Rapidez de reação será essencial para o varejo de autopeças

Rapidez de Reação Será Essencial para o Sucesso Competitivo no Varejo de Autopeças

A transformação disruptiva do aftermarket global costuma ser tratada como um tema de futuro. Fala-se em veículos conectados, inteligência artificial, eletrificação e novas cadeias de suprimentos em apresentações estratégicas e fóruns corporativos. Mas, ao enxergar tudo isso como algo distante, o setor corre o risco de ignorar o essencial: essas mudanças já estão em curso. O “futuro” nunca esteve tão presente no dia a dia da reposição automotiva.

Leitores do Novo Varejo – e, mais recentemente, também do Aftermarket Automotivo, nova plataforma de conteúdo da Nhm – vêm acompanhando em detalhe uma sequência de fatos concretos que comprova: a disputa pelo controle da próxima geração da reposição deixou o campo das projeções de seminários e palestras e entrou definitivamente na rotina operacional do mercado, em todos os elos da cadeia.

Talvez o exemplo mais emblemático esteja a milhares de quilômetros do Brasil, no norte do Marrocos. Enquanto a União Europeia aperta o cerco comercial contra a China, um gigantesco polo industrial cresce nos arredores de Tânger. A Mohammed VI Tanger Tech City tornou-se um dos principais destinos dos investimentos chineses ligados à cadeia automotiva. Fabricantes de freios, pneus, componentes para baterias e sistemas eletrônicos estão instalando operações no país para atender, sobretudo, o mercado europeu.

Entre os projetos já anunciados estão a nova fábrica da APG, de sistemas de frenagem, a unidade da Sentury Tire e os investimentos da BTR New Material Group, líder mundial em materiais para baterias. A Gotion High-Tech, fornecedora global com participação acionária da Volkswagen, também ergue uma gigafábrica de baterias estimada em US$ 1,3 bilhão. De acordo com a Rhodium Group, os investimentos chineses anunciados no Marrocos desde a pandemia já superam US$ 6 bilhões.

Para a União Europeia, esse movimento representa uma ameaça potencial à indústria automotiva do bloco. Para o aftermarket, aponta algo igualmente relevante: está sendo construída uma nova geografia de fornecimento. A questão deixa de ser simplesmente “importar da China” para se tornar “importar de uma cadeia produtiva chinesa globalizada”.

Algoritmos

Outro campo de disputa se forma dentro das próprias operações do aftermarket. Nos Estados Unidos e na Europa, fabricantes e distribuidores passaram a empregar inteligência artificial para prever demanda, otimizar estoques e automatizar processos de catalogação.

No Brasil, o movimento ainda é inicial, mas avança rápido. Empresas de inteligência de mercado e plataformas de gestão já processam grandes volumes de dados de distribuidores, varejistas e oficinas para identificar padrões de consumo e antecipar decisões de compra.

O que antes dependia quase exclusivamente da experiência do comprador começa a ser apoiado por modelos analíticos. É uma mudança estrutural, porque atinge o principal ativo competitivo do varejo de autopeças: a decisão de estoque em um ambiente pressionado pela multiplicação de marcas e modelos na frota circulante – cenário que se intensifica com a eletrificação e a chegada de novas, e até então desconhecidas, montadoras chinesas.

Monitoramento

Talvez a transformação menos visível esteja nos dados. Tradicionalmente, o setor sempre recorreu a indicadores clássicos de frota e produção, mas dispunha de poucos instrumentos para acompanhar o comportamento cotidiano da reposição.

A pandemia virou essa chave ao acelerar a digitalização. Nesse contexto surgiram as pesquisas MAPA, ONDA e VIES, desenvolvidas pelo After.Lab, núcleo de inteligência de negócios da Novomeio Hub de Mídia para o mercado de reposição. Publicados semanalmente pelo Novo Varejo Automotivo e pelo Aftermarket Automotivo, esses levantamentos passaram a monitorar vendas, compras, abastecimento e comportamento de preços em tempo quase real.

As inovações vêm em duas frentes: a atualização contínua dos índices e, sobretudo, a frequência da informação. Enquanto boa parte dos indicadores tradicionais entrega uma fotografia mensal ou anual, as pesquisas do After.Lab permitem observar oscilações semanais, antecipando movimentos que, de outro modo, só apareceriam semanas depois nos resultados financeiros.

O êxito da iniciativa estimulou o avanço de outras plataformas de inteligência baseadas em dados de ERP, sell-out e comportamento das oficinas, ampliando o poder de leitura do mercado.

Eletrificação

Outro dado relevante dos últimos meses é a continuidade do crescimento dos veículos eletrificados no Brasil. Ainda representam uma fatia pequena da frota circulante, mas os volumes de vendas vêm subindo de forma consistente – e com uma inflexão importante.

Em maio, o país registrou 45 mil emplacamentos de eletrificados leves. Desse total, 39% já correspondem a veículos fabricados ou montados localmente. A participação dos modelos importados no total mensal caiu de 94% em maio de 2025 para 61% em maio de 2026. No mesmo intervalo, a presença dos eletrificados produzidos ou montados no Brasil saltou de 6% para 39%, com pico de 42% em fevereiro.

É um caso típico de disrupção tratada apenas como futura, quando, na prática, já altera o presente da reposição. Muito antes do imaginado pelas projeções, a expansão da frota eletrificada provoca movimentos concretos: fabricantes ampliam portfólios, distribuidores e varejistas precisam estruturar estoques específicos e oficinas passam a investir em treinamento para lidar com sistemas de alta tensão.

Para muitos, a mudança ainda pode parecer discreta, mas carrega um peso estratégico. Se historicamente o aftermarket sempre contou com tempo para reagir às transformações da frota, a velocidade atual sugere que essa janela de adaptação está encurtando.

Há um traço comum em todos esses movimentos: nenhum deles nasceu dentro da loja de autopeças. A inteligência artificial veio da tecnologia. A eletrificação, das montadoras. A reorganização industrial, da geopolítica. Os novos sistemas de inteligência, da análise de dados. Mas todos, inevitavelmente, convergem para o mesmo ponto: o balcão.

É ali que os efeitos dessas transformações se materializam em novos produtos, novos concorrentes, novas exigências operacionais e novas oportunidades de negócio. Por isso, talvez a principal mudança em curso no aftermarket não seja apenas tecnológica ou industrial, mas cultural.

O segmento sempre carregou a reputação de conservador e cauteloso diante de tendências que exigem quebra de paradigmas. Agora, porém, diante do cenário descrito, os gestores de lojas serão cada vez mais pressionados a olhar além da próxima venda e a interpretar sinais de longo prazo.

Entender para onde vai o mercado deixa de ser um exercício opcional. O rumo está traçado – e ele aponta, em muitos aspectos, para um território ainda pouco conhecido.