Francisco de La Tôrre analisa o passado, o presente e o futuro do varejo de autopeças

Francisco de La Tôrre analisa o passado, presente e futuro do varejo de autopeças no Brasil

Nascido oficialmente em 1941, o Sincopeças-SP surgiu quando o mercado brasileiro de reposição automotiva ainda engatinhava. Desde o início, sua razão de existir foi reunir empresários em torno de pautas comuns e construir uma representação capaz de defender os interesses do comércio varejista de autopeças diante do poder público e da sociedade.

Nas décadas seguintes, esse propósito se converteu em conquistas institucionais e em uma capacidade contínua de adaptação às mudanças do setor. Nesse intervalo, o aftermarket brasileiro atravessou diferentes ciclos econômicos, mudanças regulatórias, avanços tecnológicos, novas dinâmicas de consumo e uma profunda transformação na forma como empresas, consumidores e fornecedores se relacionam.

Hoje, a entidade, que completou 85 anos em maio, é parte de um dos movimentos mais emblemáticos da história recente do setor: a Aliança do Aftermarket Automotivo. Formada pelas principais entidades representativas da cadeia, a iniciativa simboliza um nível de articulação e cooperação construído ao longo de décadas e que agora se consolida com o objetivo de fortalecer ainda mais a representatividade do aftermarket brasileiro.

Para entender como o Sincopeças-SP chegou a esse momento e quais foram as principais transformações ao longo de sua trajetória, o Novo Varejo Automotivo entrevistou Francisco De La Tôrre, presidente da entidade entre 2008 e 2021. À frente do sindicato por 13 anos, ele é o segundo presidente mais longevo da história da casa, atrás apenas de Luciano Figliolia, que comandou a instituição por 21 anos e foi personagem de nossa entrevista na edição 119.

Na conversa, De La Tôrre analisou a evolução do varejo de autopeças, os impactos da digitalização sobre o setor, o papel das entidades representativas no desenvolvimento do aftermarket e o processo de construção institucional que culminou na união oficial do setor por meio da Aliança.

Novo Varejo – O senhor presidiu o Sincopeças-SP por 13 anos e atravessou períodos muito distintos da economia brasileira, incluindo crises, transformações tecnológicas e a pandemia. Ao olhar para esse período, quais foram as mudanças mais significativas no varejo de autopeças?

Francisco De La Tôrre – Cenários econômicos desafiadores fazem parte da rotina do nosso país, e as empresas precisam de criatividade e resiliência para superá-los. Mas, nesse período, sem dúvida, a tecnologia foi o fator de maior impacto para todos. A transição da informatização para a digitalização exigiu uma mudança de cultura, processos e gestão.

No modelo anterior, o varejista atuava basicamente em seu entorno, mapeando a frota e a condição socioeconômica dos clientes potenciais. Com a digitalização, o alcance se tornou exponencialmente maior. Isso traz novos desafios logísticos, de comunicação, de gestão e de organização interna. E o ponto mais crítico é que a transformação tecnológica dos próximos 10 anos tende a ser mais profunda do que a dos últimos 100, impondo desafios constantes e crescentes.

Novo Varejo – O aftermarket atual é bem diferente daquele que o senhor encontrou ao assumir a presidência. Quais foram, na sua visão, as principais mudanças na relação entre varejistas, distribuidores, fabricantes e consumidores nesse período?

Francisco De La Tôrre – Nosso mercado se caracteriza, em grande parte, por produtos de demanda inelástica. Ou seja, é a demanda que nos move. Para responder com rapidez e eficiência, é fundamental que a informação flua bem entre todos os elos da cadeia. A tecnologia e a relação de confiança entre as partes são decisivas nesse processo.

Esses aspectos são trabalhados no dia a dia pelas empresas e pelas entidades. Quando olho em perspectiva, vejo que avançamos muito na qualidade dessa integração e na maturidade das relações entre os diferentes segmentos do aftermarket.

Novo Varejo – Ao longo de seus 85 anos, o Sincopeças-SP se consolidou como uma das principais entidades representativas do aftermarket. Na sua avaliação, qual foi o principal papel da entidade no fortalecimento do varejo de autopeças?

Francisco De La Tôrre – O arcabouço legal do sistema sindical brasileiro foi criado no Estado Novo, com Getúlio Vargas, inspirado no modelo trabalhista italiano. De lá para cá, a sociedade e o mundo mudaram profundamente, o que exigiu muito trabalho e dedicação das entidades.

