Diante de cenário global conturbado, economista vê o Brasil como destino privilegiado para investimentos

Brasil se torna destino privilegiado para investimentos em meio a cenário global conturbado

Apesar dos juros altos, do baixo crescimento e do forte endividamento das famílias, o Brasil tem ganhado relevância como opção atrativa em um cenário internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas e desaceleração econômica. A análise é do economista Roberto Dumas, mestre em Economia pela Universidade de Birmingham e em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan, em palestra realizada em 18 de junho, na sede da ABRAFILTROS – Associação Brasileira das Empresas de Filtros Automotivos, Industriais e para Estações de Tratamento de Água, Efluentes e Reúso, em Santo André (SP).

Dumas resumiu o quadro em uma frase que guiou toda a apresentação: o Brasil “tem problemas graves, mas o mundo está muito pior”. Nesse contexto, explicou, o país acaba se beneficiando, principalmente na atração de capital estrangeiro.

“Muita gente pergunta como está o Brasil. O governo está gastando demais, a produtividade é baixa, a taxa de juros é altíssima. Mas não somos Ucrânia, Rússia, Irã ou Estados Unidos, que estão em guerra. O Brasil está bem? Não. Mas o mundo está muito pior. O investidor estrangeiro olha para os países em conflito, para a Ásia dependente de petróleo, para a Europa letárgica, e acaba trazendo o dinheiro para cá. É um dos fatores que derrubou o câmbio de R$ 6,10 para R$ 4,90”, afirmou.

Crescimento “anabolizado” e limites para queda dos juros – Ao comparar o desempenho brasileiro com o dos Estados Unidos, Dumas destacou que, no primeiro trimestre de 2026, a economia norte-americana cresceu 2%, enquanto o Brasil registrou 1,8%. O dado, no entanto, vem acompanhado de um alerta.

“Nosso crescimento é anabolizado. O governo está gastando muito dinheiro, o consumo aumenta, gera inflação, os investimentos caem e não há espaço para reduzir a taxa de juros”, avaliou.

Segundo o economista, o Brasil segue a tendência global de mercado de trabalho aquecido – os EUA criaram recentemente 178 mil empregos – e também registra níveis historicamente baixos de desemprego. Esse quadro, embora positivo, pressiona a inflação e exige cautela na condução da política monetária.

Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor está em 4,2%, e o Índice de Preços ao Produtor (PPI) em 6,5%, diante de uma meta de 2%. A persistência inflacionária levou o Federal Reserve a manter os juros elevados, com impactos diretos sobre o Brasil.

“Quando os Estados Unidos mantêm juros altos, o dólar se fortalece. O câmbio aqui já pulou de R$ 5,06 para R$ 5,10. A economia norte‑americana impacta diretamente câmbio, inflação e Selic no Brasil”, afirmou.

Guerra, Trump e tarifas: efeitos sobre o comércio e o câmbio – Dumas também avaliou os impactos dos gastos militares dos Estados Unidos e da continuidade da guerra comercial sob a gestão Trump. Segundo ele, o aumento das despesas com conflitos externos e o consequente déficit nas contas externas tendem a intensificar o uso de barreiras comerciais.

“Trump está gastando demais com guerras. Quando se gasta mais do que se produz e importa mais, o déficit aumenta. A resposta tende a ser mais ‘tarifaços’. A guerra comercial de Trump não acabou; ela vai continuar.”

Impedido pela Suprema Corte de usar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para impor tarifas, o governo norte‑americano recorre à Seção 301, que permite analisar, com base nos últimos 12 meses, práticas consideradas “injustas” por outros países.

Entram nessa lista temas sensíveis para o Brasil, como o PIX, apontado por grandes bandeiras de cartão como problema no comércio digital; a pirataria, citando inclusive a região da 25 de Março, em São Paulo; e questões ambientais, como desmatamento, usadas como justificativa para novos entraves comerciais.

Dumas, entretanto, ressaltou que o PIX já se consolidou de forma irreversível no país. Lançado em 2020, o sistema é utilizado por cerca de 92% da população e movimentou R$ 64 bilhões em 2024, segundo ele.

