A reforma tributária brasileira entra em uma fase decisiva em janeiro de 2027, quando a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) passará a ser efetivamente cobrada, substituindo PIS e Cofins. Para o setor de distribuição de autopeças, isso significa rever a formação de preços, a forma de aproveitar créditos e a gestão financeira como um todo.
A complexidade é maior em um segmento que lida com milhares de itens, ampla base de fornecedores e clientes e operações pulverizadas por diferentes estados. As distribuidoras terão de ajustar sistemas e, ao mesmo tempo, revisar processos comerciais e operacionais, sem perder competitividade.
Esse contexto ajuda a entender por que especialistas de consultorias como KPMG e EY veem a distribuição como um dos elos da cadeia que chegam à reforma com menor nível de preparação. A leitura, porém, não é unânime entre os profissionais do próprio setor.
Enquanto algumas empresas reconhecem diferenças importantes no estágio de adequação, outras destacam o alto grau de profissionalização já alcançado e avaliam que a preparação está em estágio avançado.
As divergências, no entanto, não eliminam preocupações comuns. Entre os principais pontos de atenção aparecem o recálculo de margens, a revisão de preços, a preservação de créditos tributários e a gestão dos impactos da transição sobre o capital de giro.
Para entender como o setor vem enfrentando esses desafios, o Aftermarket Automotivo ouviu Cristiane Carla, coordenadora da Área Fiscal da Auto Norte; Mario Cainé, gerente-geral da Koga Koga; e Sidney Massi, diretor financeiro da Universal Automotive.
Nesta edição do Debate AA, eles analisam os desafios da transição e detalham as medidas que vêm sendo adotadas para adaptar gradualmente suas empresas ao novo regime tributário.
QUESTÃO AA
Especialistas de grandes consultorias apontam a distribuição como um dos segmentos que chegam à reforma tributária com menor nível de preparação. Esse diagnóstico corresponde ao que vocês observam? Em que estágio de preparação sua empresa se encontra hoje? Quais desses pontos mais preocupam sua empresa hoje e por quê?
Cristiane Carla
Eu destacaria quatro frentes principais de desafio:
- Sistemas e cadastro: com milhares de itens, a classificação fiscal precisa estar correta em cada código. Um erro de cadastro se replica em milhares de notas.
- Estoque de produtos monofásicos: em 31/12/2026 será feito o levantamento do estoque desses itens, comprados no regime atual e vendidos já com CBS a partir de 01/01/2027. Esse levantamento é crucial para tratar corretamente o estoque na transição e evitar impacto na margem.
- Preço e margem: boa parte das autopeças hoje está no regime monofásico de PIS/Cofins. Com a CBS, muda a lógica de débito e crédito, o que exige revisar a formação de preços.
- Capital de giro: o split payment, os créditos condicionados ao pagamento e a convivência com o ICMS durante a transição alteram o fluxo de caixa.
Mario Cainé
Um ponto de atenção para os distribuidores é o cálculo das margens, porque os novos tributos vão impactar diretamente a fórmula de formação da margem. Com a nova sistemática de tributação e de créditos ao longo da cadeia, os impostos recuperáveis deixam de compor o custo dos produtos. Isso muda a base usada para definir o preço de venda. A distribuição precisa redobrar o cuidado, porque a base de cálculo para formação do preço passa a ter um novo peso.
Sidney Massi
Todos esses pontos são relevantes, mas nossa maior preocupação está na interdependência entre eles. Para uma distribuidora com grande volume de itens, fornecedores e clientes, uma mudança tributária não termina no cálculo do imposto. Ela afeta custo de aquisição, crédito tributário, formação de preço, margem, sistemas, contratos e capital de giro.
Por isso, estamos olhando com atenção para as duas pontas da operação. Na compra e na fabricação, uma preocupação é a capacidade dos fornecedores de se adaptar ao novo modelo e a preservação dos créditos tributários. O regime tributário e a regularidade fiscal dos parceiros ganham peso ainda maior na eficiência da cadeia. Nosso Jurídico está revisando contratos e cláusulas tributárias, enquanto as áreas Fiscal e de Compras acompanham o nível de preparação dos parceiros.
Na venda, o foco é preservar a competitividade. Estamos fazendo simulações para que as mudanças tributárias sejam refletidas nos preços da forma mais eficiente possível, evitando simplesmente repassar todos os impactos ao cliente. A premissa é buscar o menor impacto sobre preço e margem, considerando o efeito econômico em toda a cadeia.
Outro tema crítico é o capital de giro. A nova dinâmica dos tributos muda o timing de entradas, saídas e aproveitamento de créditos e, consequentemente, pode alterar a necessidade de caixa das empresas. Por isso, esses efeitos já foram incorporados às discussões e premissas do nosso Budget 2027.
A reforma, portanto, não está sendo tratada pela Universal apenas como uma alteração de impostos. Estamos encarando como uma mudança relevante no modelo econômico e operacional da distribuição.
QUESTÃO AA
A partir de janeiro de 2027, a reforma tributária entra em uma nova etapa, com a extinção de PIS e Cofins e a cobrança efetiva da CBS, além de novas exigências operacionais. Quais mudanças sua empresa já está implementando para chegar preparada a esse novo momento?
Cristiane Carla
O comitê gestor coordena frentes específicas em cada área:
- Fiscal / TI: adequação do ERP e dos documentos fiscais para apuração da CBS.
- Compras: saneamento do cadastro e alinhamento com fornecedores.
- Pricing: simulações de preço e margem no novo modelo.
- Financeiro: gestão de créditos, caixa e split payment.
- Garantias e Logística: revisão dos fluxos de devoluções, garantia e movimentação entre unidades.
Junto com a equipe fiscal, esse comitê repassa às áreas operacionais as informações e treinamentos validados previamente, garantindo que todos conheçam as mudanças e entendam os impactos na rotina. Todas as frentes passam pela validação de nossos tributaristas. O objetivo é que, a partir de janeiro de 2027, os clientes da Auto Norte não percebam qualquer impacto operacional decorrente da reforma tributária.
Mario Cainé
Nossos sistemas de gestão já estão parametrizados para a nova metodologia de tributação. Na prática, o trabalho em janeiro será ajustar o parâmetro do percentual, que ainda não foi definido e permanece sob análise do Congresso. Mas, do ponto de vista sistêmico, é isso: muda-se o parâmetro e seguimos operando normalmente. Nesse aspecto, estamos 100% preparados.
Sidney Massi
Nossa prioridade agora é transformar toda a preparação feita ao longo de 2025 e 2026 em prontidão operacional para janeiro de 2027. Na frente sistêmica e fiscal, desde janeiro de 2026 avançamos na parametrização de documentos fiscais e XMLs relativos à CBS e ao IBS. Hoje, o foco está na validação dos processos, no acompanhamento das definições regulatórias e na preparação dos sistemas para a nova etapa da transição.
Paralelamente, estamos revisando formação de preços, política de compras, contratos e critérios de avaliação de fornecedores, já considerando a nova dinâmica de créditos tributários. A meta é incorporar a variável tributária de forma mais intensa às decisões comerciais e de abastecimento, deixando de tratá-la apenas como obrigação fiscal.
Também projetamos os efeitos sobre margem, fluxo de caixa e necessidade de capital de giro, impactos que já fazem parte das premissas do nosso Budget 2027. Depois de um período intenso de conscientização e preparação da cadeia, nosso foco passa a ser garantir que sistemas, processos, contratos, preços e planejamento financeiro estejam efetivamente prontos para a virada de 2027, reduzindo riscos operacionais e preservando a competitividade da Universal e de seus parceiros.

















