Tarifas de Trump prometem redesenhar rotas do transporte rodoviário de cargas no Brasil

Tarifas de Trump prometem redesenhar rotas do transporte rodoviário de cargas no Brasil


Mudanças no comércio exterior devem redistribuir fluxos logísticos, pressionar custos e favorecer empresas mais adaptáveis

As tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, têm potencial para provocar mudanças que vão além do comércio exterior e devem ser acompanhadas de perto pelo setor de transporte rodoviário de cargas. Na avaliação de Leonardo Busin, CEO da Buzin Transportes, a medida pode alterar os fluxos logísticos no Brasil, afetar a demanda de segmentos exportadores e acelerar um movimento de redistribuição de cargas entre diferentes cadeias produtivas.

O primeiro impacto tende a ser sentido por setores mais expostos ao mercado americano, como siderurgia, metalurgia, autopeças, madeira, papel e celulose e parte da indústria de transformação. Caso as exportações percam competitividade, a redução na produção dessas indústrias pode diminuir a movimentação de cargas nas rodovias. “O transporte é um dos primeiros setores a perceber mudanças na economia. Quando uma indústria reduz produção ou altera seu mercado de destino, o reflexo aparece rapidamente nas operações logísticas. Antes mesmo dos indicadores econômicos mostrarem esse movimento, ele já está acontecendo nas estradas”, afirma Busin.

Na avaliação do executivo, entretanto, o cenário não representa apenas retração. A reorganização das cadeias globais de suprimentos pode levar empresas brasileiras a ampliar negócios com mercados como Ásia, Oriente Médio e Europa, criando novas demandas logísticas e alterando corredores de transporte. “O desafio não é apenas transportar menos ou mais, mas transportar de forma diferente. Mudam as rotas, os prazos, os equipamentos necessários e, muitas vezes, toda a estratégia operacional”, ressalta.

Outro fator que deve influenciar o setor é o comportamento do câmbio. A valorização do dólar tende a elevar custos de aquisição e manutenção da frota, pressionando despesas com caminhões, pneus, peças e componentes importados. Em contrapartida, segmentos como agronegócio, alimentos e proteínas podem ganhar competitividade internacional, compensando parte da desaceleração observada em outros mercados.

Para Busin, esse contexto favorece transportadoras com atuação diversificada e capacidade de adaptação. “Empresas muito concentradas em um único segmento ficam mais expostas às oscilações do mercado. Quem atua em diferentes cadeias produtivas consegue redistribuir ativos, acompanhar a mudança na demanda e responder com mais rapidez às transformações do comércio internacional.”

Além dos impactos sobre o volume transportado, o executivo acredita que o novo cenário pode acelerar um processo de consolidação do setor. Em momentos de maior volatilidade, empresas financeiramente estruturadas e com maior eficiência operacional tendem a ampliar participação de mercado enquanto concorrentes reduzem investimentos ou deixam determinadas operações.

“A logística acompanha os ciclos da economia. Em períodos de incerteza, eficiência operacional, tecnologia e capacidade de adaptação passam a ser fatores ainda mais decisivos para manter a competitividade”.

Embora o alcance das tarifas dependa da evolução das negociações comerciais internacionais, Busin avalia que o transporte rodoviário brasileiro deverá assumir um papel estratégico na reorganização das cadeias de abastecimento. “O comércio internacional muda constantemente, mas a carga continua precisando chegar ao destino. A diferença estará na velocidade com que as empresas conseguirão adaptar suas operações ao novo cenário”.