Tarifaço e instabilidade econômica global atingem o varejo

Como o Tarifaço e a Instabilidade Econômica Global Estão Impactando o Varejo Brasileiro

Tarifas comerciais e mudanças nas relações entre países costumam aparecer nas páginas de economia com foco nos impactos diretos sobre a indústria. Mas essa distância entre o cenário internacional e o dia a dia do varejo, inclusive o de autopeças, vem diminuindo de forma acelerada.

Mesmo quando não incidem diretamente sobre os produtos vendidos no Brasil, essas tensões encontram diversos caminhos até o mercado doméstico. A volatilidade cambial encarece importações, componentes e insumos industriais; ajustes nas rotas e nos fluxos internacionais pressionam custos logísticos; e o aumento da percepção de risco chega ao consumidor por meio do crédito mais caro e da queda de confiança para fechar novas compras.

Esse impacto também não se distribui de forma homogênea. Setores ligados a compras de maior valor, dependentes de financiamento ou de decisões de longo prazo, reagem de maneira diferente dos segmentos associados a bens essenciais, que o consumidor tenta preservar mesmo em cenários adversos.

Ao mesmo tempo, a reorganização do comércio mundial já começa a redesenhar as relações de fornecimento do varejo brasileiro. A busca por diversificação de origens ganha peso e amplia ainda mais o protagonismo da China, algo particularmente visível no mercado de autopeças. O país asiático ocupa hoje o centro das discussões, beneficiado pelo espaço aberto pelo aumento das tensões entre os Estados Unidos e vários de seus parceiros comerciais.

Para o assessor econômico da FecomercioSP, André Sacconato, a principal arma do varejista diante desse quadro é entender quais riscos podem ser geridos internamente. Em entrevista exclusiva, ele destaca pontos como a redução da exposição cambial e uma gestão de estoque ainda mais rigorosa.

Como o varejo sente as tarifas impostas pelos EUA

As tarifas americanas atingem a indústria de forma quase imediata, com aumentos bruscos de preço logo após sua adoção. No varejo, porém, o efeito vem por outros canais.

Sacconato explica que o primeiro deles é o câmbio: em um ambiente de incerteza global e disputa tarifária, a tendência é de desvalorização das moedas de países emergentes. O resultado é que o varejista precisa de mais reais para comprar qualquer produto cotado em moeda estrangeira, mesmo que o preço em dólar ou yuan não tenha mudado. O impacto alcança tanto a importação direta quanto os insumos adquiridos pela indústria local, que repassa esse custo adicional ao varejo. A isso se somam fretes mais caros, em função de rotas mais complexas ou riscos maiores.

Confiança, crédito e o comportamento do consumidor

A instabilidade internacional também chega ao bolso – e à cabeça – do consumidor. Ao acompanhar notícias de disputas comerciais e rupturas na globalização, muita gente tende a ficar mais cautelosa, atrasar decisões de maior valor e priorizar a recomposição da reserva financeira.

Há ainda o efeito sobre o crédito. Em um ambiente mais arriscado, instituições financeiras elevam spreads, encurtam prazos ou endurecem critérios de concessão. Para segmentos que dependem fortemente de parcelamento e financiamento – como veículos, linha branca e construção civil – esse encarecimento do crédito costuma ser imediato.

Estímulos domésticos: só amortecem, não anulam o choque externo

Políticas internas de estímulo ao consumo ajudam, mas têm alcance limitado. Sacconato lembra o caso da pandemia: mesmo com programas de crédito subsidiado, redução de impostos e medidas emergenciais, o efeito principal – lojas fechadas, demanda travada – já estava dado.

Na avaliação dele, algo semelhante ocorre com choques externos de origem política ou geoeconômica. Governos podem suavizar parte das consequências, mas não conseguem reverter a raiz do problema. “Todos esses programas são paliativos”, resume. “A origem do choque é externa e independe da vontade do empresário e do governo brasileiro.”

Quem sente primeiro: bens duráveis na linha de frente

A heterogeneidade do varejo ajuda a entender por que alguns segmentos sofrem antes dos outros. Os canais de transmissão da crise – câmbio, confiança e crédito – têm peso maior nas decisões de longo prazo.

Automóveis, eletrodomésticos de linha branca e construção civil estão entre os setores mais sensíveis. São compras que o consumidor consegue adiar sem comprometer necessidades básicas, especialmente quando o financiamento fica mais caro ou mais difícil. Supermercados e demais ramos ligados a itens essenciais também sentem o impacto, mas em menor intensidade. Eles acabam pressionados principalmente pelo aumento do custo de importação e pela alta de despesas estruturais, como aluguel e manutenção.

