025: 15,72%
• 2026: 15,80%
R$ 20 mil – R$ 30 mil
• 2024: 8,68%
• 2025: 8,85%
• 2026: 9,26%
R$ 30 mil – R$ 40 mil
• 2024: 5,24%
• 2025: 5,48%
• 2026: 4,81%
R$ 40 mil – R$ 50 mil
• 2024: 4,21%
• 2025: 4,09%
• 2026: 4,81%
R$ 50 mil – R$ 60 mil
• 2024: 2,66%
• 2025: 3,32%
• 2026: 2,84%
R$ 60 mil – R$ 70 mil
• 2024: 2,10%
• 2025: 1,76%
• 2026: 1,85%
R$ 70 mil – R$ 80 mil
• 2024: 1,37%
• 2025: 1,97%
• 2026: 2,47%
R$ 80 mil – R$ 90 mil
• 2024: 0,94%
• 2025: 1,85%
• 2026: 0,49%
R$ 90 mil – R$ 100 mil
• 2024: 1,32%
• 2025: 1,73%
• 2026: 1,23%
R$ 100 mil – R$ 150 mil
• 2024: 4,34%
• 2025: 4,59%
• 2026: 4,44%
R$ 150 mil – R$ 200 mil
• 2024: 2,46%
• 2025: 2,09%
• 2026: 1,85%
R$ 200 mil – R$ 400 mil
• 2024: 4,83%
• 2025: 5,55%
• 2026: 5,43%
R$ 400 mil – R$ 800 mil
• 2024: 2,37%
• 2025: 2,84%
• 2026: 2,59%
R$ 800 mil – R$ 1 milhão
• 2024: 0,49%
• 2025: 0,72%
• 2026: 0,37%
Acima de R$ 1 milhão
• 2024: 1,01%
• 2025: 1,47%
• 2026: 2,35%
O que está na mira: alimentos, eletrônicos, fármacos e combustíveis
Os alimentos consolidaram-se como principal alvo. A participação desse tipo de carga nas ocorrências subiu de 27,3% em 2024 para 38,4% em 2026. “O crescimento está associado à alta liquidez e à facilidade de escoamento no mercado informal, características que reduzem o risco para as organizações criminosas”, explica Vieira.
Eletroeletrônicos e produtos farmacêuticos também ganham espaço, impulsionados pelo alto valor agregado e pela revenda rápida. “Esse movimento pode estar ligado à demanda crescente por medicamentos de alto valor, especialmente os que vêm registrando forte expansão de consumo, como as canetas emagrecedoras. São produtos de alto valor unitário e fáceis de transportar”, pontua Vitor Corrêa.
Na direção oposta, cargas tradicionalmente visadas, como cigarros, bebidas e bens industriais (madeira, químicos e plásticos), perderam relevância no período analisado.
Evolução do perfil da carga roubada (%)
Alimentos
• 2024: 27,25%
• 2025: 31,71%
• 1º tri 2026: 38,40%
Outros tipos
• 2024: 20,63%
• 2025: 23,52%
• 1º tri 2026: 21,36%
Carga mista
• 2024: 13,04%
• 2025: 9,09%
• 1º tri 2026: 10,00%
Bebidas
• 2024: 6,15%
• 2025: 5,29%
• 1º tri 2026: 3,83%
Cigarros/fumo
• 2024: 5,32%
• 2025: 6,73%
• 1º tri 2026: 1,98%
Metalúrgicos
• 2024: 4,50%
• 2025: 3,37%
• 1º tri 2026: 3,70%
Eletroeletrônicos
• 2024: 3,44%
• 2025: 3,68%
• 1º tri 2026: 4,94%
Têxteis
• 2024: 3,11%
• 2025: 2,04%
• 1º tri 2026: 2,10%
Farmacêuticos
• 2024: 2,33%
• 2025: 2,16%
• 1º tri 2026: 3,33%
Autopeças
• 2024: 1,99%
• 2025: 2,40%
• 1º tri 2026: 1,85%
Madeira/móveis
• 2024: 2,66%
• 2025: 2,12%
• 1º tri 2026: 0,74%
Químicos
• 2024: 2,06%
• 2025: 1,92%
• 1º tri 2026: 0,86%
Combustíveis
• 2024: 1,25%
• 2025: 1,08%
• 1º tri 2026: 1,73%
Para Erivaldo Vieira, o recorte mostra um crime em constante ajuste fino. “O roubo de cargas no período analisado demonstra elevada capacidade de adaptação, acompanhando mudanças na estrutura de consumo e nos mercados legais e ilegais. O fenômeno passa a se concentrar em produtos mais eficientes do ponto de vista econômico, o que reforça a necessidade de estratégias de enfrentamento que considerem não apenas o valor das cargas, mas também sua liquidez, sua inserção no mercado informal e sua dinâmica de consumo”, afirma.
Vitor Corrêa ressalta que a redução das ocorrências representa um avanço importante, mas o novo perfil aponta para um cenário mais complexo. “O crime se adapta rapidamente, diversifica estratégias e explora novas vulnerabilidades da cadeia logística. A combinação de tecnologia, inteligência e gestão de risco passa a ser determinante para reduzir perdas, aumentar a eficiência operacional e proteger motoristas, cargas e operações”, conclui.
