Famílias mais endividadas, crédito caro e pressão dos alimentos – Um dos pontos mais críticos destacados por Dumas é o endividamento das famílias. De acordo com o economista, cerca de 29% da renda está comprometida com o sistema financeiro, basicamente com amortização e juros. A cada R$ 100 que o brasileiro recebe, R$ 30 vão para os bancos. O uso de múltiplos cartões de crédito, com juros em torno de 300% ao ano, agrava o quadro.

Ele atribui boa parte desse problema à falta de educação financeira, que leva a decisões de consumo e de endividamento pouco sustentáveis.

Na frente de preços, a situação também é desafiadora. Com meta de inflação em 3%, o mercado projeta 5,3% de inflação em 2026 e 4% em 2027.

Nesse cenário, Dumas avalia que a taxa Selic dificilmente cairá para um dígito.

A inflação de alimentos é outro ponto sensível. Entre dezembro de 2019 e setembro de 2025, os preços da alimentação acumularam alta próxima de 60%. O impacto é especialmente duro para a população de baixa renda. Para quem ganha até dois salários mínimos, aproximadamente 79% da renda é destinada à alimentação.

“Isso deixa o pobre mais pobre e bate diretamente no consumo”, observou o economista.

Carga tributária elevada, pouco retorno e trajetória fiscal em risco – A política fiscal brasileira também foi alvo de críticas. Dumas lembrou que a carga tributária passou de 13,8% do PIB no governo Dutra para 34,3% do PIB em 2024, sem que o nível de serviços públicos acompanhasse esse crescimento.

“Temos muito imposto e pouco retorno”, resumiu, citando que o índice de desenvolvimento humano do Brasil é inferior ao da Argentina.

Em relação ao resultado das contas públicas, o economista apontou uma piora na trajetória fiscal. Para 2025, estimou déficit de R$ 13 bilhões, desconsiderando precatórios excedentes, ressarcimento ao INSS, despesas temporárias de saúde e educação e projetos estratégicos de defesa. Ao incluir esses itens, o rombo sobe para cerca de R$ 62 bilhões.

Na avaliação de Dumas, um ajuste fiscal bem desenhado poderia gerar economia relevante ao longo dos próximos anos, desde que acompanhado de medidas estruturais, como correção das aposentadorias pela inflação, e não pelo salário mínimo; reajuste do piso de saúde e educação pela inflação, em vez de pela arrecadação; critérios mais rígidos para liberação de emendas parlamentares, seguro‑desemprego e abono salarial; e fim dos supersalários no serviço público.

Ele também criticou a tendência de ampliação de gastos em períodos eleitorais. Sem espaço para elevar impostos e com a emissão de moeda sujeita a impactos inflacionários, o aumento da dívida pública leva os bancos a cobrarem juros mais altos, encarecendo o crédito e travando o crescimento. Segundo Dumas, há taxas em torno de 45% ao ano para pessoa física no mercado de crédito.

Produtividade baixa, mercado de trabalho e falhas na educação básica – A baixa produtividade do trabalhador brasileiro foi outro tema central. Dumas criticou propostas de ampliação de descansos sem contrapartida em aumento de eficiência, como mudanças na escala 6×1, que, na visão dele, elevariam os custos das empresas e pressionariam ainda mais a inflação.

“A produtividade é muito ruim e ainda se quer descansar mais um dia. O resultado é custo maior para o empresariado, repasse para preços e mais inflação”, apontou.

Na educação, o foco do economista recaiu sobre o ensino primário. Para ele, o país investe de forma desequilibrada, priorizando o ensino superior enquanto a base permanece frágil.

“É preciso investir muito mais em ensino primário, e não em faculdade. Mas quem vota não é criança. O resultado é uma geração formada com graves lacunas, praticamente semianalfabeta”, criticou.

Oriente Médio, petróleo, fertilizantes e gargalos logísticos – No cenário internacional, Dumas destacou os riscos associados ao Oriente Médio e às rotas do comércio global. Segundo ele, uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz poderia comprometer cerca de 20% do fornecimento global de petróleo, afetando 42% do petróleo da Arábia Saudita, 21% do Iraque e 10% do Kuwait.

