Itens de segurança passiva fazem parte dos veículos há muitos anos. De forma resumida, tudo começou com o cinto de segurança dos ocupantes, ainda no fim do século 19, quando foi concedida a primeira patente para uso em carroças – um ano antes do surgimento do primeiro automóvel. Estruturas de absorção de impacto e airbags só apareceriam muito tempo depois.
Nos últimos anos, porém, uma nova geração de tecnologias passou a atuar antes mesmo que o acidente aconteça. São os ADAS (Advanced Driver Assistance Systems), os sistemas avançados de assistência ao motorista, que utilizam câmeras, radares, sensores e softwares para monitorar continuamente o ambiente ao redor do veículo. Esses recursos apoiam o condutor com funções como frenagem automática de emergência, assistente de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego e controle de cruzeiro adaptativo – algo inimaginável para quem conduzia veículos de tração animal em 1885.
A evolução dessa tecnologia já deixou de ser exclusividade de modelos de topo de linha. Prova disso é a decisão do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que tornou obrigatórios itens como frenagem automática de emergência e assistente de permanência em faixa em todos os veículos produzidos ou importados no Brasil, em uma implementação gradual a partir de 2026, com conclusão prevista para 2029.
Para sustentar essa transição, as montadoras instaladas no país começaram a estruturar a cadeia nacional de fornecimento desses sistemas. Um dos movimentos mais relevantes é o investimento de R$ 44 milhões no Senai Park, em Suape (PE), dentro do programa Mover. O projeto reúne fabricantes como Stellantis e Volkswagen, empresas como Valeo e TE Connectivity, além de universidades e centros de pesquisa, com o objetivo de desenvolver e nacionalizar sensores radar para sistemas ADAS. A meta é elevar a produção nacional desses componentes de aproximadamente 200 mil para 2,5 milhões de unidades nos próximos anos.
Se, para a indústria, o desafio está em desenvolver e nacionalizar a tecnologia, para o Aftermarket Automotivo a prioridade passa a ser preparar a cadeia de manutenção e reparação para atender uma frota cada vez mais equipada com esses sistemas.
Com a popularização dos ADAS, procedimentos que até pouco tempo eram considerados relativamente simples – como substituição de para-brisa, reparos em para-choques, alinhamento de direção ou intervenções na suspensão – passam a exigir processos de aferição e calibração para garantir que câmeras, radares e sensores continuem operando dentro das especificações do fabricante. Mais do que investir em novos equipamentos, essa realidade pede capacitação técnica, revisão de processos de trabalho e, em muitos casos, uma mudança na forma como o reparador enxerga a própria atividade.
Para discutir como essa transformação deve impactar as oficinas independentes, os desafios de capacitação e a valorização desses novos serviços, convidamos Cesar Garcia, sócio-proprietário da Mecânica do Gato, e Fernando Marquezini, CEO da K2F Auto Tech e especialista em sistemas ADAS, para mais uma edição do Debate Aftermarket Automotivo. A seguir, o que esses profissionais têm a dizer – e o que sua empresa precisa considerar diante da chegada dessa tecnologia.
QUESTÃO AA
A popularização dos sistemas ADAS está transformando atividades que antes eram essencialmente mecânicas em serviços cada vez mais dependentes de eletrônica, software e calibração. Na sua visão, o aftermarket brasileiro está preparado para essa mudança ou há risco de parte do setor perder espaço por falta de capacitação e investimento?
Cesar Garcia Sócio-proprietário da Mecânica do Gato
A eletrônica já faz parte da realidade da reparação há muito tempo, mas, com a chegada dos sistemas ADAS ao nosso mercado, será necessário mais treinamento e também investimento em equipamentos adequados. Como se trata de um sistema de segurança, não é possível trabalhar improvisando ferramentas, sob risco de causar acidentes e ferimentos nos ocupantes dos veículos. Assim, quem não se preparar vai, sim, perder espaço no mercado.
Fernando Marquezini CEO da K2F Auto Tech
Vejo esse movimento como uma oportunidade de agregar valor ao dia a dia das oficinas. As empresas que investirem em treinamento e equipamentos terão condições de oferecer uma solução mais completa ao cliente, realizando não apenas a manutenção mecânica, mas também a aferição e a calibração dos sistemas ADAS. Ao mesmo tempo, acredito que esse mercado será cada vez mais segmentado. Hoje já não existe mais aquela oficina que faz de tudo. Temos especialistas em câmbio, direção elétrica e outros sistemas, e isso também deve acontecer com ADAS.
Nem todas as oficinas precisarão realizar esse tipo de serviço internamente. Muitas poderão terceirizar a calibração para empresas especializadas e, ainda assim, entregar ao cliente uma solução completa: da substituição de um componente de suspensão até a aferição do sistema, devolvendo um veículo pronto e confiável para uso.
QUESTÃO AA
Com a expansão dos sistemas ADAS, procedimentos como troca de para-brisas, reparos em para-choques, alinhamentos e até algumas manutenções aparentemente simples passam a exigir calibrações específicas. Na sua avaliação, o mercado brasileiro já reconhece o valor desses serviços ou ainda existe resistência por parte de consumidores, oficinas, seguradoras e demais agentes da cadeia?
Cesar Garcia Sócio-proprietário da Mecânica do Gato
Na minha opinião, a maioria dos usuários ainda desconhece o funcionamento, as funções e as vantagens dos sistemas ADAS – e as oficinas que ainda não estão preparadas também não reconhecem o valor desses serviços.
Fernando Marquezini CEO da K2F Auto Tech
O mercado brasileiro ainda está tentando entender o que é o sistema ADAS, suas funcionalidades e finalidade. Apesar de as montadoras já comunicarem bastante sobre essa tecnologia, ainda não está claro para muitas pessoas que se trata de um sistema essencial para evitar acidentes e salvar vidas, tanto de quem está dentro do veículo quanto de quem está ao redor.
A partir do momento em que houver consciência sobre a importância de o sistema funcionar corretamente, acredito que o valor da aferição e da calibração será cada vez mais reconhecido. Não apenas do ponto de vista financeiro, mas também pela compreensão de que esses serviços precisam ser executados com equipamentos adequados e seguindo os procedimentos corretos, preservando a originalidade e a precisão do veículo.
Vejo o mercado em um caminho promissor. Algumas seguradoras, por exemplo, já entenderam a necessidade de remunerar a aferição em veículos que passaram por colisões, troca de para-brisa ou qualquer outro reparo que exija a calibração dos sistemas ADAS.

















