Ao Aftermarket Automotivo brasileiro, fatos internacionais raramente aparecem como notícia em si. Primeiro surgem em balanços, tarifas, aquisições e tecnologia. Depois, chegam ao balcão como preço, disponibilidade, crédito, equipamento e tipo de reparação.
Agosto trouxe três sinais relevantes.
O primeiro veio dos Estados Unidos, com a liquidação da First Brands Group, dona de marcas como FRAM, Trico e Autolite. A empresa entrou em Chapter 11 com mais de US$ 9 bilhões em passivos e apenas US$ 14 milhões em caixa. A tentativa de reorganização fracassou e o processo foi convertido em Chapter 7, ou seja, liquidação.
A lição vai além da companhia. Marca forte, portfólio amplo e presença global não significam, necessariamente, solidez financeira. Para o mercado, fica uma pergunta incômoda: quanto risco pode existir por trás de uma marca conhecida? Em uma cadeia dependente de abastecimento, prazo, crédito e confiança, fazer uma boa due diligence deixa de ser opção e passa a ser parte central da gestão.
O segundo sinal veio do comércio exterior. As tarifas americanas sobre produtos brasileiros recolocaram Brasil e Estados Unidos em negociação. O impacto não se resume às autopeças exportadas para os EUA, mas ao redesenho de cadeias globais. Quando tarifas mudam a estrutura de custos, fabricantes e distribuidores reavaliam origem, fornecedores, estoques e política de preços.
Esse movimento se conecta ao avanço chinês sobre a indústria global de componentes. A China já não disputa apenas a venda do veículo completo. Avança em baterias, eletrônica, software, sensores, módulos e joint ventures. Na reposição brasileira, a questão não é se haverá mais presença chinesa. Haverá. A pergunta passa a ser: quem será o fornecedor da próxima geração?
O terceiro sinal é tecnológico. A parceria entre AirPro e Revv para desenvolver uma plataforma integrada de ADAS, somada ao lançamento de equipamentos compactos de calibração pela Hunter, mostra que hardware, software e serviço estão se fundindo na reparação. Para a oficina, ter apenas a peça de substituição deixará de ser suficiente. Será decisivo contar com equipamento adequado, software atualizado, informação confiável e conhecimento técnico para instalar e calibrar sistemas cada vez mais complexos.
Crise empresarial, disputa tarifária e evolução em diagnóstico parecem temas desconectados, mas contam uma mesma história. O Aftermarket Automotivo deixou de estar blindado em relação a um ambiente em que risco financeiro, geopolítica comercial e tecnologia andam lado a lado.
Diante disso, surge um aprendizado direto para os gestores brasileiros. O próximo ciclo de vantagens competitivas vai além de comprar bem, vender bem ou entregar rápido. Será necessário interpretar com precisão os sinais que podem impactar preço, tecnologia, crédito, confiança e a própria forma de reparar veículos.
É fato que o Aftermarket Automotivo continuará apoiado na capilaridade, na capacidade de adaptação e na força da oficina independente – e isso é uma boa notícia. Mas essas virtudes precisam ser combinadas com uma leitura mais sofisticada do cenário global. Os eventos internacionais chegarão ao dia a dia por meio de peças, fornecedores, tarifas, softwares, equipamentos e dados. Preparar-se para eles deixou de ser mera prudência: tornou-se obrigação.

















