Especialistas alertam que reparos feitos da forma errada podem comprometer a originalidade do veículo e reduzir significativamente seu valor de revenda
Uma porta que bate no estacionamento do mercado, uma chuva de granizo no fim da tarde, uma bola que acerta a lataria enquanto crianças brincam na rua ou até uma fruta que cai sobre o teto do carro. Pequenos amassados fazem parte da rotina de quem dirige nas grandes cidades. O problema é que muitos motoristas ainda resolvem danos simples da maneira mais cara possível.
O impacto pesa ainda mais em um momento em que os brasileiros permanecem mais tempo com o mesmo automóvel e observam com atenção o valor de revenda. Dados do Sindipeças mostram que a idade média da frota brasileira ultrapassou 11 anos em 2025, reflexo do aumento no preço dos carros novos e da dificuldade de renovação da frota no país. Ao mesmo tempo, cresce o cuidado com manutenção e conservação estética.
A mudança de comportamento também aparece nos hábitos de consumo. Pesquisa da Webmotors aponta que 73% dos brasileiros realizam manutenção automotiva ao menos uma vez por ano, enquanto parte dos proprietários chega a investir entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil anuais em cuidados com o veículo.
Segundo João Ricardo Chamone Maciel, profissional especializado em Martelinho de Ouro, muitos consumidores ainda recorrem automaticamente à funilaria tradicional sem considerar os impactos futuros desse tipo de reparo. “Muita gente acredita que qualquer amassado exige pintura. Só que, quando a tinta não foi danificada, é possível recuperar a peça sem massa e sem repintura. O carro mantém o padrão original de fábrica”, afirma.
Na prática, a diferença vai além da estética. Em veículos seminovos, intervenções na pintura costumam ser percebidas por compradores, lojistas e profissionais do setor automotivo, principalmente em carros mais valorizados ou com histórico de conservação rigoroso. “Mesmo quando o serviço fica visualmente bom, profissionais mais atentos conseguem identificar diferenças na pintura. Dependendo do veículo, isso costuma pesar na negociação”, explica João.
Nos bastidores das revendas e concessionárias, cresce também o uso do laudo cautelar como ferramenta de avaliação na compra e venda de automóveis usados e seminovos. O procedimento identifica sinais de repintura, intervenções estruturais e possíveis avarias, funcionando como uma verificação detalhada do histórico e da estrutura do veículo. “Hoje, o comprador busca mais segurança antes de fechar negócio. O laudo cautelar consegue apontar alterações que muitas vezes passam despercebidas visualmente. Quando o reparo preserva a pintura original, isso faz diferença”, diz.
Segundo o especialista, a preocupação é ainda maior em veículos de maior valor agregado e até em carros zero quilômetro. “Já atendi concessionárias e casos de veículos novos que sofreram pequenos danos no transporte ou no dia a dia. Em muitos deles, foi possível recuperar sem alterar a pintura original, mantendo as características de fábrica e evitando desvalorização”, afirma.
Outro fator que influencia a escolha do reparo é o tempo. Enquanto serviços tradicionais podem deixar o carro parado por dias, técnicas de recuperação estética conseguem resolver danos leves em poucas horas. “Tem motorista que descobre tarde demais que aquele pequeno amassado poderia ter sido resolvido sem alterar a estrutura estética do veículo. Muitas vezes, o prejuízo aparece apenas na hora da venda”, comenta João.
Para o administrador e especialista em finanças Renan Conrado Frigo, o aumento dos preços no setor automotivo mudou a relação do brasileiro com o próprio patrimônio. “O carro deixou de ser um bem de troca rápida para muitas famílias. Hoje, conservar o veículo influencia diretamente liquidez, patrimônio e poder de negociação”, afirma.
Segundo ele, pequenos danos ignorados ou reparos feitos sem preocupação com preservação podem gerar perdas financeiras maiores no futuro. “Muita gente olha apenas para o custo imediato do conserto e esquece o impacto que isso pode causar no valor percebido do veículo alguns anos depois”, declara.
Com carros mais caros, frota envelhecida e consumidores mais atentos à revenda, preservar as características originais do veículo deixou de ser apenas uma preocupação estética e passou a fazer parte da valorização patrimonial.

















