Ofensiva asiática, estoques recordes e o trunfo do etanol: os rumos da indústria automotiva no 23º Fórum SAE BRASIL da Mobilidade

Ofensiva asiática, estoques recordes e o trunfo do etanol: os rumos da indústria automotiva no 23º Fórum SAE BRASIL da Mobilidade


Evento reuniu público recorde, acima de 500 pessoas, na Federação das Indústrias do Estado do Paraná

Com 273 mil veículos acumulados em pátios de montadoras, uma projeção de 500 mil unidades importadas até o fim do ano e a pressão por ciclos de desenvolvimento mais curtos, o setor automotivo instalado no Brasil opera sob reconfiguração estrutural. O diagnóstico de um mercado em mutação pautou os debates do 23º Fórum SAE Brasil da Mobilidade (Seção PR/SC), que está sendo realizado nos dias 5 e 6 de agosto, no Centro de Eventos da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), em Curitiba. O evento reúne a cadeia produtiva para mapear estratégias de competitividade e expansão baseadas em engenharia local, descarbonização e adaptação tecnológica.

O panorama econômico exposto na abertura do fórum apontou caminhos para o equilíbrio logístico e comercial do setor. O mercado brasileiro, que contava com 25 marcas em 2010, caminha para abrigar 55 montadoras em 2026. A consequência direta é o estrangulamento da cadeia: as fabricantes tradicionais, donas de 80% do mercado, acumulam 163 mil veículos em estoque, enquanto as novas entrantes somam 410 mil unidades. A retenção de 92 mil carros apenas no porto de Vitória (ES) inflacionou o frete rodoviário e deflagrou uma rodada de cortes de preços.

Ciro Possobom, presidente e CEO da Volkswagen do Brasil, e Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, abriram o debate conduzido por Isadora Carvalho, editora do Jornal do Carro, suplemento automotivo do jornal O Estado de S. Paulo. Para eles, a resposta ao cenário macroeconômico exige o abandono de modelos de importação pura em favor do fortalecimento da manufatura local. O setor automotivo responde hoje por 20% do PIB industrial brasileiro.

A substituição da produção interna por componentes importados, segundo os executivos, merece posicionamento institucional, para garantir a performance de uma rede que movimenta R$ 100 bilhões em compras de peças e gera R$ 26 bilhões em impostos, além de dezenas de milhares de empregos.

O evento ainda resgatou um trunfo que pode colocar a indústria automotiva brasileira na vanguarda da sustentabilidade global: o etanol. O debate sobre o protagonismo nacional na descarbonização ganhou força durante o 23º Fórum SAE BRASIL da Mobilidade, quando líderes do setor automotivo destacaram o biocombustível como uma vantagem competitiva única do país no complexo cenário global de eletrificação.

Uma análise detalhada do ciclo completo de emissões – que mede o impacto desde a produção da energia até o seu uso no veículo – revela que os motores movidos a etanol (especialmente as novas plataformas híbridas flex) possuem uma eficiência ambiental de altíssimo nível. Segundo os dados apresentados por Ciro Possobom, essa tecnologia nacional supera, em muitos cenários, a eficiência de emissões dos carros 100% elétricos europeus.

O motivo para essa superioridade sustentável do etanol está na origem da energia. Enquanto o Brasil utiliza um combustível limpo, renovável e plantado localmente, a matriz energética da Europa ainda depende fortemente de fontes fósseis e altamente poluentes, como o carvão e o gás natural, para gerar a eletricidade que abastece as baterias de seus veículos elétricos.

Liderança estratégica e engenharia nacional

Essa realidade coloca o Brasil em uma posição de liderança estratégica. O setor automotivo é um dos mais regulamentados do país e, atualmente, os veículos leves respondem por apenas 4% das emissões brasileiras de CO₂ (em drástico contraste com o desmatamento e uso da terra, que ultrapassam os 40%). Os investimentos do setor já permitiram conquistas históricas, como a redução de 99,5% nas emissões de poluentes como o NOx ao longo das últimas regulamentações.

Para os investidores, engenheiros e formuladores de políticas públicas que debatem os próximos passos da indústria no Fórum SAE BRASIL, a conclusão é clara: o futuro da mobilidade limpa no país não será um mero reflexo das soluções importadas. A resposta mais sustentável e viável para o mundo une a eletrificação (motores híbridos) à força do etanol, valorizando a engenharia nacional e consolidando o combustível brasileiro como a alternativa ecológica mais inteligente e competitiva da atualidade.

O veículo como software e o ciclo de desenvolvimento

A mudança no perfil do consumidor foi outro tema que mobilizou os participantes do Fórum. Ela altera a linha de montagem já que a exigência por aceleração e mecânica tradicional cedem espaço para a demanda por conectividade, inteligência artificial integrada e atualizações de software remotas. Gisele Tonello, vice-presidente de software business da Stellantis South America, e Martin Krueger, vice-presidente de Powertrain da Bosch Alemanha, detalharam a migração do hardware para a arquitetura eletrônica, na qual o software define o valor do produto. Para entregar essa tecnologia e competir com as montadoras chinesas, que reduziram o ciclo de desenvolvimento de veículos de cinco para até dois anos, a engenharia nacional recorre à digitalização. O uso de prototipagem 100% virtual, adotado no projeto do Volkswagen Nivus, e o desenvolvimento de assistentes de inteligência artificial locais exemplificam a resposta da indústria.