O que descobri sobre dados enquanto administrava um supermercado

O que Aprendi Sobre Análise de Dados Enquanto Administrava um Supermercado

Por Lucas Infante, CEO da Food To Save

Nunca tivemos tantos dados disponíveis dentro das empresas. Dashboards em tempo real, modelos preditivos, inteligência artificial, algoritmos de previsão de demanda. A capacidade analítica do varejo – e isso vale também para o setor automotivo – deu um salto impressionante na última década.

Mas um paradoxo chama atenção: nunca foi tão fácil continuar desperdiçando sem perceber.

Antes de fundar a Food To Save, fui franqueado do Carrefour Express. Vivendo a operação no dia a dia, aprendi uma lição que continua válida em qualquer segmento: dados só têm valor quando mudam uma decisão.

Eu sabia que a segunda-feira tinha um comportamento totalmente diferente da sexta. Sabia quais produtos giravam em poucos dias e quais invariavelmente acabavam virando perda. Mas essa informação, sozinha, não resolvia nada. O desperdício só começou a cair quando ela passou a orientar a operação: comprar diferente, antecipar uma promoção, rever um pedido, reduzir o volume antes de o produto encostar no vencimento.

Na prática, eficiência operacional nunca foi sobre saber mais. Sempre foi sobre agir melhor.

Anos depois, conversando com algumas das maiores redes do país por meio da Food To Save, vejo que o desafio segue o mesmo, apenas em outra escala.

Hoje, grandes empresas conseguem prever demanda com alto grau de precisão, acompanham indicadores em tempo real, conhecem o giro de cada categoria e sabem exatamente onde estão suas maiores perdas. Ainda assim, boa parte desse desperdício continua acontecendo.

Não por falta de dados, mas por falta de transformar dado em comportamento operacional.

É comum encontrar empresas que sabem quais unidades apresentam maior índice de obsolescência, quais categorias concentram as perdas e em que período isso ocorre. O diagnóstico existe. O que muitas vezes não existe é um processo que consiga transformar essa informação em uma decisão diferente já no dia seguinte.

O algoritmo prevê queda de demanda, mas a política de abastecimento continua igual. O sistema aponta redução no giro de um item, mas a ação comercial só vem quando ele já está perto do vencimento. O indicador mostra uma oportunidade, mas a rotina da operação segue regras definidas meses atrás.

O dado estava certo. A decisão continuou errada.

Esse talvez seja um dos maiores desafios das grandes organizações. Criamos estruturas cada vez mais sofisticadas para produzir informação, mas ainda temos dificuldade em fazer essa informação percorrer toda a empresa e chegar rapidamente a quem realmente muda o resultado: quem compra, quem negocia, quem abastece, quem programa a produção, quem está na ponta da operação.

Essa discussão vai muito além do desperdício. Trata de produtividade, margem, capital de giro, disponibilidade de produtos e eficiência operacional. Em um mercado de margens cada vez mais pressionadas, pequenas decisões tomadas todos os dias geram impactos gigantes no resultado da companhia.

Na Food To Save vemos isso na prática. O desperdício raramente nasce de uma decisão isolada. Normalmente, é consequência de dezenas de pequenas decisões que deixaram de ser tomadas no momento certo.

Por isso, acredito que a próxima vantagem competitiva do varejo – e de qualquer cadeia que lida com estoque, peças, insumos ou produtos acabados – não estará em coletar mais dados. Isso já deixou de ser diferencial.

A diferença estará na capacidade de transformar informação em execução, conectando analytics, compras, comercial, logística e operação de forma muito mais integrada.

Porque, no fim do dia, dashboard não reduz desperdício. Quem reduz desperdício são pessoas tomando decisões melhores.