Elasticidade de preço: quem é mais vulnerável a choques?

Um conceito central para entender essa diferença é o de elasticidade-preço da demanda. Em linhas gerais, categorias elásticas reagem muito a pequenas variações de preço: um aumento relativamente modesto derruba o consumo de forma significativa. Produtos inelásticos fazem o caminho inverso: mesmo com altas expressivas de preço, o volume consumido cai pouco.

Itens básicos de alimentação são o exemplo clássico de demanda inelástica. Se arroz, feijão ou carne sobem, as famílias tentam manter o consumo, ajustando outros gastos. Já bens como TV, geladeira nova ou um carro adicional tendem a ser muito mais elásticos. O consumidor pode adiar a substituição, conviver com o bem antigo por mais tempo ou simplesmente cancelar a compra. Essa característica torna esses setores mais vulneráveis a crises e a choques externos.

O que o varejista pode fazer: câmbio, estoque e fornecedores

Dentro desse cenário, o que está efetivamente sob controle do varejista?

Para Sacconato, o primeiro passo é evitar ao máximo obrigações de longo prazo atreladas a moedas estrangeiras, como contratos em dólar a um ano. Quando isso for inevitável – por exemplo, em operações fortemente dependentes de importação – ele recomenda recorrer a instrumentos de proteção (hedge), como a compra antecipada de moeda, para reduzir o risco de uma alta abrupta do câmbio provocar um rombo de caixa.

O segundo ponto é a gestão de estoques. Em um ambiente volátil, estoque parado significa dinheiro imobilizado e risco de desvalorização. A orientação é trabalhar com volumes mínimos necessários, aproximando-se do conceito de just in time sempre que possível, e aprimorar o planejamento de demanda para reduzir erros de compra.

A terceira frente é a diversificação de fornecedores, tanto em termos geográficos quanto de concentração em poucos parceiros. Isso vale tanto para o varejo geral quanto, de forma muito particular, para o setor de autopeças.

Diversificação: o avanço da China nas prateleiras brasileiras

Segundo Sacconato, a diversificação já é uma realidade, sobretudo nas grandes redes. Mas, na prática, diversificar hoje significa, em grande medida, aumentar a participação da China nas cadeias de fornecimento.

A leitura dele é que Pequim vem se aproveitando do espaço deixado pelos Estados Unidos em várias frentes. Enquanto Washington eleva tarifas e amplia conflitos, a China reduz algumas taxas de importação em produtos estratégicos, tornando-se ainda mais atrativa como origem de compras e destino de exportações.

No caso do Brasil, isso se traduz em um redirecionamento gradual, mas consistente, de fluxos comerciais. O resultado é um aumento da dependência de itens chineses em segmentos como o de autopeças, que já convive há anos com a oferta competitiva vinda daquele mercado.

Transações sem dólar e menor exposição à imprevisibilidade americana

Mesmo quando a China é o principal parceiro, o dólar ainda desempenha um papel relevante como moeda de referência global. Mas há espaço crescente para operações em moedas locais. Brasil e China já mantêm reservas em real e yuan, o que permite transações bilaterais sem passar pelo dólar. A mesma lógica começa a valer, em menor escala, para outros países com acordos específicos, como a Argentina.

Sacconato ressalta que, mesmo quando a negociação continua sendo feita em dólar, há uma diferença importante: ao se afastar de Washington e aproximar-se de Pequim, o Brasil reduz a exposição à volatilidade gerada por decisões unilaterais do governo americano, como mudanças repentinas de tarifa. Em outras palavras, o câmbio continua sendo um risco, mas a imprevisibilidade política associada a determinados governos perde peso.

Autopeças: espaço aberto para um protagonismo ainda maior da China

No varejo de autopeças, a forte presença de produtos chineses tende a se ampliar enquanto perdurarem as atuais tensões comerciais globais. A avaliação de Sacconato é que a estratégia dos Estados Unidos, sobretudo sob governos mais confrontacionistas, acaba produzindo o efeito contrário ao desejado: em vez de isolar a China, empurra outros países em direção a ela.

Ao se desentender simultaneamente com parceiros tradicionais – casos de Brasil, Canadá e até países europeus – Washington abre caminho para que a China ocupe esses espaços com mais agressividade comercial e melhores condições de acesso.

Para o varejo brasileiro de autopeças, isso significa uma tendência clara: aumento das transações com fornecedores chineses, maior dependência de sua competitividade e a necessidade de profissionalizar ainda mais a gestão de risco cambial, de estoque e de qualidade, em um ambiente em que o cenário internacional deixou de ser pano de fundo distante para se tornar variável estratégica do dia a dia dos negócios.