O Sincopeças-SP, que representa o varejo de autopeças no estado de São Paulo, chega aos 85 anos forte justamente por ter acompanhado essas transformações. A entidade esteve presente nos momentos mais delicados, atuando no Legislativo, interferindo na aprovação de leis de interesse do nosso aftermarket; no Executivo, em diálogo com secretarias e ministérios; e, quando necessário, no Judiciário, em busca de entendimentos que deem segurança ao desenvolvimento das empresas.

Novo Varejo – Muito se fala sobre o papel das entidades na modernização e no desenvolvimento dos setores que representam. O senhor enxerga no Sincopeças-SP a missão de puxar pautas que nem sempre estão no radar imediato do empresário?

Francisco De La Tôrre – Eu vejo de forma diferente. É a experiência do empresário que traz a sensibilidade necessária para a entidade atuar. As demandas nascem na empresa. O papel da entidade é organizar, traduzir e levar essas demandas aos fóruns corretos, com a força da representatividade coletiva.

Novo Varejo – Recentemente, o Sincopeças-SP passou a integrar a Aliança do Aftermarket Automotivo, ao lado de outras entidades importantes do setor. Como o senhor avalia esse movimento? Essa cooperação entre diferentes lideranças sempre existiu de forma informal ou é algo que de fato evoluiu ao longo dos anos?

Francisco De La Tôrre – A Aliança do Aftermarket é o resultado de décadas de trabalho e amadurecimento do setor. Quando comecei a colaborar com o Sincopeças-SP, em 1992, já havia iniciativas conjuntas entre entidades para fortalecer a representação junto à sociedade e ao poder público.

A criação de uma organização que represente todo o aftermarket é a consequência natural desse processo. A Aliança é um bom exemplo disso. Sua construção foi feita de forma a respeitar os interesses de todos os elos, inclusive as demandas específicas do varejo.

Novo Varejo – A história do Sincopeças-SP é marcada pela formação de lideranças que permanecem contribuindo por décadas. O atual presidente, Heber Carvalho, por exemplo, participou ativamente da entidade na sua gestão. Qual a importância dessa continuidade institucional e da formação de novas lideranças para a longevidade da organização?

Francisco De La Tôrre – Antes de assumir a presidência, fui vice-presidente do meu antecessor, Luciano Figliolia. Em 2008, quando assumi o comando, entendíamos que o atual presidente, Heber Carvalho, seria o sucessor natural.

Esse processo de sucessão planejada já faz parte da cultura da entidade. Ele garante continuidade às ações estratégicas, que muitas vezes exigem um longo período para serem implementadas. A estabilidade de liderança dá segurança à base e reforça a credibilidade institucional.

Novo Varejo – O Brasil ainda convive com percepções muito distintas sobre o papel das entidades sindicais e representativas. Como alguém que conhece essa realidade por diferentes ângulos, qual é o papel de organizações como o Sincopeças-SP para as empresas, os empresários e para o desenvolvimento do setor?

Francisco De La Tôrre – Em uma sociedade democrática, é essencial atuar em diferentes esferas de representação para que os diversos grupos de interesse sejam ouvidos e atendidos em suas necessidades. O Sincopeças-SP é a entidade reconhecida pelo poder público e pela sociedade para levar as demandas do varejo de autopeças.

É verdade que o modelo sindical precisa ser atualizado, e isso exige um grande esforço do Congresso. Mas, até lá, é o Sincopeças-SP que tem a legitimidade para fazer essa interlocução. Por isso, a participação ativa dos empresários na entidade é fundamental: é ela que dá força à instituição, garante voz ao setor e permite pressionar o Legislativo para as mudanças necessárias.


Atual presidente, Heber Carvalho reafirma compromisso da entidade

Entrevistado na edição 357 do Novo Varejo Automotivo, Heber Carvalho, presidente do Sincopeças-SP, é um dos nomes de destaque do varejo de autopeças em São Paulo. Seu diferencial é a sólida formação em contabilidade, competência particularmente relevante em um mercado constantemente impactado por mudanças e pela diversidade de regras tributárias.

Em mensagem aos varejistas, neste momento em que o Sincopeças-SP comemora 85 anos, Heber reforça o foco da entidade na adaptação às novas dinâmicas do mercado automotivo:

“O Sincopeças continua atento às mudanças no comportamento do mercado automotivo, procurando sempre levar conhecimento tanto na área técnica e logística como em marketplace. Temos observado que os empresários do nosso setor estão envolvidos nesse processo, buscando informações e alternativas para enfrentar a atual mudança de comportamento do consumidor.

Para atendê-los de forma rápida e assertiva, o Sincopeças está sempre disponível para orientar e prestar informações sobre as necessidades de mudança do setor. Temos que sair do tradicional para o mundo atual. Este é um caminho sem volta.”