Ele lembrou ainda que mais de 80% do óleo consumido por Taiwan e Coreia e mais de 70% do Japão dependem de importações, em grande parte passando pela região. Por isso, o mercado está menos confiante na Ásia e mais inclinado a buscar alternativas em países como o Brasil.

Na agricultura, o impacto é duplo. Grande parte dos fertilizantes utilizados mundialmente vem do Oriente Médio. No caso brasileiro, aproximadamente 85% dos fertilizantes são importados, o que torna o país vulnerável a choques externos de preços e disponibilidade, com reflexos diretos sobre os alimentos.

Dumas também mencionou os riscos de bloqueios nos estreitos de Bab al‑Mandab e no Canal de Suez, que concentram cerca de 15% do comércio mundial e aproximadamente 30% do tráfego de contêineres.

Com o desvio de rotas pelo extremo sul da África, os prazos de transporte podem aumentar em até 15 dias, elevando custos logísticos globais e adicionando mais pressão às cadeias de suprimentos.

China, excesso de investimento e oportunidade para o agronegócio brasileiro – Ao tratar da China, Dumas ressaltou que o país opera com uma taxa de investimento em torno de 45% do PIB, ao mesmo tempo em que mantém um elevado nível de consumo.

“A China consome muito, mas produz ao quadrado. Exporta o excedente e, quando isso incomoda, vêm as tarifas de Trump e as disputas comerciais”, explicou.

No Brasil, a taxa de investimento é de cerca de 17% do PIB, patamar considerado baixo para sustentar um crescimento mais robusto.

“Nós precisamos aumentar a taxa de investimento e reduzir parte do consumo. A China, por outro lado, teria de reduzir investimentos e ampliar o consumo doméstico”, avaliou.

Na guerra comercial entre EUA e China, o Brasil acabou beneficiado no agronegócio. Ao reduzir compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos, os chineses ampliaram as aquisições vindas do Brasil, consolidando o país como um dos principais fornecedores de alimentos e commodities para o mercado asiático.

Europa perde fôlego, Ásia enfrenta choques e Brasil ganha destaque relativo – Dumas também traçou um quadro de desaceleração da economia europeia. Países centrais, como a Alemanha, crescem pouco:

– Alemanha: 0,2%; – Itália: 0,5%.

Além disso, várias economias da região já operam com dívida pública superior a 100% do PIB, caso de Espanha, Bélgica, França, Itália e Grécia, o que restringe a capacidade de estímulo fiscal.

Com a Ásia pressionada pelo petróleo, os Estados Unidos envolvidos em conflitos e a Europa em ritmo letárgico, o Brasil passa a aparecer com mais frequência nos radares internacionais.

“Mesmo com problemas, o Brasil é a bola da vez porque os problemas do mundo são piores”, resumiu Dumas.

Projeções para Brasil, Estados Unidos e China – Na parte final da palestra, Dumas apresentou suas projeções para algumas das principais economias:

Brasil – Crescimento do PIB em 2026: cerca de 1,8%; – Crescimento médio para os próximos quatro anos: entre 1,5% e 2%; – Câmbio em 2026: na faixa de R$ 5,15 a R$ 5,20; – Taxa Selic: em torno de 14%, permanecendo em patamar elevado; – IPCA: perto de 5,20%.

Estados Unidos – Crescimento em 2026: semelhante ao brasileiro; – Inflação: acima da meta, com Índice de Preços ao Consumidor em torno de 3,8%; – Juros: queda adiada, em razão dos efeitos da guerra no Irã e da persistência inflacionária.

China – PIB: expansão em torno de 4,5%; – Renda das famílias: em alta, mas com excesso de capacidade produtiva; – Confiança do consumidor: abalada por intervencionismo intenso, o que limita a disposição para consumo e investimentos privados.

Para João Moura, presidente da Abrafiltros, o evento cumpriu um papel estratégico fundamental para o empresariado do setor. “Trouxe um panorama realista e insights valiosos para auxiliar nossos associados na tomada de decisões diante de um cenário de incertezas globais e da complexidade econômica atual”, concluiu.