Um brasileiro passa, em média, 52 anos, nove meses e 16 dias conectado à internet ao longo da vida. Considerando a expectativa de vida de 76 anos no país, isso significa que cerca de 70% da existência se dá online.
Os dados são de uma pesquisa realizada em abril deste ano pela NordVPN, empresa de privacidade e segurança digital. No levantamento anterior, feito em 2022, o tempo médio de vida conectado era de 41 anos, três meses e 13 dias. Em quatro anos, o brasileiro adicionou mais de 11 anos de conexão ao seu “orçamento” de vida digital. A popularização da inteligência artificial (IA) no dia a dia entra como um fator novo nesse cenário.
Segundo o estudo, dos 116 horas semanais passadas na internet, aproximadamente 42 são dedicadas ao entretenimento. Além disso, cresce o espaço ocupado pelos chats de IA: 32% dos entrevistados afirmam que essas ferramentas já fazem parte da rotina, e 42% dizem que a tecnologia melhorou sua experiência online.
É o caso de Gabriel Souza, 34 anos, que usa plataformas de IA para resolver tarefas cotidianas, agilizar buscas e acompanhar sua rotina de atividades físicas. “Neste ano, fiz a declaração do Imposto de Renda com auxílio da IA. Ela me ajudou a tirar dúvidas, lançar gastos e categorizar as informações”, relata.
Para Diogo Cortiz, professor de IA na PUC-SP e doutor em antropologia digital pela Universidade Sorbonne, a inteligência artificial passou a integrar o entretenimento do brasileiro principalmente pela evolução da linguagem dessas ferramentas. As interações ficaram mais naturais, com conversas em português e comandos de voz para falar e ouvir as respostas.
“Se a pessoa tem uma dúvida, pode ir ao Google, mas a busca tende a ser mais demorada. Já pesquisas com IA trazem a informação de forma resumida. E há um fator importante: o diálogo. A pessoa pode fazer uma pergunta adicional, e o que era uma dúvida simples vira uma conversa”, afirma Cortiz.
Essa mudança, diz o professor, altera de forma profunda a maneira como as pessoas buscam informação, produzem conteúdo e resolvem problemas cotidianos. “Preciso pedir um aumento ao meu chefe, como faço a primeira abordagem? Vou para a tecnologia. Briguei com meu cônjuge, como conduzo a situação agora? A IA também responde”, exemplifica.
Nesse contexto, a discussão sobre segurança e privacidade ganha novo peso. O estudo mostra que 82% dos brasileiros já divulgaram seu nome completo online, 78% compartilharam a data de nascimento e 63% forneceram o endereço residencial a diferentes plataformas digitais.
“Proteger-se já não significa apenas criar senhas fortes, mas entender como nossos dados são coletados, usados e processados pelos sistemas de IA com os quais interagimos todos os dias”, afirma Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN.
Cortiz lembra que as redes sociais já coletam informações por sinais comportamentais — curtidas, compartilhamentos, comentários. Com a IA, porém, o grau de exposição se intensifica. “Estamos falando de informações explícitas. Hoje posso dizer à tecnologia, por exemplo, que estou triste por tal motivo. Estou compartilhando toda a minha intimidade, e a partir disso a IA entende muito melhor meu perfil”, explica.
Esse tipo de dado, ressalta, é uma “mina de ouro” para empresas interessadas em conhecer e segmentar usuários. Não por acaso, 37% dos entrevistados dizem temer que seus dados pessoais já estejam disponíveis online sem que saibam, e 21% admitem ter compartilhado informações pessoais na internet e se arrependido depois.
Para Andreia Schmidt, professora de psicologia da USP e conselheira da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), a pandemia foi um marco na forma como as pessoas passaram a confiar seus dados a ferramentas online e a aumentar o tempo de conexão. O conforto e a praticidade do ambiente digital, diz ela, alimentam esse crescimento.
“Essas ferramentas resolvem questionamentos em segundos e executam tarefas do cotidiano a partir de um único comando, algo impensável há poucos anos”, afirma Schmidt. Ao mesmo tempo, ela alerta para o impacto social desse novo modo de viver. “Os seres humanos evoluíram precisando de contato social para desenvolver habilidades cruciais às demandas da vida em sociedade. Em um mundo em que crianças e adultos passam horas diante de uma tela, o desenvolvimento dessas habilidades fica muito prejudicado.”
A psicóloga levanta uma questão ainda sem resposta: como uma geração de crianças criada em frente a telas vai lidar com as exigências do mundo não virtual? E como adultos hiperconectados serão capazes de oferecer a essas crianças o ambiente social necessário para o desenvolvimento saudável?
Para Schmidt, o ponto central não é apenas o volume de horas passadas com chatbots ou outras tecnologias, mas a qualidade dessa interação. “Em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras — afinal, passar mais de oito horas por dia diante de uma tela é um fator de afastamento social —, a pergunta é: esse contato com a tecnologia consegue imitar relacionamentos humanos ou representa uma distração perigosa em relação a conexões genuínas?”, conclui.















