Um experimento de varejo em San Francisco (EUA) começa a expor, com números concretos, um dos principais desafios econômicos da adoção de agentes de inteligência artificial: o custo de cada decisão tomada pela IA em relação ao valor que ela efetivamente gera para o negócio.
Na Andon Market, loja física criada pela empresa de pesquisa em segurança de IA Andon Labs, um painel público exibe em tempo real os resultados da operação. Até a data da visita, os dados indicavam que o gasto com processamento dos modelos já havia superado a receita acumulada com vendas.
O empresário e investidor brasileiro Lucas Montanini, cofundador da SH Squads, especializada em soluções financeiras e inteligência operacional, esteve na loja na sexta-feira (18/9), durante sua participação no UDAX, programa de aceleração da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo os números exibidos, desde 4 de março de 2026 a Andon Market havia faturado US$ 25.397 em 819 compras, enquanto os custos de processamento dos modelos de IA somavam US$ 26.733, calculados a partir do consumo de tokens, unidade usada para medir e cobrar o uso de modelos de inteligência artificial. O tíquete médio era de cerca de US$ 31 por compra.
O painel também mostrava um capital inicial de US$ 100 mil e apenas US$ 3.424 em caixa no momento do registro. Na prática, o saldo havia encolhido em US$ 96.576, o equivalente a 96,6% do capital original. A própria Andon Labs, porém, ressalta que a evolução do caixa não está ligada apenas ao desempenho da IA: despesas como aluguel e outros custos fixos também pesam no resultado.
Mais do que uma loja automatizada, a Andon Market foi concebida como um teste de autonomia empresarial. A operação é conduzida por uma agente de IA chamada Luna, que, segundo a Andon Labs, participa de decisões que vão da seleção e precificação de produtos à definição de horários de funcionamento, estratégias de comunicação e contratação de funcionários. A loja mantém funcionários humanos para executar atividades físicas que a IA ainda não consegue realizar.
Durante a visita, Montanini fez uma compra usando o celular conectado ao sistema da loja e pediu atendimento em português. Luna mudou o idioma, recebeu os pedidos por voz, registrou os produtos e encaminhou o pagamento. A atendente humana permaneceu atrás do balcão durante todo o processo.
Para Montanini, o experimento deixa claro um ponto que tende a ganhar relevância à medida que agentes autônomos passam a ser incorporados em operações comerciais: o custo da inteligência precisa ser proporcional ao valor econômico de cada decisão.
“O atendimento já funciona bem na ponta. O problema é a conta: a loja está consumindo recursos de IA em uma atividade de baixo tíquete. Um agente só se paga quando o valor econômico das decisões que toma supera o custo de processamento, infraestrutura e operação. Uma venda de US$ 31 no balcão tem uma margem limitada para absorver esse custo”, afirma.
Na avaliação do empresário, esse descompasso ajuda a explicar por que agentes de IA podem gerar mais retorno em setores nos quais cada decisão movimenta valores maiores ou corta custos relevantes.
“Uma loja física ainda depende de pessoas para repor produtos, organizar o espaço e executar tarefas no mundo físico. Em uma operação financeira, boa parte dos processos já é digital. Crédito, conciliação, atendimento, análise documental, compliance e backoffice podem ser executados por agentes em ambientes em que uma única decisão representa um valor muito maior do que uma venda de varejo”, diz.
A tese conversa diretamente com a atuação da SH Squads, que monta squads dedicados de engenharia, automação e agentes de IA para fintechs, bancos e empresas do setor financeiro. A companhia desenvolve software financeiro e automação de processos, incluindo aplicações em atendimento, crédito, compliance e operações de backoffice.
Na visão de Montanini, o caso da Andon Market não é uma demonstração de que agentes de IA são inviáveis no varejo, mas um alerta sobre o desenho da aplicação: a viabilidade econômica depende do tipo de tarefa delegada à tecnologia, do valor gerado por cada decisão e do custo computacional necessário para executá-la.
A Andon Labs apresenta a Andon Market como um laboratório para estudar o comportamento de agentes de IA quando recebem recursos financeiros, acesso a ferramentas e responsabilidades em uma operação real. O objetivo é entender os limites atuais desses sistemas e quais mecanismos de segurança são necessários para colocá-los em situações concretas do mundo físico e digital.
Sobre Lucas Montanini
Lucas Montanini é empresário e investidor em tecnologia, inteligência artificial e serviços financeiros. Cofundador da SH Squads e da Fenynx, foi também cofundador da Live On, plataforma de Banking as a Service que processou mais de R$ 5 bilhões em transações, estruturou mais de 120 bancos digitais e foi vendida ao Banco Modal em 2021. Após a operação, tornou-se sócio do Grupo XP. Hoje, continua investindo em startups de tecnologia no Brasil e nos Estados Unidos.

















