O avanço dos preços dos alimentos manteve a inflação sob pressão em abril, quando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,67%. Apesar do impacto, o resultado mostra desaceleração em relação a março, quando o índice havia sido de 0,88%.
Em 12 meses, a inflação acumulada chegou a 4,39%, ainda dentro da meta definida pelo governo, de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo – ou seja, até 4,5%. No período de 12 meses encerrado em março, o IPCA acumulava 4,14%. Em abril de 2023, a inflação tinha sido de 0,43%, com alta de 5,53% no acumulado de 12 meses.
Os dados foram divulgados nesta terça-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado de abril veio ligeiramente abaixo da expectativa do mercado: o Boletim Focus, do Banco Central, projetava uma variação de 0,69% para o mês.
Em abril, o comportamento médio dos preços dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE foi o seguinte:
– Alimentação e bebidas: 1,34% (impacto de 0,29 p.p.) – Habitação: 0,63% (0,10 p.p.) – Artigos de residência: 0,65% (0,02 p.p.) – Vestuário: 0,52% (0,02 p.p.) – Transportes: 0,06% (0,01 p.p.) – Saúde e cuidados pessoais: 1,16% (0,16 p.p.) – Despesas pessoais: 0,35% (0,04 p.p.) – Educação: 0,06% (0,00 p.p.) – Comunicação: 0,57% (0,03 p.p.)
O índice de difusão — que indica o percentual de itens com aumento de preços — ficou em 65%, levemente abaixo dos 67% de março. O IBGE monitora 377 subitens de produtos e serviços.
Entre todos os itens pesquisados, a gasolina foi o que mais contribuiu para pressionar a inflação em abril:
– Gasolina: 1,86% (0,10 p.p.) – Leite longa vida: 13,66% (0,09 p.p.) – Produtos farmacêuticos: 1,77% (0,06 p.p.) – Higiene pessoal: 1,57% (0,06 p.p.) – Gás de botijão: 3,74% (0,05 p.p.) – Carnes: 1,59% (0,04 p.p.) – Energia elétrica residencial: 0,72% (0,03 p.p.) – Cenoura: 26,63% (0,02 p.p.) – Cebola: 11,76% (0,02 p.p.) – Tomate: 6,13% (0,02 p.p.)
Alimentos
Segundo o analista do IBGE Fernando Gonçalves, o grupo alimentação e bebidas respondeu por 43% da inflação de abril.
A alimentação no domicílio subiu 1,64%, enquanto a alimentação fora de casa avançou 0,59%. Gonçalves explica que o aumento dos preços está ligado à menor oferta de alguns produtos e ao custo do frete.
“No caso do leite, com a chegada do clima mais seco, típico do período, há redução de pasto, o que exige maior uso de ração para os animais e eleva os custos”, afirma.
Ele ressalta ainda que grande parte da distribuição da produção é feita por caminhões. “A alta do diesel encarece o frete dos alimentos e esse custo chega ao consumidor final”, acrescenta.
Efeito da guerra
O grupo transportes registrou alta de 0,06% em abril. Os combustíveis, dentro desse grupo, subiram 1,80%.
A gasolina, que já havia avançado 4,59% em março, ficou 1,86% mais cara em abril. O óleo diesel aumentou 4,46% (após alta de 13,90% em março) e o etanol, 0,62%.
As altas da gasolina e do diesel refletem o cenário internacional, em especial a guerra no Oriente Médio, região estratégica para a produção e o escoamento de petróleo. Como o petróleo é uma commodity negociada a preços internacionais, a valorização no exterior impacta também o mercado brasileiro, mesmo o país sendo produtor.
No caso do diesel, a pressão é maior porque o Brasil não é autossuficiente e precisa importar cerca de 30% do que consome.
Para tentar atenuar o impacto da crise internacional nos preços internos, o governo adotou medidas como isenção de tributos federais e subvenções às empresas que evitam repasses integrais das altas ao consumidor.
GNV e aviação
Na contramão dos demais derivados de petróleo, o gás natural veicular (GNV) ficou 1,24% mais barato em abril. De acordo com Fernando Gonçalves, isso está ligado à maior disponibilidade do produto no mercado interno.
“O GNV depende menos de importações. Como o preço é definido pelo próprio estabelecimento, é possível que uma oferta maior e a concorrência com outros combustíveis, que estão mais caros, tenham contribuído para essa queda”, explica.
Já as passagens aéreas recuaram, em média, 14,45% no mês, gerando impacto negativo de 0,11 ponto percentual no IPCA — foi o subitem que mais ajudou a segurar o índice.
Gonçalves lembra que os preços das passagens são coletados com 60 dias de antecedência em relação ao mês de referência. Ou seja, os valores de abril foram levantados em fevereiro, antes da escalada recente do conflito no Oriente Médio. Por isso, o indicador ainda não captou a alta do querosene de aviação (QAV), combustível derivado do petróleo.
“Como há essa defasagem de 60 dias, ainda não sentimos os efeitos do conflito no Oriente Médio”, diz.
A Petrobras, principal fornecedora de QAV no país, realizou reajustes contratuais mensais. Em 1º de abril, o aumento foi de cerca de 55%, o que levou a estatal a oferecer parcelamento aos compradores. Em maio, o reajuste ficou em 18%.
Conta de luz
O grupo habitação subiu 0,63%, influenciado principalmente pelo gás de botijão (alta de 3,74% e impacto de 0,05 p.p.) e pela energia elétrica residencial (+0,72% e 0,03 p.p.).
No caso da conta de luz, o aumento decorre de reajustes contratuais aplicados em distribuidoras das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Campo Grande, Recife, Aracaju e Fortaleza. Como o IPCA é um índice nacional, esses reajustes locais entram no cálculo da inflação média conforme o peso de cada região.
O índice
O IPCA mede a variação do custo de vida de famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos.
A coleta de preços é feita em dez regiões metropolitanas — Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre —, além de Brasília e das capitais Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju.














